Por Ana Maria Raietparvar


 

Não é raro vermos nos noticiários matérias sobre confrontos entre xiitas e sunitas no Mundo Islâmico. A disputa entre os dois grupos é comumente apontada como a causa responsável por boa parte dos conflitos, reduzindo a complexidade da questão à diferença religiosa. Para um leitor desavisado, há a impressão de que o convívio entre quaisquer seguidores desses grupos é impossível e que a intolerância estaria na base da diferença religiosa. Essa visão simplificada leva a equívocos graves, que podem culminar na formação de estereótipos e preconceitos, como na popularização do termo xiita como sinônimo de radicalismo e intolerância.

Para evitar essa confusão, é importante, portanto, a compreensão do que de fato é essa divisão no Islã, quais são suas verdadeiras implicações práticas e também entender que os conflitos devem ser compreendidos pelos fatores políticos, econômicos, culturais e sociais, não relegando sua causa principal, ou mesmo única, à questão religiosa.

O que é então a divisão entre xiismo e sunismo e o que eles significam?

A divisão entre xiitas e sunitas remonta a modos diferentes de interpretar e praticar o Islã. A divisão surgiu à época da sucessão do profeta Muhammad, no século VII d.C. Após sua morte, os seguidores de Ali, seu genro, formaram uma legião, ou o Partido do Ali, Shi’a Ali, os xiitas. Entre os sunitas, estão aqueles que seguiram os sucessores eleitos após a morte do Profeta na formação do Império Árabe e Muçulmano. A divisão criou distintos grupos com diferentes crenças e vivências religiosas. Algo parecido às divisões existentes no cristianismo, com suas devidas motivações que, em algum momento histórico, justificaram a ruptura e o surgimento de ramificações.

Dentro do próprio xiismo existem diversas vertentes, com seu arcabouço de valores e crenças próprios, como por exemplo os xiitas duodecimanos (presentes majoritariamente no Líbano, Irã e Iraque) e os Alauítas, minoria presente na Síria.  Também entre os sunitas seguem-se diversas tradições religiosas, como os salafitas e os wahhabitas, na Arábia Saudita.

Na prática, essas tradições religiosas implicam em celebrações, rituais, festividades e condutas comportamentais particulares, que, por sua vez, serão praticadas por cada seguidor a partir de sua interpretação pessoal. Na ‘Ashura, por exemplo, ritual praticado por xiitas duodecimanos que rememora a morte de Hussein, neto de Muhammad e filho de Ali, múltiplas formas de praticar e entender a mensagem do ritual são encontradas. O ritual tem um teor de lamentação, de sofrimento pelo Martírio de Hussein, e foi bastante explorado pela mídia, com imagens de praticantes se autoflagelando para reviver o martírio. No entanto, a autoflagelação, por exemplo, não é praticada por todos e é, inclusive, questionada por muitos xiitas, que vivenciam de outras formas esse ritual, podendo inclusive não celebrá-lo.

É importante pensar que o Islã não é distinto de outras religiões e que, portanto, a dedicação a ele se traduz de diversas formas e cada sujeito combina a religião com outras visões sobre o mundo. Assim como cristãos evangélicos, católicos ou espíritas, os muçulmanos podem ter variadas formas de interagir com suas religiões e compartilhar diferentes posições políticas.  

Desse modo, uma mulher xiita pode ter uma visão bastante liberal de mundo e ser ativista em prol de um governo secular, assim como sunitas podem formar um grupo que pretende formar um “novo califado”, como o Estado Islâmico. A Turquia, por exemplo, é um país majoritariamente sunita e com forte tradição secular, mas ocasionalmente tem governos mais próximos do Islã político. Isso demonstra que  no Mundo Muçulmano também há multiplicidade de opiniões e alternâncias de grupos no poder, como é próprio da democracia representativa.

Em relação à ideia que se tem sobre o Islã político, ou seja, grupos que baseiam suas ações políticas em interpretações do Islã, também acontecem equívocos. Dado o estereótipo existente no Brasil de que “xiitas são radicais”, é comum acreditar que todos os grupos islâmicos com ações políticas seguem essa linha (além de acreditar que todo grupo de Islã político seja “radical”). Embora um dos exemplos mais bem sucedidos de Islã político, a República Islâmica do Irã, seja xiita, outro grande ícone de país com a religião oficial islâmica, a Arábia Saudita, é sunita. Diversos outros grupos conhecidos por suas atuações políticas se dividem entre as variadas ramificações e filosofias. O Hezbollah, grupo libanês, é xiita. Já o Hamas é sunita. Ou seja, a multiplicidade dos praticantes de uma ou outra tradição não cabe nos estereótipos.

A chave para resolver a questão parece ser a diversidade. Nada é absoluto e determinado, e é sempre importante desconfiar de rótulos homogêneos. Nenhum país ou religião é totalmente conservador, extremista ou intolerante. A diversidade de opiniões e ideias pode ser evidente, ou estar calada, camuflada, escondida, mas, de qualquer forma, ela sempre existe.

 

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Sobre a Autora:

É Antropóloga, editora da revista Diáspora, pesquisadora do – CEPOM/UCAM e da NEOM/UFF.