Como as formas de se vivenciar o islã dialogam com outros registros simbólicos constantemente difundidos entre a juventude? O antropólogo e baixista Bruno Bartel traz o exemplo do rock como uma manifestação cultural que pode encontrar constrangimentos na esfera pública de certos contextos islâmicos

Bruno Bartel 

Um exemplo da relação entre islã e rock’n roll possível foi exposto durante a campanha pelo retorno do Aiatolá Khomeini, no que viria a ser a sua consolidação como líder político-religioso na condução da revolução iraniana de 1979. Após a proclamação do gênero musical como ligado às influências nefastas promovidas pelo “Grande Satã” (EUA) junto à juventude do país, o estilo musical precisou encontrar diversas fórmulas para se expressar junto à sociedade. Isso acabou por proporcionar toda uma gama de variações às suas formas estéticas assumidas ao longo dos anos.

Seja como for, de lá para cá, a temática de como o islã tem encarado a experiência musical continua por atualizar o papel de suas tradições textuais diante das múltiplas expressões artísticas contemporâneas a partir de cada contexto cultural vivido.

No Marrocos, por exemplo, a data de 16 de fevereiro de 2003 marca uma dessas controvérsias, ou seja, as disputas e os agenciamentos que confirmam os limites da esfera pública e definem o que pode ser dito, quem pode dizer o que e em que situação pode fazê-lo, experienciadas no país. Na cidade de Casablanca, 14 jovens, entre 22 e 35 anos, músicos de hard rock e heavy metal, foram detidos em suas casas. Apresentados como “adoradores de Satã”, eles foram processados com base em acusações que foram desde a “perturbação da ordem pública” e a “detenção de objetos contrários à moralidade”, até a “incitação à devassidão e atos prejudiciais à religião muçulmana”.

Os jovens acusados identificaram a existência de artigos publicados pela imprensa marroquina semanas antes do início do caso, em que alguns jornalistas se gabaram de ter presenciado a existência de um “ninho de satanistas” em um café de Casablanca. Amine Hamma, um dos jovens incriminados na época, sublinhou algumas informações sobre a produção e o conteúdo dessas publicações: “o primeiro artigo foi publicado em um jornal de língua árabe. Os jornalistas compareceram aos nossos ensaios e tentaram nos entrevistar. Foi apenas lendo seus escritos que entendemos a mensagem que eles queriam transmitir ao público. Eles não se importam com a nossa música. Eles apenas queriam nos fazer passar por adoradores de Satã. Eu admito que tivemos uma boa risada ao ler esses artigos” , disse.

Durante a primeira audiência dos jovens junto às instituições do país, assim foi descrito publicamente os modos de se reconhecer um “adorador de Satã”, segundo a Brigada Nacional da Polícia Judiciária (BNPJ): “eles têm cabelos longos, vestem estranhas roupas pretas com fotos e desenhos de crânios, cobras e certos signos, sendo os principais o pentagrama e o anticristo”. Meryem Reggab, uma amiga dos músicos detidos, reconheceu com grande apreensão a condução do caso. “Naquele momento eu entendi que um drama iria se desenrolar. O choque foi imenso. Os gritos e os choros dos familiares ressoaram no recinto do tribunal”. A série de discursos proferidos nesta audiência culminaria com a decisão do juiz em manter os jovens em detenção. Além disso, eles seriam transferidos para uma outra prisão de Casablanca (Oukacha), enquanto a constituição de uma nova sessão não fosse organizada tão cedo.

No dia 6 de março daquele mesmo ano, os 14 jovens foram condenados pelo tribunal de primeira instância de Casablanca, após um julgamento polêmico, a penas que variaram de um mês a um ano de prisão. Como forma de provar a crença por parte dos jovens na religião islâmica, eles foram aconselhados a recitar a shahada (a profissão de fé dos muçulmanos) na presença do juiz, após a leitura das condenações. Uma nova audiência ainda seria organizada em 3 de abril como forma de mobilizar a opinião pública marroquina sobre o caso. Foi somente nesta ocasião que todos os jovens envolvidos foram absolvidos das acusações, porém, sem qualquer forma de compensação diante dos dias de prisão vividos.

