Jornalista avalia os caminhos e possíveis saídas para os países da União Europeia e a incógnita das causas que faz o jovem de ascendência árabe com plena cidadania aderir ao discurso do Estado Islâmico.

Por Leila Lak

Quando surgiram as notícias do dia 13 de novembro sobre os ataques em Paris, meu coração se encheu de temor, mas como a muitos, também de um terrível sentimento de inevitabilidade.

Conforme as redes sociais e os noticiários traziam informações sobre as vítimas do ataque de Paris, era assustador ver os rostos jovens que apareciam nas notícias. Como jornalista e diretora de documentário britânica de origem francesa e iraniana, cobri notícias no Oriente Médio por mais de 15 anos, desde os ataques de 11 de Setembro (2001), quando pareceu que naquele dia o mundo mudaria para sempre. Hoje, olhando para trás, vejo que sem dúvida mudou.

Enquanto a França sepulta seus 129 mortos, o mundo luta para entender porque esse terrível evento aconteceu e o que pode ser feito sobre a ameaça que o Daesh*, o auto-denominado Estado Islâmico (EI), representa, não só para o Ocidente, mas para o mundo inteiro.

Na Europa também lutamos para entender por que nossa juventude se sente atraída em juntar-se a uma organização que muitos de nós vemos como uma monstruosidade, e ainda voltam para atacar seus próprios países, nossos países. As centrais de inteligência acreditam que mais de quatro mil jovens deixaram a Europa pela Sìria para juntar-se ao Daesh.  

O presidente francês, François Hollande, rapidamente declarou estas práticas como “atos de guerra”, e, dentro de 48 horas, enviou aviões para atacar a fortaleza do Daesh em Raqqa (cidade do centro-norte da Síria). Mas essa estratégia apenas repete o que os aliados, liderados pelos Estados Unidos e que inclui a França, fazem desde agosto de 2014. Pouco foi conquistado com isso, e, aparentemente, o Daesh usou esses ataques como propaganda para atrair mais e mais seguidores, muitos da UniãoEuopeia.

A França teve problemas em integrar sua população muçulmana por décadas. Após a Revolução Iraniana de 1979, minha família foi forçada a deixar o Irã, e eu cresci em Londres. Mas, durante a década de 1980, eu visitava minha avó francesa em seu apartamento, perto da Torre Eiffel. Na casa dela, estava bastante protegida da realidade que as minorias enfrentavam no país.

Eu invejava meus amigos iranianos (os quais os franceses se referem como “persas”) que cresciam na França, em oposição à Inglaterra. Nós éramos muito integrados à cultura ocidental, por termos nascido em família ocidentalizadas, mas meus pares/conterrâneos? Esses podiam se definir como franceses sem serem questionados por isso. Eu fui morar na Inglaterra com 5 anos de idade, e tinha poucas memórias do Irã, mas não podia me denominar inglesa sem que me perguntassem “sim, mas originalmente você vêm de onde?”

As centrais de inteligência acreditam que mais de quatro mil jovens deixaram a Europa pela Sìria para juntar-se ao Daesh.  

Já adolescente, sempre pensava que preferia ter crescido na França. Em meados da década de 1990, me mudei para lá e fiquei chocada em como eram as relações raciais. Percebi que minha visão sobre a França sempre havia sido muito otimista. Minha geração de 20 e poucos anos de ascendência árabe reclamava que as oportunidades eram muito limitadas. Se tivéssem nomes que remetessem a árabes, raramente encontravam trabalho. Até mesmo a aparência árabe trazia problemas.

Uma piada popular mesmo entre jovens franceses bem educados dizia que os únicos árabes bons eram aqueles afogando no Sena. Como muitos do centro de Paris, nunca tive motivos para me aventurar em Banlieus – subúrbio da cidade onde os conjuntos habitacionais do governo protegiam o centro dos pobres vindos do gueto, em sua maioria de origem argelina.

Brutalidade policial

A brutalidade policial, como demonstrada no filme divisor de águas “O Ódio”, ajudou a segregar a juventude. Mais recentemente, a proibição da Burca foi vista como um ataque direto à cultura desses jovens. O crescimento da Frente Nacional, partido de extrema direita francês sob a direção de Marie Le Pen (foto) segregou não só os muçulmanos, mas muitas minorías étnicas. Isso não é, de forma alguma, uma justificativa para o massacre ocorrido em Paris. A França se orgulha por ser um Estado laico e deve ser parabenizada por isso. As escolas públicas não permitem nenhum aparato religioso, e mesmo tribunais religiosos não são permitidos.

Infelizmente, para muitos jovens muçulmanos desfavorecidos, a interpretação estrita do secularismo se contrapõe com a base do Islã, uma religião a qual requer a seus seguidores vivam sob seus preceitos acima de outras instituições estatais.

Esse não é, no entanto, o “choque de civilizações” previsto por Samuel Huntington, (influente cientista político). O autor preconiza que as próximas guerras em um mundo pós-queda do muro de Berlim se daria entre culturas, em especial o conflito entre o Islã e países ocidentais, e não mais entre países.

A maioria dos muçulmanos do mundo formam sua cultura não apenas pelo Islã, mas numa confluência do país, religião e influências da mídia internacional. Alguns deles atraídos pelo Daesh se radicalizaram em prisões, outros pela internet, onde se enfureceram  com as invasões ocidentais em lugares percebidos como “terras islâmicas” e são, na sua maioria, marginalizados em suas próprias sociedades.

A essa combinação de fatores, somava-se a retórica em torno de cada ataque terrorista carregado em nome do Islã. Com um discurso subsequente de que toda a população muçulmana deveria pedir desculpas pelos atos de poucos extremistas radicais, juntado aos bombardeio a lugares no mundo islâmico, levara esses jovens diretamente àqueles que buscavam polarizar o mundo, mergulhando no mundo Islâmico e na luta contra o que crêem ser os “infiéis que querem destruí-lo”.

A política externa europeia agravou a delicada situação da juventude marginalizada. Esta política inclui desde ataques com drones ao Paquistão e ao Iêmen, passa pelo apoio constante à Arábia Saudita (ignorando o apoio contínuo deste país a grupos islâmicos radicais), até o armamento na Síria de grupos de oposição desconhecidos, cuja maioria são grupos radicais sunitas. Toda essa conjuntura, unindo-se com a invasão do Iraque, deu a esta juventude o que acreditavam ser um propósito de vida. E uma oportunidade de lutar contra o que consideram ser o “mal”.

Trabalhar em torno de uma paz viável na Síria poderia ajudar, mas talvez seja preciso que a Europa comece em casa a buscar uma maneira de assegurar ao menos à nova geração de imigrantes pobres a sentir que eles têm uma participação em nossa sociedade, para que eles não queiram nos destruir.

* Daesh: Daesh é a expressão literal não traduzida do auto-denominado Estado Islâmico ou ISIS, a sigla de Islamic State of Iraq and Syria. Passou a ser utilizada por alguns estados europeus como forma de repúdio simbólico, pois a palávra, em árabe, significa algo humilhante para o grupo.

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SOBRE A AUTORA:

 

Leila Lak é jornalista, documentarista e Chefe de Reportagem da REVISTA DIASPORA.