Tradução do artigo  escrito em parceria pelos editores da Ajam, Shima Houshyar e Behzad Sarmadi.

Shima Houshyar e Behzad Sarmadi

Nos últimos tempos, tem havido uma enxurrada de comentários sobre a existência de uma “revolução silenciosa” atualmente no Irã . Supostamente, é uma revolução contra as prescrições governamentais a respeito do recato público — ou, no mínimo, uma flagrante desobediência a elas. Essa revolução localiza-se na superfície do corpo da mulher e assume cores brilhantes, etiquetas de marcas, contornos definidos e cabelos esvoaçantes. É para ser uma revolução contra o uso obrigatório do véu, mas é também uma revolução do véu obrigatório, ou seja, uma forma de usá-lo mais livremente, como faz a nova geração de mulheres. Nas ruas de Teerã, vemos jovens lindas convidando-nos a reconsiderar a imagem estereotipada da mulher iraniana que predomina na grande mídia ocidental. Essas imagens são colocadas justapostas às das mulheres usando o chador– a vestimenta longa e sem forma, geralmente preta – de modo a deixar clara a abrangência dessa “revolução” e a diferença marcante entre essas duas superfícies corporais. Realmente, o uso obrigatório do véu no dia a dia mudou perceptivelmente – principalmente nas cidades – desde que a primeira geração das mulheres que nasceram após a Revolução de 1979 chegou à idade adulta na metade dos anos 90. Essa fascinação pelas mulheres iranianas e pelo modo como se vestem, no entanto, encobre as complexidades do uso do véu obrigatório pelas mulheres iranianas. Esses artigos produzem generalizações simplistas com o propósito de criar uma leitura provocativa e, ao mesmo tempo, fácil de digerir. Fazem isso da seguinte forma: tratando a superfície do corpo da mulher como medida do progresso e da moralidade da sociedade, romantizando a noção de resistência, e deixando de lado o significado de classe e de cultura do consumo na vida urbana diária.

Exemplo de imagem de mulheres jovens, magras e urbanas vestindo as últimas
tendências da moda. 
Faz parte de uma sessão de fotos de uma linha de moda iraniana, Poosh.

Registros de moralidade e modernidade

Para começar, essa representação das jovens iranianas na mídia ocidental não é muito diferente do discurso oficial da República Islâmica; na verdade, eles têm algo muito importante em comum: a premissa de que a superfície do corpo da mulher reflete o status moral da sociedade como um todo. A história do Estado-Nação está repleta de discursos e políticas que consideram o corpo da mulher um objeto, algo que registra a saúde moral e física da nação. A forma de se lidar com temas como virgindade, contracepção, fertilidade, aborto, a não exposição de algumas partes do corpo, sequestro do espaço da mulher, restrição à sua mobilidade e limitação de seu acesso a espaços públicos fazem parte dessa história. Um artigo de revista cujo foco seja a prática do uso do véu reproduz essa história, pois, mais uma vez, considera o que acontece no corpo feminino como uma maneira de decifrar um zeitgeist disseminado.

A transformação do corpo da mulher em índice de moralidade individual e pública foi, precisamente, a noção que levou à introdução do uso obrigatório do véu. Durante a Revolução de 1979, a questão do ‘hijab’ ocupou o palco central da política iraniana, estimulando a controvérsia e o debate nacionais. Para muitos radicais religiosos, a moda feminina tornou-se o símbolo da falência moral do regime do Shah. Por consequência, defenderam o uso do hijab obrigatório para redimir a honra da nação e fazer avançar uma identidade autenticamente islâmico-iraniana contra a “invasão cultural” do ocidente (tahajom-e farhangi). Para isso, os iranianos foram (e continuam a ser) submetidos à chamada Patrulha de Orientação (gasht-e ershad), organização oficial cuja objetivo é policiar a “decência pública”. Essa organização vigia homens e mulheres que, supostamente, engajaram-se em comportamento inadequado ou apresentaram-se vestidos inadequadamente.

Representação da regulamentação dos códigos de vestimenta pela Patrulha de Orientação.
De
Bozorgmehr Hosseinpour.

Ironicamente, jornalistas e fotógrafos que pretendem mostrar como a população desafia esse policiamento da moralidade no dia a dia utilizam a mesma abordagem. A avaliação que fazem é diferente, é óbvio, mas eles, como também é óbvio, baseiam-se em nada além da leitura da superfície corporal para atribuir intenções políticas.

