A jornalista carioca Mariana Durão conta um pouco da sua experiência cultural, com estranhamentos, mas também encontros, durante o Ramadan na cosmopolita e futurista Dubai

Mariana Durão

Carioca de crachá, moradora de Copacabana por quase quatro décadas, nada religiosa, apegada à CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e ao contracheque mensal, no fim do ano passado fui catapultada a uma mudança radical. Por motivo de marido trabalhando fora do país deixei o emprego e o Rio para trás e fui morar fora pela primeira vez na vida. O destino: Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, Oriente Médio, meio do mundo.

O choque cultural começou quando soube da possibilidade de nos mudarmos para Dubai. A dúvida, o medo e (por que não admitir?) o preconceito me tomaram. Mulheres de véu, machismo, diferenças socioculturais, a shari’a (sistema jurídico islâmico baseado nos preceitos do Alcorão).  Era muita informação. Ao mesmo tempo me vi diante da possibilidade de conhecer um mundo totalmente novo, com o qual jamais imaginara ter um contato tão íntimo. Consciente da minha ignorância procurei ler, me informar e buscar a ajuda de amigos como a antropóloga Liza Dumovich, coeditora desta Diáspora, a quem peço socorro com frequência.

Mesmo tentando fazer uma espécie de pré-imersão cultural, confesso que nos primeiros dias não conseguia parar de olhar para as mulheres com suas abayas e hijabs (a burqa – que cobre inclusive os olhos – é coisa rara em Dubai) e para as longas e imponentes túnicas brancas usadas pelos homens árabes. Somando a indumentária aos chamados para a oração (adhan) vindos dos minaretes das mesquitas e aos prédios futuristas de Dubai, no melhor estilo Blade Runner (longa de ficção científica dirigido por Ridley Scott em 1982 e refilmado recentemente), a sensação era de estar vivendo em um filme.

Seis meses após a mudança continuo aprendendo um pouco a cada dia. Recentemente passei pelo meu primeiro Ramadan. É esse o nome dado ao nono mês do calendário islâmico, considerado o mais sagrado do ano para os muçulmanos por marcar o período em que se iniciou a revelação da palavra divina ao profeta Muhammad. Para celebrar esse mês, os muçulmanos praticam a abstinência (sawm), que se traduz não apenas no jejum tradicional – deixar de comer e beber – entre o nascer e o pôr do sol, mas também deixar de lado a prática sexual e hábitos como fumar e mascar chiclete.

Como o objetivo é alcançar a purificação, a ideia é ir além do sacrifício físico, buscando também se abster de maus pensamentos, ações e palavras negativas. Na medida do possível o objetivo é abandonar o frenesi da vida em uma cidade moderna como Dubai e buscar a introspecção e o convívio familiar, o que acontece principalmente à noite, no iftar, o jantar que celebra a quebra do jejum do dia.

Corro o sério risco de estar “pregando para convertidos”, levando em conta o público leitor da Revista Diáspora, mas a ideia aqui é mostrar como foi a estreia de uma brasileira não iniciada no islã no feriado sagrado. A começar pela definição de seu início, que depende do calendário lunar e por isso acaba gerando “suspense” na comunidade. Acabei descobrindo que há diferentes metodologias para o cálculo da data e, por isso, nem sempre todos os países muçulmanos começam o Ramadan no mesmo dia.

Como Dubai tem mais de 85% de expatriados, boa parte não muçulmanos, os “manuais de boas práticas” do Ramadan para estrangeiros se multiplicam na mídia e nas redes sociais. Aprendi que comer ou beber em público durante o dia é uma conduta ofensiva nessa época, assim como fumar (o que pode inclusive acabar em multa ao fumante).

 

Nos shoppings, as praças de alimentação são isoladas por biombos e nas empresas ninguém come, bebe água ou mesmo café na frente dos colegas em jejum. O horário do expediente também é reduzido em cerca de duas horas diárias.

Na minha academia, as aulas de ginástica da manhã tiveram seu calendário totalmente alterado porque o prédio proibia a música alta durante o dia e, portanto, era impossível ter aulas de dança, como a zumba. Os professores dão orientações específicas para aqueles que, mesmo jejuando, seguem fazendo exercícios. Nessa época, os DJs das grandes boates da cidade tiram férias, já que a música fica restrita mesmo em casas noturnas.

Foi lendo todo esse material disponível sobre o Ramadan que diminuí minhas chances de cometer uma gafe. Mesmo assim ela aconteceu durante a participação em um trabalho voluntário – o mês sagrado também é tempo de multiplicar ações de caridade -, onde foi feita a montagem de kits escolares para crianças sírias refugiadas na Jordânia.

 

Ao fim do dia os voluntários estrangeiros foram convidados a participar do iftar com os locais. A fila da farta mesa era enorme e todos se serviam com vontade. Me sentei e vi uma pessoa comendo na mesa ao lado. Comecei a mastigar um pedaço de pão, quando me dei conta de que na minha mesa ninguém comia. Perguntei discretamente a uma colega indiana, que logo me esclareceu: o jejum ainda não havia terminado. Pedi desculpas e parei de comer até que todos começassem a jantar.

Apesar de todos esses exemplos, a cosmopolita Dubai busca conciliar os interesses e criar um ambiente em que o dia a dia dos não muçulmanos sofra a menor alteração possível. Mesmo assim é forte o movimento de saída nos aeroportos nessa época, principalmente, quando o Ramadan cai no verão, como neste ano, já que na estação a temperatura em Dubai atinge facilmente os 45 graus de dia.

 

Da minha parte considero que foi uma experiência muito enriquecedora e fundamental para o aprofundamento do meu ainda raso conhecimento do islã. Ficou para o próximo ano testemunhar um iftar ao ar livre, algo comum em regiões da cidade velha, como Al Ghubaiba, onde depois os comerciantes abrem as portas de suas coloridas lojas nos suqs e os turistas voltam a barganhar noite adentro. Por enquanto fico por aqui. Eid Mubarak!*

* Os muçulmanos têm dois grandes Eids, o Eid al-Fitr, que celebra o fim do jejum do Ramadan, e o Eid Al-Adha. A expressão Eid Mubarak quer dizer, em tradução livre, celebração abençoada.

Sobre a autora:

Mariana Durão é repórter e passou pelas redações de veículos como Agência Estado/O Estado de S. Paulo, O Globo, Exame, Jornal do Comércio e Gazeta Mercantil. Desde dezembro de 2017 atua como freelancer a partir de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.