Por Nathalia Quintiliano Ungierowicz e Adriana Erthal Abdenur

Rasha Jarhum é uma pesquisadora e ativista iemenita radicada no Líbano e Assessora Sênior de Políticas de Desenvolvimento para o Aspen Institute for Peace. Ela trabalha há mais de 15 anos com Direitos Humanos e questões de gênero em parceria com diversas organizações, além de colaborar com o Enviado Especial da ONU para o Iêmen para a inclusão das mulheres iemenitas nas negociações de paz. Junto com outros nomes, como Amal Bashar e Tawakul Kerman, Rasha é uma das ativistas que vêm tentando melhorar a condição de vida das mulheres do Iêmen.

 

1) Tradicionalmente, qual o papel da mulher no Iêmen?

 papel da mulher no Iêmen é fortemente influenciado por um paradigma tradicional de gênero, onde a mulher é vista como a cuidadora do lar e limitada à esfera privada, enquanto o homem é responsável pelo “ganha-pão” e domina a esfera pública. O Iêmen aparece em último lugar no ranking anual de desigualdade de gênero produzido pelo Fórum Econômico Mundial desde 2006. A participação política das mulheres no Iêmen foi muito limitada nas últimas décadas e se deteriorou após a unificação do Norte e do Sul, em 1990. As mulheres representavam menos de 1% dos conselhos locais e apenas uma dos 301 membros do Parlamento era mulher—e, infelizmente, ela faleceu ano passado. É um retrocesso se compararmos ao sul do Iêmen da década de 80, quando as mulheres representavam 11% no congresso e uma mulher era a maior autoridade política, ocupando cargo no Alto Conselho Popular, onde a presidente da União Feminina tinha uma vaga permanente.

 

2)  Como esse papel, incluindo a participação política, mudou nas últimas duas décadas? Qual foi o impacto da Primavera Árabe para as mulheres no Iêmen?

A revolta foi liderada pelas mulheres e pelos jovens. As mulheres desafiaram os estereótipos de gênero e questionaram a percepção de que não são capazes.

Elas foram às ruas exigir mudanças, marchar contra o regime. Algumas figuras femininas importantes contribuíram para as revoltas e o período transicional: Tawakul Kerman (ganhadora do Nobel da Paz) mobilizou as pessoas e liderou multidões na revolução de 2011, e Hooria Mashour (minha própria mãe) foi nomeada porta-voz do Conselho de Forças Pacíficas.

Quando começou o período de transição e o diálogo nacional, as mulheres conseguiram assegurar 30% de representação; elas lideraram o diálogo nacional. Amal Basha foi a porta-voz do comitê preparatório da NDC, ajudou a formar a agenda nacional e colocou questões relacionadas a direito das mulheres como cotas e idade mínima para casamento no centro do diálogo.

Mulheres também lideraram times nas principais forças-tarefa do NDC, incluindo Arwa Othman, que liderou o grupo de direitos humanos e liberdade, contribuindo para o desenvolvimento de um pacote histórico de direitos e liberdades como parte da lista de resultados esperados pelo NDC, e Nabilah Alzoubair, que liderou um dos mais complicados problemas relacionados às guerras de Saada, uma questão tribal e altamente patriarcal. Ela também esteve envolvida no comitê de mediação que foi formado para tentar prevenir a guerra, em 2014.

 

3)    Como o conflito afetou as mulheres – e que papéis elas desempenharam – tanto na prevenção quanto na perpetração da violência?

A catástrofe humanitária pré-existente foi intensificada. Agora, 82% da população precisa de ajuda humanitária, com um grande impacto sobre as mulheres e crianças. Casos de violência de gênero aumentaram 70%, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários. Mulheres sofrem desproporcionalmente nos ataques por potências externas. Foram alvo dos Houthis, dos grupos armados pró-Saleh e de milícias, por meio de bombardeios indiscriminados, tiroteios e minas. Foram pegas no fogo cruzado de outros grupos armados, incluindo soldados da resistência. Uma mulher foi apedrejada pela al Qaeda em 2015 por uma acusação de adultério. Mulheres, inclusive de minorias religiosas, foram detidas. Mulheres envolvidas na política foram banidas de viajar ou tiveram suas casas confiscadas. A guerra levou ao colapso dos serviços sociais, inclusive os de saúde e educação, e a cortes no salário público. Mulheres passam fome devido ao sítio de Taiz e Hodaidah. Geralmente, acontece uma inversão de papéis onde, por necessidade, mulheres se tornam chefes de família.

Infelizmente, falta na resposta humanitária um olhar sobre as questões de gênero, e não houve financiamento para os projetos sobre violência contra mulher.

Mulheres não são apenas vítimas nesse conflito. Agora elas também são recrutadas por milícias e armadas para lutar na guerra, desafiando novamente a narrativa de que mulheres são incapazes.

4) Qual a participação atual das mulheres nas negociações de paz, e quais as perspectivas para esse papel?

No processo de construção de paz, existem três frentes. A primeira refere-se ao processo formal de negociação de paz atualmente intermediado pela ONU; a segunda diz respeito a consultas paralelas com grupos mais abrangentes para discutir a agenda de paz; e a terceira é onde as iniciativas comunitárias são implantadas para apoiar a resolução do conflito.