Essa narrativa de que as mulheres fazem uma provocação à opressão do Estado ao usar um determinado estilo de hijab perpetua essa abordagem patriarcal que situa liberdade e opressão sempre em seus corpos. Quer seja a Patrulha de Orientação impondo padrões de moralidade à vestimenta das mulheres ou fotojornalistas vendo resistência nessas mesmas formas de se vestir, a superfície corporal da mulher é utilizada como medida de moralidade e, assim, sujeita à intervenção do Estado e a comentários nos meios de comunicação.

Romantização da resistência

Surge, então, a questão não tão simples de se identificar “resistência”. Com certeza, o jeito moderno de se usar o hijab– mais curto e mais justo, além da maquiagem e de uma boa parte dos cabelos à mostra – contrasta bastante com a estética regulamentada do uso do véu, segundo a qual, a vestimenta deve ser folgada e grande o suficiente para cobrir todo o corpo. Do ponto de vista do Estado, esse desvio é motivo de preocupação. Na verdade, foi no último aniversário da proibição do uso do hijabem público – imposta pelo primeiro Shah Pahlevi em 1936 -, que uma importante figura do clero e ex-chefe do Conselho de Guardiães (Shora-ye Negahban) do Irã lamentou o uso do que ele chamou de hijab acinturado”, por não “esconder de verdade” a figura feminina. Mesmo assim, a suposição de que o uso do véu obrigatório em desacordo com a estética sancionada pelo Estado seja necessariamente um ato deliberado de provocação é problemática por diversos motivos.

Em primeiro lugar, perpetua a visão de que uma ação deliberada somente deve ser considerada como verdadeiramente deliberada quando quebra as convenções ou desafia as prescrições do Estado. A própria noção de “agência como forma de resistência” é quase uma moda, e já foi criticada por enfatizar demais a apresentação da vida cotidiana no Irã ao público ocidental, intrigado pela narrativa de mudança geracional. Saba Mahmood, por exemplo, demonstrou de modo convincente em seu trabalho seminal, Politics of Piety (2005), que agência como forma de resistência não é uma ferramenta útil para a análise social, quando é tida como inevitável, como se houvesse uma justaposição clara entre os que resistem e os que não resistem. Os primeiros estariam usando uma capacidade inerente aos indivíduos verdadeiros, enquanto que os segundos, não, pois estariam sobrecarregados pelo medo ou pela “falsa consciência”.

Assim, não surpreende que artigo após artigo, nesse gênero “a moda da revolução”, coloque em destaque a figura da mulher jovem, magra, de classe alta, com roupas coloridas e da moda. Essa figura evoca uma pessoa liberal, determinada a expressar-se quando submetida à perseguição religiosa; ela representa o contestador político progressista, ocidentalizado, contrapondo-se ao Estado teocrático. Por outro lado, a mulher que não se encaixar nesses critérios será para sempre condenada, em nosso imaginário, como uma pessoa retrógrada, instrumento do Estado patriarcal antiocidente ou, no mínimo, como vítima impotente.

Mulher vestindo chador segura pôster de apoio ao mais
reformista dos ex-candidatos a presidente, Aref.

Em segundo lugar, a suposição de que existe uma correlação simples entre as crenças ‘íntimas’ de uma pessoa e sua aparência ‘externa’ não apenas distorce a complexidade das razões para uso do véu, como o próprio potencial de resistência. Sugere que a mulher que se considera religiosa e que usa o véu de forma semelhante à prescrita pelo Estado, apoia o Estado. Na verdade, o modo pelo qual a mulher se cobre depende de inúmeros fatores, incluindo – mas não se restringindo a isso – cidade de residência, classe econômica, status social, cultura familiar, interpretação da fé, idade, preferência pessoal, normas de trabalho ou da escola, etc.

Na verdade, essa forma de pensar – segundo a qual o exterior do corpo é um indicador absoluto das crenças sociopolíticas – é dramaticamente contestada pela lembrança do momento histórico em que o uso obrigatório do véu foi imposto, logo após a Revolução. Tanto mulheres que usavam o véu como mulheres que não usavam o véu manifestaram-se nas ruas, juntas, pelo direito de todas as mulheres iranianas escolherem se usariam o véu ou não. Suposições sobre as convicções políticas das mulheres com base em sua aparência externa reproduzem a obsessão patriarcal pelo corpo da mulher.

O capital e as culturas de consumo

Considerar como dado que ‘agência é resistência’ encobre a existência de diversos outros fatores que contribuíram para aumentar a popularidade desse estilo de vestimenta. É muito fácil comprar esse estilo de roupas na economia formal (H&M, Zara, Mango, etc.), portanto, não podemos considerar esse consumo como ‘resistência’; a fabricação e a importação dessas roupas ‘revolucionárias’ são um negócio corriqueiro. Pelo contrário, essa moda hijab e seu padrão de consumo também devem ser considerados em termos da mercantilização da identidade social como algo manipulável e à venda.

A avidez por moda na sociedade capitalista contemporânea – o que o Irã continua a ser – geralmente caminha ao lado do consumismo e das oportunidades criadas por ele para pensarmos as identidades sociais em termos de mercadorias a serem compradas. Assim, usar o véu sem seguir os padrões oficiais – os quais, afinal de contas, são estabelecidos para propositadamente conciliar diferenças socioeconômicas – deve ser analisado também em termos da lógica consumista de diferenciação e tipificação sociais.

Esse consumismo cresceu nas duas últimas décadas com as reformas econômicas neoliberais realizadas nos anos 90. Outra característica compartilhada por essas matérias sobre “a moda da revolução” é a ausência do reconhecimento de que a capacidade de um indivíduo se engajar nessa resistência por meio da moda depende da classe social a que pertence, apesar do foco exclusivo nas classes urbanas média e alta.

Convenção Maserati em Teerã. Fonte: Aftab News.

Vitrine de butique expondo mantôs elegantes (casaco longo típico, vestido por
algumas mulheres iranianas).

Não podemos descartar, por exemplo, o rápido desenvolvimento econômico e tecnológico ocorrido após o final da guerra Irã-Iraque, juntamente com o substancial aumento no número de empregos e expansão da classe média. A facilidade de acesso aos mercados internacionais e aos meios de comunicação, como televisão por satélite e, mais tarde, a Internet, sedimentaram a cultura consumista entre os iranianos das cidades. A moda do hejab acinturado – criticada por elementos conservadores – está agora muito bem difundida e onipresente nos centros urbanos, pois faz parte da prática cotidiana segundo a qual se constroem as diferenças sociais e o status social.

Esse consumismo verificado atualmente no Irã (manifestado também pelo número crescente de shopping centers) é louvado pelos comentaristas estrangeiros como sinal de progresso em relação aos direitos das mulheres e nível de liberdade individual. Ainda assim, a capacidade material de seguir a moda ‘ocidental’ e o conteúdo da mídia não está disponível para milhões de iranianos trabalhadores que labutam para ganhar a vida, muito menos para os 10,5% da população que vive abaixo da linha da pobreza.

Ativistas iranianos organizam uma reunião para combater a
poluição do ar em Teerâ.
Foto: The Feminist School.

Além de perpetuar dicotomias simplistas – exaltando de forma acrítica o consumismo dos urbanóides de classe média e classe alta, como prova da existência de uma revolução social progressista e suas manifestações estilosas no Irã de hoje – tira a atenção do trabalho das ativistas e de sua luta pelos direitos das mulheres iranianas, as quais, há muitos anos, combatem o patriarcado doméstico e o patriarcado do Estado.

Muita energia foi despendida e vidas se perderam no caminho percorrido em direção à mudança das leis discriminatórias e dos preconceitos sociais, como, por exemplo, A Campanha de 1 milhão de assinaturas, lançada por um grupo de ativistas de Teerã. Tanto na Internet quanto nas ruas, as mulheres iranianas sempre estão na linha de frente da luta, não apenas por justiça de gênero, mas também por justiça política, econômica, ambiental, urbana, religiosa e étnica, e vêm fazendo isso com e sem hijab, desde o século passado.

Reduzir sua luta à largura ou ao comprimento de suas roupas, como mostram esses artigos, reproduz exatamente o tipo de lógica sexista que eleva a aparência das mulheres à condição de registro da moralidade, justificando uma intervenção ou o consumo de ostentação. As feministas iranianas e transnacionais combatem esse tipo de sexismo há décadas. Em vez de lidarmos com essa questão de forma binária, usando estereótipos, seria melhor reconhecermos a complexidade da realidade vivida pelas mulheres e entendermos como elas levam a vida em meio a esses sistemas de Estado, família, capitalismo, religião e patriarcado, os quais se entrecruzam.

Reunião de ativistas iranianas para comemorar o Dia Internacional da Mulher, 2014, em Teerã.

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