O historiador Michel Gherman e o cientista social Daniel Douek traçam os riscos do Boicote Acadêmico para o isolamentos dos setores progressistas de Israel.

Michel Gherman

NIEJ-PPGHIS/UFRJ

Daniel Douek

GT Oriente Médio Mundo Muçulmano/USP

 

 Boicotes, Desobediência Civil e Luta Política

Após os trágicos resultados da Segunda Intifada – para palestinos e israelenses – grupos palestinos, organizações internacionais e militantes adotaram uma nova estratégia política: passaram a investir esforços em uma grande campanha de boicote. Seguindo as diretrizes desta campanha, seriam realizados movimentos políticos constantes para que o Estado de Israel fosse isolado, deslegitimado e transformando em uma espécie de “pária internacional” até que se encerrasse o ciclo de “ocupação militar, colonização, limpeza étnica e apartheid”, segundo Omar Barghouti.

Lançada em julho de 2005, a campanha pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) convocava a comunidade internacional, artistas, intelectuais, empresários e toda a “sociedade civil” para “cobrar de Israel os custos pelos anos de sofrimento e injustiça causados aos palestinos, tal qual ocorreu na luta para a abolição do apartheid sul-africano”, de acordo com Barghouti.

O debate sobre formas não violentas de resistência remonta a momentos-chave na história das lutas sociais e políticas. De fato, para além de servirem apenas como estratégias pontuais e de propaganda, campanhas que pregam desobediência civil e boicote levaram movimentos sociais a importantes vitórias em várias partes do mundo, impulsionados pela ideia de que há justiça na “desobediência da lei em nome da lei”, como afirmava Hannah Arendt. O “direito a desobedecer”, que foi pensado por Michael Walzer, nesse contexto, estabelece que grupos culturais, povos oprimidos e setores sociais podem se utilizar do ato de “infringir” ou “boicotar” para desafiar poderes opressores. Muitas vezes, é justamente a resistência pacífica, e não atos de violência ou guerrilha, que faz avançar a luta política e garante o êxito em embates que pareciam fadados ao fracasso.

No século XX, três experiências desse tipo são emblemáticas e servem de referência ao movimento BDS.

Ainda nos anos 30, após a proibição, imposta pela Inglaterra, da coleta e do comércio de sal por trabalhadores indianos, Mahatma Gandhi conclamou a população a resistir, desobedecendo as leis da potência colonizadora de forma pacífica. Apesar das milhares de prisões e da repressão inédita, a ação criou resultados e foi fundamental para o processo de independência do país.

Já no sul dos Estados Unidos, outra onda de desobediência acabou por influenciar lutas sociais no mundo inteiro, além de gerar o vitorioso movimento dos direitos civis. Durante os anos de 1955 e 1956, a população negra da cidade de Montgomery, no estado do Alabama, passou a boicotar o transporte público que servia a cidade a partir de uma lógica de segregação racial. Liderados por Martin Luther King e organizados na Associação pelo Progresso de Montgomery, os habitantes da cidade aliaram resistência civil (boicote e manifestações) e luta política (uma série de processos na justiça americana). Após um ano e meio de disputa, os tribunais americanos consideraram a segregação no transporte público ilegal.

Apesar da relativa importância que esses dois movimentos têm na história das lutas populares, é o esforço sul africano contra o apartheid aquele que mais inspira a campanha de boicote contra Israel – para além de ser apenas uma referência, ele serve de modelo. Dessa forma, lideranças do movimento BDS, como Barghouti, propõem “uma estratégia sul africana para a Palestina”.

1 – A segunda Intifada ocorre entre os anos de 2000 e 2005 e tem como origem simbólica a visita de Ariel Sharon (então líder da oposição) à explanada das Mesquitas.
2 – 
A regra do transporte coletivo na cidade determinava que brancos e negros deveriam sentar-se separadamente nos ônibus, sendo que negros tinham que dar preferência à parte traseira do veículo. No caso de o ônibus estar cheio, a prioridade deveria ser dada ao passageiro branco, tendo o passageiro negro que permanecer em pé ou descer do veículo. A campanha de boicote de Montgomery teve início quando Rosa Parks, uma mulher negra e grávida se negou a dar seu lugar a um homem branco no ônibus. Como resultado, Rosa foi levada à prisão, o que desencadeou o boicote. (Ver: BURNS, 1997).

 

Apartheid e o Boicote Acadêmico

O regime de apartheid na África do Sul tem início em fins da década de 1940 e, em meados da década de 1950, começam as primeiras tentativas de boicote. O movimento antiapartheid adotava quatro linhas mestras: boicote econômico, boicote cultural, boicote esportivo e boicote acadêmico. Aqui, nos concentraremos no boicote acadêmico, referência importante para o BDS atual, embora a campanha opere nas mesmas quatro frentes.

