O que é Oriente Médio?

por | fev 17, 2019 | Educação |

“Oriente Médio é um termo que se refere a uma área geográfica à volta das partes leste e sul do mar Mediterrâneo. Mas, afinal de contas, o que esse termo nos diz? Quais povos habitam suas regiões? E, sobretudo, quais representações temos quando o “Oriente Médio” é evocado?”

Bruno Bartel 

A concepção do que se entende como “Oriente Médio” se encontra amplamente disseminada em livros didáticos e conteúdos jornalísticos com a finalidade de delimitar tanto uma região a partir de uma série de critérios estabelecidos quanto de determiná-la por meio de uma temática específica. Mas, afinal de contas, onde é o Oriente Médio? O que une os povos dessa região? Quais implicações produzimos quando elaboramos um panorama sobre esse lugar?

A classificação mais usual define a região como pertencente ao conjunto dos seguintes países: Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos (EAU), Irã, Iraque, Iêmen, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Palestina, Qatar e Síria. A organização das fronteiras existentes envolvendo esses 14 países pode ser visualizada a seguir:

Mapa 1 – Oriente Médio. Fonte: https://pt.wikivoyage.org/wiki/Oriente_M%C3%A9dio
Essa disposição engloba todos os países localizados na Península Arábica – banhados pelo Mar Vermelho, Golfo de Áden, Mar Arábico e Golfo Pérsico – e que fazem limites ao norte com o Mar Mediterrâneo (Israel, Líbano, Palestina e Síria). As fronteiras atuais desses países remontam ao processo colonial imposto pelas potências europeias na região, iniciado ao longo do século XIX, como uma forma de demarcação de suas áreas de domínio e influência diante das populações existentes.
Entretanto, podemos repensar a classificação dessa região a partir da incorporação de duas organizações territoriais duais amplamente difundidas entre as populações localizadas ao redor da mesma Península Arábica, ou seja, por meio das terminologias de Mashreq e Magreb. O Mashreq é um termo que significa “levante” (referência à direção do sol nascente) e designa a parte oriental do Mundo Árabe, complementar ao Magreb que significa “poente” (ocaso do sol). Fazem parte do Mashreq todos os países situados a leste da Líbia – neste caso, incluindo o Egito, Sudão, o Norte do Sudão do Sul, o Extremo Oeste da Etiópia, Eritréia, Djibuti e a Somália –, considerada como território de transição africano rumo à Península Arábica.
O Magreb, em sentido estrito, corresponde a uma área composta por três países: Marrocos, Argélia e Tunísia. Já a ideia de uma área maior, ou seja, formando o “Grande Magreb” também inclui a Mauritânia, Líbia e o Saara Ocidental. Mesmo assim, cabe destacar que o Magreb possui ligação com alguns países pertencentes ao Sahel (uma zona de transição entre a aridez do Saara e o fértil da savana africana) tais como o Senegal, o centro do Mali, Níger, a parte norte da Nigéria e dos Camarões e a parte central do Chade. Cabe destacar que, dentre todos os países do Mashreq, o Egito sempre ocupou um lugar especial para as populações do Magreb tanto como uma terra de passagem quanto como uma morada para aqueles que se estabeleceram por lá permanentemente. Depois de servir como base para os exércitos muçulmanos conquistadores da parte oeste da África, nos primeiros séculos do islã, durante o Califado Omíada (661- 750), o Egito tornou-se a principal porta de entrada para as populações do Magreb que almejassem adentrar as terras sagradas do Hejaz (parte oeste da Arábia Saudita banhada pelo mar Vermelho) e de demais partes da Península Arábica.

Mapa 2 – O Mundo Árabe segundo a divisão entre Mashreq e Magreb.
Fonte: https://geoscena.wordpress.com/tag/mashreq/

Esses dois mapas são úteis na delimitação tanto dos limites entre países formadores da região (Mapa 1), após o fim do colonialismo, quanto das extensões dos povos que compartilham um “imaginário comum” sobre a influência árabe em suas localidades (Mapa 2). Porém, definições distintas do que viria a ser “Oriente Médio” podem surgir a partir do ponto de vista adotado pelos pesquisadores. A seleção de critérios e aspectos díspares sobre a região, por assim dizer, é a responsável pela criação de mapas “alternativos”. Vejamos, por exemplo, a definição de dois antropólogos que se debruçaram sobre a região. A primeira, se refere ao mapa contido no livro “The Middle East and Central Asia: an anthropological approach” produzido por Dale Eickelman em 1998 (o original é de 1981, porém o livro contém diversas modificações ao longo de suas edições).