O episódio traz à tona o questionamento na sociedade marroquina sobre a imagem de um islã “tolerante, moderado e centrado no respeito à diversidade” idealizado e difundido pelo governo do país diante da opinião pública internacional.

Enquanto aguardavam o desfecho do processo judicial, os defensores da causa dos músicos haviam iniciado uma campanha de informação que, de certa forma, encontrou eco na cena internacional. Alguns artigos sobre o caso apareceram em jornais franceses como o Le monde e o Libération, o que acabou por manchar a imagem de tolerância do país, desde a recente mudança política ocorrida no Reino do Marrocos em 1999 (Mohammed VI havia substituído Hassan II e assumido seu cargo de rei e de “Comandante dos Crentes” somente 4 anos antes).

O sudoeste asiático nos oferece um outro exemplo para pensarmos quais visões determinadas instituições podem assumir diante de comportamentos e expressões musicais por parte da juventude. Em dezembro de 2011, autoridades locais de Aceh – uma província da Indonésia – perseguiram e prenderam 64 punks (59 homens e 5 mulheres) em nome da “ordem pública”. Com as roupas queimadas e os cabelos raspados, esses jovens foram forçados, durante dez dias, a passar pelo processo de “reabilitação moral” – treinamento com disciplina militar e aulas religiosas, incluindo a recitação do Alcorão – implementado pelo governo nos quartéis da polícia, a 30 quilômetros da capital da província. Os relatos de espancamento e maus-tratos sofridos por esses jovens indicaram não somente a opção pela punição para aqueles que afrontassem o espaço público com sua presença, mas também mandaram uma mensagem aos indivíduos que insistiam, segundo as autoridades locais, em “ameaçar os valores islâmicos” da sociedade por meio de suas expressões estéticas.

Os seguintes relatos podem trazer à tona algumas opiniões controversas sobre a conduta do caso. Um detento de 20 anos, Fauzan, exprimiu o que passou durante sua “reabilitação moral” nos seguintes termos: “Por que meu cabelo [moicano]? Nós não machucamos ninguém. Foi assim que escolhemos nos expressar. Por que eles estão nos tratando como criminosos?”. O chefe de polícia envolvido na ação sobre os jovens, Hassan, insistiu que a instituição local não fizera nada de errado. “Não estamos torturando ninguém. Não estamos violando os direitos humanos. Estamos apenas tentando colocá-los de volta no caminho moral correto”, disse. Já Nur Kholis, um comissário nacional de direitos humanos, lamentou a detenção, dizendo que a polícia deveria explicar quais leis criminais foram violadas pelos jovens na organização de suas expressões artísticas. “Caso contrário, eles [policiais] violaram o direito de reunião e expressão das pessoas”, disse. No entanto, isso nem sempre foi assim no país.

O gênero punk marca presença no cenário cultural de Aceh desde a década de 1990, quando a banda Superman is Dead, liderada pelo reverenciado baterista Jerinx (Gede Ari Astina), obteve sucesso com seu estilo musical politicamente engajado. Embora Jerinx não concorde totalmente com as ações do movimento juvenil punk no país – se referindo às recentes manifestações no espaço público –, ele sempre declarou que o governo indonésio se esquivou de sua responsabilidade para com seus cidadãos e não ofereceu apoio social para as gerações mais jovens desiludidas e sem perspectivas. “Você sabe, eles [os jovens] esquecem que nos países ocidentais, se você não tem um emprego, o governo lhe dá dinheiro. Aqui, se você está desempregado, o governo, eles nem sabem o seu nome”.

O tsunami de 2004, que destruiu praticamente quase 60% da cidade de Aceh e matou cerca de 160.000 pessoas, ainda traria algumas consequências ao movimento punk indonésio. Naquela época, muitos jovens perderam seus familiares no evento.

Mesmo assim, os punks sobreviventes conseguiram reconstruir com sucesso o cenário musical local, apesar das dificuldades iniciais na organização de shows e eventos como forma de arrecadarem fundos para as vítimas (especialmente órfãos) do desastre natural vivido em seu país.

Um dos únicos jornalistas pró-punk da cidade, Chaideer Mahyuddin, afirmou que, embora os punks tenham perdido parte ou todos os seus parentes e que, até hoje, estejam desabrigados e vagando pelas ruas, “eles agora estão mais sólidos como nunca”, devido ao grau de solidariedade que encontraram por meio da consolidação de suas expressões artísticas.

