Henrique Sanchez e Helena Manfrinato

Apesar do patriotismo ser a tônica da retórica de Jair Bolsonaro, o fenômeno em torno de sua candidatura presidencial também trouxe consigo explícitos acenos e sinais de um alinhamento a Israel no plano geopolítico e simbólico. Simultaneamente, a presença de bandeiras de Israel tornou-se um signo comum observado em manifestações bolsonaristas ao lado de bandeiras brasileiras e americanas e menções recorrentes de Bolsonaro a uma provável ampliação de acordos comerciais e iniciativas de cooperação tecnológica, agrícola e militar entre Brasil e Israel preenchem lacunas e superficialidades do seu programa de governo.

Para o imaginário bolsonarista de prosperidade, segurança e autossuficiência, Israel seria uma espécie de “nação ideal”, que construiu uma potência tecnológica em meio ao deserto, a ser espelhada para enfrentar agruras brasileiras como o baixo investimento em inovações tecnológicas, as desigualdades regionais e a escalada de violência. Sugeriu também, em uma visita ao país, que Israel “sofre com os palestinos, como nós [brasileiros] sofremos com o socialismo”, alinhavando uma retórica do inimigo público a ser combatido. Esteve presente em atos cívicos de homenagem aos 70 anos de fundação do Estado de Israel em Brasília e no próprio país, reforçando seu apoio “à única democracia do Oriente Médio

Diversas explicações enxergam em seu fascínio por Israel uma mera tentativa de emulação idiossincrática de Donald Trump. Embora se reconheça inspirado pelo trumpismo e sua agenda diplomática e política externa para o Oriente Médio, Bolsonaro incorpora a dinâmica endógena em suas considerações e interesses. Outras hipóteses presumem uma aproximação de Bolsonaro com instituições e organizações tradicionais do movimento sionista brasileiro, dotadas de conexões históricas com partidos estabelecidos e influentes nos rumos da diplomacia brasileira, que teria se tornado perceptível a partir de uma palestra realizada na Hebraica do Rio de Janeiro onde inferiorizou quilombolas, mulheres e indígenas. Longe de representar uma suposta postura monolítica, a palestra serviu para expor o desconforto e as fissuras do “sionismo tradicional” com a candidatura de Bolsonaro.

No afã de viabilizar sua “presidenciabilidade” durante o auge da crise política em 2016, Bolsonaro vinculou-se organicamente ao conservadorismo evangélico, com quem se entrosara em embates comuns no primeiro mandato do governo Dilma, a partir da filiação ao PSC. No mesmo momento em que o impeachment de Dilma era votado no Senado, uma comitiva organizada pela cúpula do PSC, presidido por Pastor Everaldo, levou a família Bolsonaro em viagem a Israel com duração de 10 dias.

Em nítida fase de testar sua condição presidenciável, os pontos altos do vídeo institucional da viagem revelam-se no batismo simbólico de Bolsonaro no Rio Jordão e na interlocução com lideranças do campo nacional-religioso (ou nacionalista religioso) israelense: Yuli Edelstein, porta-voz do Knesset (o parlamento israelense) e correligionário do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, e Uri Ariel, ministro da Agricultura e membro do Knesset, conhecido por representar um pólo de lideranças colonas que exerce pressões no governo Netanyahu por uma escalada ainda maior na política de assentamentos ilegais e descumprimento de restrições no acesso aos locais sagrados de Jerusalém. Á margem do sionismo tradicional e sua acanhada normalização dos “fatos no chão” criados pela realidade cotidiana do regime de ocupação israelense, o processo de adesão bolsonarista a uma postura assertivamente pró-Israel foi agenciada por redes e articulações institucionais do sionismo cristão brasileiro em reciprocidade com sua pretensão de efetivamente se tornar presidenciável.

A dimensão do sionismo cristão entre o conservadorismo evangélico contemporâneo ainda é pouco tratada no debate público brasileiro. Com origem no protestantismo britânico e mantendo hoje seu centro difusor nos Estados Unidos, o sionismo cristão deriva da larga influência teológica do dispensacionalismo que condiciona suas interpretações bíblicas à segunda vinda de Jesus Cristo e à construção de um “reino de Deus” sob o controle de Jerusalém pelo “povo de Israel”. Portanto, a ligação de sionistas cristãos com o Estado de Israel baseia-se em uma visão político-teológica como cumprimento de profecias bíblicas de acordo com a doutrina dispensacionalista . As escolhas pelo apoio incondicional às políticas de Estado israelenses ou respeito às resoluções da comunidade internacional que reconhecem a soberania e os direitos nacionais palestinos resultariam em um binômio de destinos nacionais inescapáveis: a “bênção” ou a “maldição”.

O trabalho de Daniel Reinke traça as origens do sionismo cristão brasileiro inspirado pelo dispensacionalismo norte-americano que ganhou força, sobretudo, com o crescimento e proliferação das denominações pentescostais e neopentecostais a partir dos anos 1950. Seguindo o exemplo norte-americano, a eficiente máquina midiática e televisa gospel introduziram em sua programação muitas narrativas escatológicas, nas quais a Israel bíblica ocupa um papel central. Além disso, o turismo religioso cristão à Terra Santa cresceu e passou a representar uma enorme fatia deste setor para o país, com especial destaque para o público evangélico. Organizações civis cristãs foram criadas com sede em Jerusalém e passaram a promover eventos como a Festa dos Tabernáculos, Marcha pra Jesus em Israel e a Marcha das Nações, que contaram com a participação de políticos israelenses (idem, ibidem). Igrejas e ministérios de louvor também participam, desenvolvendo eventos e projetos no país, como é o caso de Fernanda Brum, cantora gospel que gravou o CD “Profetizando as Nações” em Israel, lançado no Brasil com a presença de embaixadores israelenses.