Mapa 3 – Oriente Médio e Ásia Central: limites políticos.
Fonte: EICKELMAN, Dale F. The Middle East and Central Ásia: an anthropological approach. New Jersey: Prentice-Hall, 1998, p.3. [1981]

Nesta perspectiva, Eickelman não só utiliza o uso contemporâneo de Oriente Médio, concentrado na faixa entre o Marrocos até o Irã, mas também os territórios inseridos em três continentes: África, Ásia e Europa (considerando a parte europeia da Turquia). O que chama a atenção desta classificação é, sem dúvida, a inclusão da Ásia Central como parte desse conjunto. Para seus propósitos, a Ásia Central inclui os antigos estados soviéticos do Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Cazaquistão. O Azerbaijão não faz parte da Ásia Central, mas devido a sua população de maioria muçulmana e a presença de um patrimônio administrativo e político parcialmente compartilhado com a área de influência soviética, ele foi incluído na proposta de Eickelman como pertencente à Ásia Central. O ponto alto dessa delimitação foi deixar claro que a cunhagem do termo “Oriente Médio” não foi, definitivamente, construída por seus habitantes. Neste sentido, as arbitrariedades impostas por países europeus como Inglaterra, França, Espanha (Norte do Marrocos), Itália (Líbia, Eritréia e Somália) e Rússia – nos casos dos países da Ásia Central – devem ser levadas em consideração como formadoras dos limites atuais das nações que compõem a região. Em suma, os termos “Oriente Médio” e “Ásia Central” possuem suas desvantagens, mas permanecem úteis desde que não sejam tomados para indicar uma suposta homogeneidade política, econômica e religiosa sobre suas populações.
A segunda definição se refere ao mapa apresentado no livro “The Islamic Middle East: Tradition and Change” desenvolvido por Charles Lindholm em 2002 (o seu original é de 1996). O autor preferiu usar os termos “Oriente Médio” e “Mundo Muçulmano” como se os seus significados fossem autoevidentes e como se a região e a religião islâmica fossem coextensivas. Obviamente, segundo essa concepção, o Oriente Médio não pode ser definido simplesmente como uma área majoritária do islã, uma vez que a maioria dos muçulmanos do mundo vivem na Indonésia, Bangladesh e Índia, assim como nos países que fazem parte da África subsaariana. No entanto, o autor reforçou a ideia de que os territórios formadores do Oriente Médio e da presença da religião islâmica se encontram entrelaçados, uma vez que a Península Arábica foi o berço do islã e a área de sua difusão para o mundo desde o século VII. O marco desse processo é estabelecido pela anunciação de um novo sistema de crença compartilhado, relacionado à figura do profeta Muhammad, responsável pela criação de um mundo que permanentemente se reconfigura e, até hoje, influencia os modos culturais existentes na região.

Mapa 4 – Estados e línguas majoritárias do Oriente Médio.
Fonte: LINDHOLM, Charles. The Islamic Middle East: Tradition and Change. Oxford: Blackwell, 2002, p.9. [1996]

Para Lindholm, o uso feito pelos antropólogos do termo Oriente Médio se baseou na noção de “núcleo cultural”, ou seja, numa área que se expande da Península Arábica para o oeste (Irã, Afeganistão e Paquistão) e para o leste (Norte da África ou Magreb), mas que acaba excluindo a Ásia Central. Segundo o autor, essa distinção faz sentido entre essas duas regiões em termos de uma cultura material e prática social compartilhada. Essas distinções, por exemplo, permitem argumentar que as populações da Ásia Central pertencem a um outro “complexo cultural”, diferente daquele dos habitantes do Magreb, da Península Arábica ou da antiga Pérsia. Nesta perspectiva, o conhecimento local, a cultura material e os padrões de ações dessas populações determinam, na visão de Lindholm, a área cultural observada. Mas, mesmo que uma área seja estabelecida por esses critérios, é importante manter a complexidade e a diversidade da região. Seu passado é marcado pelas contribuições para a humanidade tais como o berço da cultura letrada, não somente por meio dos três grandes grupos linguísticos existentes – árabe, persa e turcomano –, mas também pelas unidades linguísticas distintas, como a curda, a tuaregue e a berbere.
Após essa breve exposição de perspectivas distintas na forma de conceber o que se denomina como “Oriente Médio”, cabe manter a temática da diversidade como um horizonte a ser levado em consideração por meio de nossas compreensões diante das expressões e manifestações dessas populações que formam a região. O intuito comparativo dos mapas apresentados ao longo do texto é tornar complexo o quadro de referências sobre a região a fim de evitar quaisquer representações homogêneas sobre as dimensões políticas, econômicas, religiosas e culturais desses povos. Além disso, todo o recente esforço dos denominados “estudos pós-coloniais” têm contribuído para as críticas do passado orientalista sobre a região, ou seja, a partir da produção de uma visão do “Oriente” como um “Outro”, numa tentativa de diferenciação que servia os interesses do colonialismo.
Mais recentemente, esses usos do termo “Oriente Médio” aparecem em um momento em que toda uma mudança de ordenamentos e vínculos globais entre as regiões continentais do denominado “Sul e Leste Globais” vêm sendo reconfigurados em torno de processos em grande escala e fluxos migratórios de poder, imaginação e ativismo social. De fato, o Brasil e os demais países da América Latina compartilham um paralelo histórico de ações coloniais pouco contrastado com as nações do “Oriente Médio”. De modo geral, isso acaba reverberando sobre o jogo de posicionamento desses países no cenário da geopolítica atual.

Para saber mais:

Sobre o autor:

Bruno Bartel é doutorando em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF), onde fez Mestrado também em Antropologia. Pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT-InEAC) e do Núcleo de Estudos do Oriente Médio (NEOM), ambos da UFF. Desde 2012, realiza trabalho de campo no Marrocos.