Constrangimentos não apenas são vividos por bandas de rock em países de maioria islâmica. Em 2016, a banda mineira Sepultura teve o seu show cancelado na cidade do Cairo pela polícia. Segundo o site Ahram Online, a apresentação foi impedida devido à ausência de autorizações necessárias. A polícia decidiu invadir o local onde aconteceria o concerto e pediu ao público que se retirasse do estabelecimento, após negociar com os organizadores. Esse seria o primeiro show da banda brasileira em solo egípcio.

Assim foi definido e descrito o ocorrido: “O show do Sepultura que seria realizado no dia 04/06/2016 no Cairo, infelizmente teve que ser cancelado poucas horas antes de seu início por algumas questões burocráticas não resolvidas entre o contratante local e as autoridades do Cairo”, disse a banda em sua página no Facebook. E continuou: “Lamentamos profundamente pelos fãs que aguardavam ansiosamente, mas tratam-se de questões legais que fogem ao controle de qualquer artista. Esperamos voltar em breve para este grande país!”.

O show aconteceria originalmente no Nile Country Club onde o organizador do evento, o artista egípcio Nader Sadek, aparentemente não conseguiu todas as permissões indispensáveis junto aos vários órgãos oficiais do país para a realização do evento. Uma proposta alternativa para o impasse foi a transferência do show para uma propriedade privada, localizada a 30 km do Cairo (vila de Sheikh Zayed). Uma vez articulada essa solução, a mudança foi informada ao público poucas horas antes da apresentação da banda na capital. Entretanto, a polícia acabou impedindo de vez qualquer chance de sua realização. A alegação, desta vez, foi a de que cerca de 60 pessoas estariam preparando uma “festa satânica” no subúrbio do Cairo, segundo o jornal local Al-Watan. Neste sentido, momentos antes do início da segunda tentativa da banda, a polícia novamente exigiu a documentação necessária no local. Como ela não seria possível de ser apresentada, os policiais pediram que todos deixassem o recinto. Segundo algumas testemunhas, Nader Sadek e o dono da propriedade privada, que resolveu acolher o show, foram presos e interrogados.

A compreensão dessas controvérsias expõe as disputas em torno da esfera pública experienciada por cada contexto cultural específico como, por exemplo, no Irã, Marrocos, Indonésia ou Egito. A análise dos discursos produzidos pelas instituições envolvidas fornece o enquadramento moral no qual determinadas ações são mobilizadas para se evitar o que é descrito em termos de “degradação dos costumes” ou “atos contrários à religião islâmica”.

Cabe lembrar que as formas de se vivenciar o islã dialogam com outros registros simbólicos constantemente difundidos entre a juventude – como é o caso do rock –, uma vez que visam à reprodução das “tradições” legitimadas localmente.

Neste sentido, essas tensões fazem parte de uma arena composta por múltiplos agentes, em que poderes e resistências são postos a prova na produção de novas dinâmicas sociais.

Foto 01 – Jovens acusados de “adoradores de Satã” no Marrocos. Fonte: Revista Zamane, nº 74, janeiro de 2017, p.8.

 

Foto 02 – Manifestação em apoio aos jovens músicos em frente ao tribunal de primeira instância de Casablanca. Fonte: Revista Zamane, nº 74, janeiro de 2017, p.10.

 

Foto 03 – Exibição do grupo de jovens detidos pela polícia local de Aceh. Eles iriam dar início ao processo de “reeducação moral”. Fonte: https://ilculto.wordpress.com/2014/03/02/noiseys-punk-rock-vs-sharia-law/.

 

Fotos 04 – Policiais raspando os cabelos dos punks detidos em 13 de dezembro de 2011. O ato faz parte da “reeducação moral” dos jovens considerados “problemáticos”. Fonte: http://barenakedislam.com/2014/03/24/indonesia-the-beginning-of-sharia-law-for-alleven-christians/.

 

Sobre o autor:

Bruno Bartel é doutorando em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF), onde fez Mestrado também em Antropologia. Pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT-InEAC) e do Núcleo de Estudos do Oriente Médio (NEOM), ambos da UFF. Desde 2012, realiza trabalho de campo no Marrocos.