Em grande medida, o sistema de ensino superior sul-africano era segregado racialmente, existindo universidades exclusivas  para negros e outras para brancos. A partir dos anos 1960, impõe-se maior controle político do quadro docente e, em 1965, os professores Jack Simons e Eddie Roux são banidos da universidade por razões ideológicas. Como reação, dá-se início a um boicote especificamente acadêmico, quando 496 professores e intelectuais britânicos assinam um documento prometendo não se candidatar para ou aceitar cargos em universidades sul africanas que praticavam a discriminação racial.

Nas décadas seguintes, a discriminação apenas cresceu. Em 1983, a Universidade de Pretória contava com 16.849 estudantes em seus campi, dos quais apenas dois eram negros. Já a Universidade da Cidade do Cabo, considerada mais aberta e “democrática”, reunia 10.440 estudantes, sendo somente 257 negros, de acordo com Eli Bitzer. Não é preciso dizer que praticamente não havia professores negros lecionando em universidades brancas. O movimento pelo boicote, nesse contexto, se consolidou.

Certamente, caberia pôr a prova as comparações sistemáticas entre Israel e África do Sul, e entre sionismo e apartheid. Aqui cabe a questão: O paralelo é relevante ou se presta mais à propaganda política, uma espécie de hasbará pró-palestina?

Não devemos ter dúvidas de que há conjunturas em Israel que remetem ao quadro do apartheid sul-africano. Não devemos esquecer que a ocupação de territórios palestinos a partir de 1967 criou situações de segregação e exclusão. Também não devemos ignorar que palestinos de Hebron, Belém e Ramallah vivem realidades de opressão e violência diária.A questão aqui é o fato de que o BDS não se limita a boicotes nos territórios palestinos ocupados por Israel – boicotes estes que contam com o apoio de parcela expressiva da esquerda israelense. Ao contrário, o movimento não vê diferenças entre os dois lados da linha verde: israelenses de lá e de cá devem ser igualmente boicotados.

Entretanto, no caso das universidades israelenses localizadas nos territórios de 1948 – isto é, dentro da linha verde – não se verifica discriminação formal entre árabes e judeus. De fato, há universidades em que a porcentagem de estudantes árabes está bem abaixo dos 20% da média nacional de árabes na população de Israel. Esse é o caso, por exemplo, da Universidade Bar Ilan, de linha religiosa judaica, que tem apenas 2% de árabes em seus quadros. Por outro lado, há aquelas em que a porcentagem de estudantes árabes supera, em muito, a média nacional de árabes na população, como a Universidade de Haifa, que possui 30,3% de árabes em seus quadros, como afirmou Nohad Ali. Ademais, não há universidade alguma em Israel onde não haja professores árabes. Ainda que essa porcentagem raramente ultrapasse os 5%, os números contrastam com a ausência quase total de professores negros em universidades brancas da África do Sul do apartheid.

Considerando o abismo entre as realidades sul-africana da época do apartheid e israelense dentro da linha verde, e uma vez que o movimento de boicote pró-palestino tem como referência e modelo as campanhas de boicote antiapartheid, é importante fazer um debate sobre as consequências do boicote acadêmico naquele país.

Na África do Sul, mesmo com tamanha disparidade racial e com tantos casos de perseguição interna, o boicote acadêmico estava longe de ser consenso entre os intelectuais e professores opositores do regime. Jonathan Hyslop, ex-diretor do Instituto de Pesquisa Social e Econômica da Universidade de Witwatersbrand, afirma:

O boicote acadêmico era recheado por pequenas injustiças, consequências não pensadas e conflitos entre seus apoiadores. Para mim, o boicote acadêmico não teve maiores efeitos para o fim do regime e teve, inclusive, efeitos negativos para a sociedade pós-apartheid

Adiante, Hyslop especifica alguns dos problemas que o movimento suscitou para a realidade universitária sul-africana:

 Em primeiro lugar, no Ocidente, eram apenas acadêmicos liberais e de esquerda que poderiam ser convencidos a apoiar o boicote. Acadêmicos de direita e simpatizantes do apartheid vinham à África do Sul livremente e sem qualquer custo político. Especialistas internacionais em contra-insurgência, tecnologia militar e similares visitavam livremente e trabalhavam com o regime.

Em segundo, os estudiosos bem informados no exterior, que queriam apoiar a explosão de estudos críticos, a produção cultural e o ativismo que os tempos revolucionários tinham produzido nos campi sul-africanos, enfrentaram um problema. Eles não podiam dar esse apoio quando obrigados a observar um boicote acadêmico. O próprio CNA começou a entender que os desenvolvimentos políticos nos campi da África do Sul eram encorajadores e que a conexão internacional poderia contribuir para isso.