As mulheres lideram a terceira frente, implementando iniciativas comunitárias para mitigação do conflito e apoiando campanhas para a paz e para promover o desarmamento. Por exemplo, mães de pessoas desaparecidas ou que sofreram prisões arbitrárias formaram uma aliança para liberar os seus familiares.

Mulheres estão na linha de frente do conflito. Por exemplo, estamos enfrentando um aumento no recrutamento de crianças. De acordo com dados das Nações Unidas, um terço dos que lutam nas frentes de batalha têm menos de 18 anos. Quando essas crianças começaram a ser capturadas, ONGs lideradas por mulheres implementaram projetos para recuperação e apoio psicosocial. Em contraste, a ONU perdeu a oportunidade de solucionar esta questão quando suspendeu os programas de DDR (Desarmamento, Desmobilização e Reintegração) do Plano de Resposta Humanitária de 2016.

Na segunda frente, a ONU Mulheres apoiou a criação do Pacto Iemenita para a Paz e Segurança (Yemeni Women Pact for Peace and Security). Esta plataforma reúne mulheres iemenitas para advogar pela paz no país. O Pacto tem muito potencial para apoiar o envolvimento das mulheres nas negociações de paz, e ele precisa de um apoio consistente para transformar-se em uma plataforma para uma participação mais significativa.

Além dos processos apoiados pela ONU, existem iniciativas locais para a promoção da paz. Mulheres estão liderando esforços para uma futura reconciliação e coesão social. Por exemplo, mulheres como Dra. Belkis Abou Ousba e Dra. Entelaq Al-Mutawakil faziam parte do quadro de autoridades para reconciliação nacional e construção da paz que apresentou uma proposta para a resolução do conflito no início de 2016. Mulheres também trabalharam juntas para desenvolver a agenda nacional para Mulheres, Paz e Segurança, que foi apresentada aos membros do Conselho de Segurança. No entanto, esses esforços são desconsiderados e recebidos pela comunidade internacional como uma forma de competição com os processos facilitados pela ONU, mesmo que possam ser efetivos. Em Taiz, por exemplo, uma mulher contribuiu para a libertação de prisioneiros de guerra pelas partes beligerantes enquanto um processo das Nações Unidas para a libertação de detentos ficou paralisado durante a terceira rodada de negociações de paz.

A primeira frente é a que causa mais decepção em termos de participação inclusiva. Apenas três dos 26 membros das partes negociantes eram mulheres. Essas mulheres representavam os interesses das partes beligerantes, e esse número foi reduzido a zero durante a fase de diplomacia shuttle, que é quando os negociadores não estão presentes no mesmo espaço, e o Enviado Especial das Nações Unidas vai ao encontro deles. Os comitês formados como parte das negociações de paz, por exemplo os comitês de desescalada, não tinham sequer mulher na sua formação. Isto também é visto como um retrocesso para as iemenitas, considerando que uma das resoluções da Conferência de Diálogo Nacional claramente garante que a representação de mulheres não fique aquém de 30% em todos os processos políticos. Houve um esforço por parte do Enviado Especial para aumentar a participação das mulheres durante a terceira rodada de negociações; sete mulheres, incluindo eu mesma, foram convidadas a conduzir uma visita de cinco dias durante as negociações.

 

5) Que futuro você vê para as mulheres iemenitas?

Quando estava no Kuwait, ouvi essa pergunta repetidamente pelos patrocinadores da rodada de paz. Eu ouvi que era ótimo encontrar com mulheres iemenitas e desejos de que as negociações tivessem a nossa sabedoria. Eu ouvi o quão comprometidos eles estavam com o processo de paz e com a possibilidade de alcançar uma solução política. Isso foi muito motivador.

Mas, quando voltei para casa, fiz minha própria reflexão e acho que fui enganada. Alguns desses patrocinadores da paz também são membros do Conselho de Segurança, e fazem parte do Acordo de Comercio de Armas e estão apoiando a transferência de armas para as partes beligerantes. Eles lucram com o sangue iemenita.

A Guerra do Iêmen não é tão complicada quanto conflitos em outros países da região: nós tivemos um processo político de diálogo, temos os fundamentos para uma resolução política baseada na Conferência de Diálogo Nacional. Apenas precisamos de uma plataforma inclusiva para negociações de paz que dêem voz às mulheres, jovens e atores da sociedade civil. Eu vejo um futuro que vai testemunhar o crescimento do poder das mulheres iemenitas, de uma forma similar ao que ocorreu na Europa e nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.

Sobre as autoras:

Nathalia Quintiliano é Oficial das Nações Unidas e atualmente trabalha para o Mecanismo de Monitoramento do embargo de armas e munições imposto ao Iêmen. Nathalia atua também como ponto focal da UNOPS Djibouti para a Força-tarefa para a Prevenção de Abuso e Assédio Sexual.

Adriana Erthal Abdenur é fellow do Instituto Igarapé e pesquisadora com Bolsa de Pós-Doutorado Sênior do CNPq junto ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio).