Murilo Sebe Bon Meihy 

Dizem que aos olhos de Deus todos são iguais, mas recentemente, tanto no Rio de Janeiro quanto na pequena cidade norte-americana de Charlottesville, Deus ficou estrábico.  Em meio a protestos marcados pelo signo da intolerância, grupos em defesa de diferentes sentidos de supremacia têm ganhado as ruas em rincões longínquos como Charlottesville, no estado da Virgínia, e no Rio de Janeiro. O que eles têm em comum? A boa e velha estupidez que move o mundo.

No último dia 12 de agosto, grupos da chamada “Direita Alternativa” (alt-right, em inglês) foram às ruas da cidade para protestar contra a remoção de uma estátua em homenagem ao general sulista Robert Lee, que lutou ao lado dos confederados pela defesa da escravidão nos Estados Unidos, durante a Guerra Civil vivida pelo país entre 1861 e 1865. Por trás da reivindicação histórica, estavam organizações declaradamente racistas e violentas como a Ku Klux Klan e os supremacistas brancos. O evento foi nomeado pelos organizadores como “Unir a Direita” e terminou em confronto direto com ativistas contrários, deixando uma pessoa morta e um número assombroso de feridos. O ápice dantesco da manifestação aconteceu quando James Alex Fields Jr. atropelou manifestantes contrários com seu Dodge Challenger em alta velocidade. Momentos antes do atropelamento, o motorista assassino foi fotografado portando um escudo com o símbolo do grupo Vanguard America, uma organização reconhecidamente neonazista.  A vítima assassinada no atropelamento foi uma jovem de 32 anos, Heather D. Heyer, conhecida ativista e pacifista que lutava contra toda forma de racismo e discriminação em seu país. As chocantes imagens do atropelamento circularam pelas redes sociais e de notícias, e não há dúvidas de que o ato foi covarde, já que James Alex Fields Jr. fugiu do local após sua violenta aparição.

O presidente norte-americano, Donald Trump, após pressões políticas que cobravam uma manifestação contundente da Casa Branca, veio a público revelar o insólito argumento de que “há culpados dos dois lados”. Em seguida, em novo pronunciamento, Trump, ao ser questionado se o atropelamento de dezenas de pessoas foi um ato terrorista, chegou a alegar que a diferença entre homicídio e terrorismo é uma questão de “semântica legal”, evitando comparar o ocorrido a outros atos idênticos como os que foram realizados na França, Reino Unido e Alemanha, e enquadrados pelas forças policiais desses países como “atos terroristas”. Nesse caso,

é claro que, para Trump e para os supremacistas brancos, o que determina a qualificação de um crime como terrorismo não é o ato em si, nem mesmo a produção de vítimas sem qualquer direito à defesa, mas sim a identidade do “motorista”.

Se o perpetrador do ataque for um “radical” muçulmano, o reconhecimento óbvio de que se tratou de um ataque terrorista é imediato. Se o assassino for um possível eleitor de Trump, o caso se transforma em uma questão “linguística”.

É nesse ponto que o caso de Chalottesville se aproxima dos últimos acontecimentos envolvendo a defesa de um pensamento supremacista de direita e a identidade de vítimas e algozes no Brasil. Recentemente, no Rio de Janeiro, uma cidade que historicamente já conta com seus próprios problemas raciais, tem surgido uma forte polêmica abarcando os refugiados muçulmanos que, de forma desavisada, vieram à cidade maravilhosa para fugir de perseguições e da violência da Guerra Civil síria. Com suas barraquinhas de quibes e esfihas, muçulmanos radicados no Brasil, como o jovem refugiado Muhammad Ali, recorrem ao mercado informal para tentar sobreviver e deixar para trás as feridas geradas pela guerra em seu país. Quando se recusou a se submeter a uma máfia que monopoliza o espaço público em uma cidade sem lei como o Rio de Janeiro, Muhammad Ali foi vítima de xenofobia promovida por um homem que o ameaçava com pedaços de madeira e, possivelmente, defendia a máfia aos berros com palavras de ordem que se traduziam em racismo e discriminação contra um sírio muçulmano novamente vitimado pelo ódio. Como em Charlottesville, assistimos a manifestações de prós e contras à situação de um grupo socialmente minoritário como os refugiados. Durante um ato em apoio a Muhammad Ali que levou centenas de pessoas a fazerem fila em uma das ruas mais movimentadas do bairro de Copacabana, que ficou conhecido como “esfihaço”, enquanto cariocas compravam as famosas esfihas em solidariedade a mais uma vítima da ignorância humana, houve quem saísse de casa para, “em nome do Brasil”, se manifestar contra o que chamam de “invasão muçulmana”.  

O caso da nossa “Batalha da Esfiha” poderia ser considerado um ato isolado se não fosse o aumento de ações islamofóbicas por aqui.

Um dos acontecimentos mais emblemáticos continua sendo difundido pela Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo, uma organização com um largo histórico de fanatismo, com integrantes já condenados pela justiça brasileira por intolerância religiosa. A citada igreja ficou conhecida em 2008 quando alguns membros invadiram e depredaram o Centro Espírita Cruz de Oxalá, no bairro carioca do Catete. Já em 2012, a 20ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou o pastor da igreja e um de seus discípulos por utilizarem a internet para difundirem insultos contra outros grupos religiosos, como os judeus e os seguidores de religiões afro-brasileiras. A base do argumento dos acusados é de que aqueles que professam outra fé são adoradores do diabo.

A nova onda da Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo é organizar manifestações em que seus seguidores ostentam cartazes com frases anti-islâmicas, acusando os muçulmanos de potenciais estupradores e assassinos legalizados pelo Estado brasileiro.

O alvo preferencial desses fanáticos são os refugiados sírios e africanos no Brasil, destilando seu ódio sobre uma população já em situação de vulnerabilidade.

Não por acaso, no mesmo dia em que o povo carioca se mobilizava para se solidarizar com Muhammad Ali no coração do bairro de Copacabana, a citada igreja organizava uma manifestação contra o islã no Arpoador, cerca de três quilômetros de distância do “esfihaço”.

As práticas discriminatórias de um grupo de evangélicos cariocas podem parecer uma ação isolada, mas é inegável que a islamofobia vem crescendo no Brasil. Como em Charlottesville, o sentimento de que se pode sair às ruas impunemente para defender uma agenda de intolerância aproxima o Rio de Janeiro atual das cenas grotescas vistas em uma pequena cidade dos Estados Unidos.

Parece que brasileiros e norte-americanos estão cada vez mais próximos na maneira como agridem e defendem os refugiados muçulmanos e olham para as representações rasteiras sobre o Oriente Médio.

Quando os homens se apropriam dos olhos de Deus, a melhor arma para combater esse tipo de ignorância parece ser a fome por justiça.

Esfiha neles!!!

Sobre o autor

Murilo Sebe Bon Meihy é doutor em Estudos Árabes pela USP, Professor de História Contemporânea na UFRJ e colunista da Revista Diáspora. Suas pesquisas se concentram em temas relacionados ao Oriente Médio, à África e aos árabes no Brasil.