A antropóloga Francirosy Barbosa traz um panorama do Islã político, suas origens e diferentes visões.

Francirosy Campos Barbosa

Antropóloga, docente na FFCLRP/USP, pós-doutoranda na Universidade de Oxford. Coordenadora do Gracias (Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes)

 

 

Classificar os muçulmanos em moderados e fundamentalistas é uma forma simplista e equivocada do ponto de vista científico, assim como se referir à diversidade do islã no mundo como o “Mundo Muçulmano” e colocar todos dentro de um único eixo interpretativo. Ao meu ver, isto é inconcebível antropologicamente, pois cria categorias fechadas para denominar o que é variado sem considerar a diversidade de discursos na arena política mundial. Não é possível discorrer sobre as questões políticas/religiosas que envolvem a Síria, por exemplo, da mesma forma e com o mesmo instrumental de análise que discorremos sobre a Arábia Saudita e a Turquia. Há especificidades históricas que devem ser levadas em conta se quisermos realmente refletir sobre o que esses universos díspares estão nos revelando. A pluralidade de sociedades islâmicas está pautada e deve ser levada em consideração.

Só para dar um exemplo desta diversidade, Tariq Ramadan, em seu livro “Le Génie de l´islam: inicitiation à ses fondements, sa spiritualité et son histoire” expõe que sunitas e xiitas têm cinco grandes tendências: 1) literalistas, que leem as fontes sem considerar as perspectivas históricas e oferecem pouco lugar à razão; 2) tradicionalistas, que vão considerar os estudiosos antigos; 3) reformistas, que devem considerar a razão para compreensão dos textos, da Ijtihad e das Ciências 4) racionalistas, que afirmam que a razão deve se impor à autoridade dos textos e desenvolver um pensamento secularista; 5) místicos, que fazem uma leitura pela inteligência do coração e se dedicam à purificação e liberdade do ser. Completo dizendo que é possível encontrar interseções entre essas tradições, como tradicionalistas/místicos. Enfim, são inúmeras as variáveis deste campo.

Agora, imaginem essas tendências misturadas com governos democráticos e não democráticos, monarquias, etc., em países que foram colonizados pela Inglaterra e França, e façam uma retrospectiva do que foi o Movimento de Nahad do século XIX ocorrido no Egito e o que de lá para cá vem se estabelecendo como islã político. O movimento de Nahad, além de retomar a autonomia política, também foi uma forma de retornar às fontes do islã (Alcorão, Sunna). Este movimento deu impulso à constituição da Irmandade Muçulmana em 1928, que reivindica o islã como uma identidade religiosa e política, algo que aparece na gênese do islã, mas que vai se “perdendo” ou se “silenciando” em alguns momentos.

Importante destacar que o que chamamos de Islã Político associamos ao termo Islamismo, deixando islã (Islã/Islam) para nos referir à religião propriamente dita. O Islamismo, aqui, carrega com força os adjetivos políticos que foram sendo acrescentados em sua história. O olhar do ocidente para sociedades islâmicas árabes e não árabes como sendo violentas não carrega em si o discernimento de olhar historicamente os efeitos dos colonizadores e das violações que vários povos muçulmanos enfrentaram durante séculos. O colonialismo, os modelos de política estrategista de ocupação de mentes e valores não islâmicos estão arraigados ainda em alguns povos; o sentimento de diminuição em relação aos colonizadores, neste sentido, facilita que o estopim do extremismo ganhe força e ocupe um espaço nesta arena. Grupos como Boko Haram (Nigéria), Daesh (Iraque, Síria) são exemplos perversos desses modelos extremos que usam a religião como uma constituição do mal, praticam sua própria interpretação e usam a religião como escudo para a violência engendrada seja contra não muçulmanos ou muçulmanos.

Algumas perguntas talvez sejam importantes para pensar o contexto atual: A Europa está preparada para receber a Turquia em seus quadros como um país desenvolvido? O ocidente de modo geral quer dialogar com países islâmicos? Podemos trabalhar segundo a linha de que muitos têm medo do crescimento do islã? Sim, podemos, mas onde está este medo? Por que ele existe? O ocidente tem medo de que? Minha hipótese é que sociedades islâmicas ainda não aprenderam a responder mais claramente a este efeito nocivo de grupos extremistas. O Irã, o Movimento Hizmet na Turquia respondem a alguns episódios, mas não são suficientes, mesmo porque, como colocamos no início deste texto, não dá para ler cada posicionamento deslocado da sua tradição e das respectivas tendências de cada grupo. Sempre há interesse político, mesmo quando se diz que ele não existe. O Hizmet, por exemplo, não nasceu como movimento político, mas, a partir do momento que é repelido pelo atual governo turco, acaba por se tornar político, no sentido de que incomoda este novo panorama. Precisamos urgentemente olhar cada ação de forma individual, histórica e com as chaves da antropologia hermenêutica, para depois verificar como esses grupos se aglutinam ou se afastam.

A primavera árabe trouxe o balançar das árvores, mas penso que será com os muçulmanos e com a mudança de perspectiva desses que as coisas de fato vão se modificar. Tendo a pensar como Tariq Ramadan, que enquanto os literalistas (salafis; wahhabis) fizerem escola pelo mundo, mais difícil será o diálogo político/religioso. A realidade de povos muçulmanos não pode estar pautada entre haram/halal [proibido/permitido] porque até essas categorias sofrem uma diversidade de interpretações. Há de fato poucas coisas haram (proibidas) no islã, o resto são interpretações de tendências e formas de ler as fontes. Pressuponho um bom momento/movimento de equilíbrio e de reflexão no que significa para um muçulmano viver em uma sociedade de maioria islâmica e em uma sociedade onde se é minoria.

No contexto brasileiro, não dá para viver como se estivessem em um país muçulmano, porque simplesmente não se está. Não é possível construir uma bolha islâmica em território brasileiro sem que isto se torne demasiadamente nocivo ao próprio grupo. É preciso vivenciar a religiosidade e ter direito de vivenciá-la sem imposição em outros contextos. Mesmo porque, como gostam de repetir a frase do Alcorão “não há imposição na religião”, deve-se portanto considerar que viver no Brasil é viver em constante contato com a diversidade religiosa. O adab (comportamento islâmico), a ética islâmica devem ser retomados para vivência pacifica e produtiva em comunidades não islâmicas, buscar formas alternativas de divulgação do islã que não sejam próximas a outras religiões que mais parecem divulgação de panfletos e discursos fáceis. A comunidade islâmica no Brasil, sunita e xiita, tem um desafio: aprender a dialogar entre si, o que não significa abrir mão de suas tradições, mas precisam construir projetos, discursos menos dissonantes e mais propositivos do ponto de vista político, inclusive. Divergências externas vêm tomando corpo e isto precisa ser limitado para que se possa construir uma forma de articular as novas demandas no campo religioso e político do islã no Brasil.

 

1 – Trata-se de um movimento religioso e social transnacional liderado pelo turco Fethullah Gülen. Hizmet (serviço/trabalho) se constitui de escolas e universidades espalhadas em 180 países. Aqui me refiro mais à figura do seu fundador Fethullah Gülen e a seus textos e falas que desaprovam o terrorismo orquestrado por grupos terroristas, ditos islâmicos. Hoje o movimento sofre represálias do governo turco.

 

Para saber mais:

RAMADAN, Tariq. Le Génie de l´islam: inicitiation à ses fondements, sa spiritualité et son histoire. Paris: Presses du Châtelet, 2016.

Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, docente na FFCLRP/USP, pós-doutoranda na Universidade de Oxford. Coordenadora do GRACIAS (Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes). francirosy@gmail.com.