Nesse sentido, o boicote acadêmico pode ter trazido mais desvantagens do que benefícios na luta contra a segregação. Ao contrário do que ocorreu com as campanhas nos campos econômico e esportivo, o isolamento sul-africano fortaleceu setores mais conservadores das universidades, permitindo, talvez, uma sobrevida do regime e consequências imprevisíveis na África do Sul pós-apartheid.

Além de impulsionar inadvertidamente os setores mais à direita presentes nas instituições de ensino (que, é bom lembrar, permaneciam mantendo o contato com seus pares), o boicote isolou intelectuais e professores progressistas de seus colegas no resto do mundo, o que pode ter contribuído, também, para reforçar o regime racista.

As mesmas consequências que o boicote acadêmico trouxe à África do Sul poderiam ser esperadas em Israel: fortalecimento de perspectivas mais conservadoras; trocas constantes com acadêmicos de direita do mundo inteiro, que continuariam a viajar ao país, a despeito das campanhas de boicote; e o consequente fortalecimento de grupos que ameaçam, no interior das universidades israelenses, a liberdade e o livre pensar. Soma-se a isso o fato de que as universidades em Israel (ainda) reúnem estudantes e pesquisadores, árabes e judeus, que se opõem de maneira virulenta e constante à ocupação. Boicotes acadêmicos feririam justamente setores progressistas e liberais, aliados na resolução do conflito e adversários da direita e extrema direita, atualmente no governo.

3- No ano de 1958, o governo sul-africano estabelece que as regras do apartheid deveriam ser respeitadas também nas universidades. Dessa forma, são criadas universidade negras para receber população de sul-africanos negros. Os poucos estudantes de cor que poderiam estudar em universidades brancas o faziam com permissão expressa do ministro da educação. (Ver: BITZER, 2011)

4 –  Termo hebraico usado para se referir à propaganda em favor do governo de Israel.

 

Conclusão: BDS Acadêmico e seus Riscos

Nesse sentido, é sugestivo concluir que o crescimento do BDS, em especial em sua vertente acadêmica, pode agravar a situação que ele supostamente combate. Ou seja, tal qual uma profecia que se autorrealiza, campanhas de boicote poderiam provocar transformações na sociedade israelense capazes de produzir o diagnóstico pré-estabelecido pelo movimento, ainda que este fosse falso quando de sua concepção.

Lutar pelo fim do regime discriminatório e de opressão mantido pelas forças militares de Israel nas cidades palestinas da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, assim como desmantelar as colônias que ofendem os mais básicos direitos das populações palestinas é imprescindível e não devemos relativizar essa necessidade urgente. Boicotes podem fazer parte dessa luta. Entretanto, é preciso estar atento frente aos riscos inerentes a projetos tão gerais cujas contradições internas podem transformar ataques às políticas discriminatórias eles próprios em discriminatórios.

Concentrar as campanhas de boicote nas políticas discriminatórias, a exemplo de Montgomery e da independência indiana, sem responsabilizar a sociedade israelense (como um todo) pelas injustiças e pelos crimes da ocupação, nos parece um bom antídoto. Em última instância, isso significaria avançar para além da lógica de divisão nacional, de modo que setores progressistas, israelenses e palestinos, possam unir esforços no enfrentamento de setores retrógrados de ambos os lados.

5 –  Como afirma o sociólogo Robert K. Merton no livro Social Theory and Social Structure, “a profecia autorrealizável é, no início, uma definição falsa da situação, que suscita um novo comportamento e, assim, faz com que a concepção originalmente falsa se torne verdadeira”.

 

Quer saber mais sobre o assunto?

 

ALI, Nohad. Representation of Arab Citizens in the Institutions of Higher Education in Israel. Haifa-Jerusalem: Sikkuy – The Association for the Advancement of Civic Equality, 2013.

ARENDT, Hannah. Crises of the Republic. A Harvest Book, 1972.

BARGHOUTI, Omar. BDS: Boycott, Divestment, Sanctions – The Global Struggle for Palestinian Rights. Chicago, Illinois: Haymarket Books, 2001.

BITZER, Eli. Higher education in South Africa: A scholarly Look Behind the Scenes. Sunpress: Stellenbosch, 2011.

BURNS, Stewart. Daybreak of Freedom: The Montgomery Bus Boycott. Chapel Hill: University of North Caroline, 1997.

HYSLOP, Jonathan; VALLY, Salim; HASSIM, Shireen. The South African Boycott Experience. Academe, v. 92, n. 5 (2006), pp. 59-70.

MERTON, Robert K. (1968). Social Theory and Social Structure. New York: Free Press, 1968. p., 477.

WALZER, Michael. Essays on Disobedience, War, and Citizenship. Cambridge: Harvard University Press. 1970. Pp. 171-175