A incidência e participação de organizações religiosas evangélicas na política e no Estado é outro feito extraordinário – além da notória influência e produção midiática -, impactando estruturalmente aspectos do secularismo brasileiro. As redes institucionais do sionismo cristão atuam ostensivamente através da combinação de grupos de pressão parlamentares, expressados na “bancada evangélica”, e advocacia política de lideranças eclesiásticas de diversas denominações e igrejas em conexões com o sionismo cristão americano. A vertebração da bancada evangélica situa-se na Frente Parlamentar Evangélica – uma articulação suprapartidária com destacada presença do PSC e do PRB, respectivamente ligados à Assembleia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus – com uma influência e coesão que se estende para outras duas articulações parlamentares: Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família e o Grupo Parlamentar de Amizade Brasil-Israel (em dezembro de 2017, o Grupo contava em sua composição com 31 de 46 parlamentares também pertencentes à Frente Parlamentar Evangélica).

As tensões diplomáticas entre Brasil e Israel desde a Operação Margem Protetora em julho de 2014 e o prolongamento da crise política brasileira que culminou no impeachment de Dilma Rousseff contribuíram para impulsionar a ascensão recente do sionismo cristão no contexto político brasileiro. Durante o governo Dilma, tal ascensão foi tracionada na reação específica à posição do Itamaraty de condenar “energicamente o uso desproporcional de força” pela Operação Margem Protetora que provocou o rótulo de “anão diplomático” enunciado por um porta-voz da chancelaria israelense e à recusa da nomeação do líder colono Dani Dayan como embaixador israelense no Brasil. Após o impeachment de Dilma, o ímpeto do sionismo cristão ganha contornos propositivos a partir da tentativa de reverter as votações brasileiras na Unesco em decisões referentes à nomeação e acesso de locais sagrados de Jerusalém para muçulmanos e judeus e à condição da Cidade Velha de Hebron, localizada em território palestino, como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Em 2017, a disrupção representada pela decisão do governo Trump de reconhecer Jerusalém como capital israelense e transferir a embaixada americana aliada à saída de Bolsonaro do PSC permitiu uma retroalimentação na agenda pró-Israel entre o conservadorismo evangélico e o projeto presidencial bolsonarista em curso. Na medida em que se aprofundava a decadência diplomática brasileira sob o governo Temer, a atuação mais incisiva do sionismo cristão retroalimentava acenos de Bolsonaro que passou a reafirmar a todo momento, caso eleito presidente, a escolha de Israel como destino de sua primeira viagem diplomática, o imediato reconhecimento de Jerusalém como a capital israelense e o fechamento da embaixada palestina no Brasil.

Tais decisões unilaterais, sob a influência do sionismo cristão e na busca de uma relação bilateral privilegiada entre Brasil e Israel, romperiam com a tradição multilateral da política externa brasileira e trariam altos riscos para o comércio exterior brasileiro no Oriente Médio, hoje dependente da exportação de carnes.

É uma incógnita o tamanho do espaço e o grau de influência que um eventual governo Bolsonaro poderia acomodar a lideranças próximas ao bolsonarismo e identificadas com o sionismo cristão, como Magno Malta. O pastor e ex-senador do Partido da República (PR) afirmou que o candidato representa as igrejas evangélicas por ser um “cristão, patriota e amar Israel”. Outras manifestações públicas pró-Bolsonaro, entre políticas e religiosas mesclam elementos de teologia política à sua candidatura, bem como articulações de ideias anti-islâmicas, comuns a certo discurso atávico evangélico contra os “inimigos de Israel”. Entre articulações políticas parlamentares, lobbys sionistas cristãos, e manifestações públicas, entreve-se um cenário favorável para que essa influência floresça, que produzirá efeitos nefastos para os palestinos, entre refugiados e habitantes dos Territórios Ocupados.

Entretanto, em tempos de utopias regressivas, um triunfo inegável de antemão foi ter introduzido e consolidado uma gramática que apaga as fronteiras entre a teologia e a política e profetiza a determinação inescapável de destinos nacionais em afinidade com narrativas político-messiânicas do bolsonarismo. Dispor-se à complexa tentativa de compreensão não-dogmática do sionismo cristão e seus nuances, movimentações e capilaridade é uma condição essencial nos imperativos processos de descolonização e democratização das relações de poder para a preservação de uma coabitação social, étnica e religiosa no Brasil, Palestina e Oriente Médio.

 

Para saber mais:

RAINKE, Daniel. O sionismo cristão e sua influência na cultura protestante brasileira. São Leopoldo: EST/PPG, 2018. 153p

Sobre os autores:

Henrique Sanchez  é sociólogo. Atua com iniciativas e projetos de visibilização cultural e política do refúgio palestino em São Paulo.
Helena de Morais Manfrinato é doutoranda em antropologia pelo PPGAS/USP e ativista da causa palestina.