Por Monique Sochaczewski

Uma coisa que discutimos muito nos estudos de Oriente Médio de uma maneira geral é a validade, se não necessidade, de se morar na região para melhor conhecê-la. Essa experiência faz toda a diferença. Confesso que até ir passar seis meses na Turquia em 2010, no âmbito do “sanduíche” de meu doutorado, a fim de estudar história otomana, não tinha ideia de uma porção de questões do país. Entre muitas delas, tinha uma vaga ideia do peso da questão curda; não tinha a real dimensão da rixa com os gregos; desconhecia totalmente as relações umbilicais dos turcos com os azerbaijaneses; não imaginava a simbologia que os poloneses tiveram no passado (eram o anti-exemplo de um Estado repartido entre potências); e o conhecimento era muito vago do peso da Rússia na história do país.

No que diz respeito a essa última questão, porém, nos primeiros minutos em Istambul, percebi como é possível visualizar a relevância da Turquia para a Rússia. Para além da enorme circulação dos ferries ligando os lados europeu e asiático da cidade, bem como diversos pontos de cada lado, e para além das muitas embarcações de turistas que ziguezagueiam pelo Bósforo, sobem e descem por ele – bem como pelo Mar de Mármara e mais abaixo o Estreito de Dardanelos – dezenas de navios russos carregam produtos como grãos, armamentos, e, principalmente, petróleo.

É, portanto, só sentar em qualquer restaurante, bar ou mesmo banquinho à beira do Bósforo e começar a compreender a extrema relevância geoestratégica dos Estreitos: é por ali que os russos acessam as águas quentes do Mediterrâneo, em especial o porto de Tartus na Síria, onde conta com base naval, e, principalmente, por onde escoam seu petróleo.  Isso mesmo, além de passado inigualável, cosmopolitismo que ainda resiste às tensões atuais, a cidade é pura aula de geopolítica.

Ao se voltar para as leituras secundárias e para fontes primárias, também se compreende que o grande “outro” na fase final otomana (que vai do século XVII ao XX) foi em grande medida a Rússia. Foram quase quatro séculos do que se chama na literatura de “russofobia”, uma vez que o Império Russo se expandiu inicialmente, sobretudo, às expensas de terras otomanas, sendo visto, portanto, como a principal ameaça. A busca pelo incremento da diplomacia e por aproximação com a Europa, por exemplo, se explica pela necessidade de buscar apoio para equilibrar os russos. Muitos foram também os refugiados muçulmanos de terras tomadas pelos russos – como os circassianos – que ali acharam abrigo.

Sempre houve também um componente religioso, como ressalta Simon Sebag Montefiore em sua obra de peso – literalmente – sobre os Romanóv, recém-publicada pela Companhia das Letras.  Havia tanto uma visão, ainda no século XVII, de Moscou como uma “Nova Jerusalém”, além dos interesses diretos nas cidades de Constantinopla como Jerusalém, quanto de uma pretensa proteção dos súditos cristãos do Império Otomano. A Guerra da Crimeia (1853-1856) se iniciou por questões ligadas a essa pretensa proteção. A fixação com a capital otomana foi também uma constante no Império Russo, que a denominava de Tsargrado, a “cidade de César”, tanto por seu simbolismo como por sua importância em relação aos estreitos por onde navios russos passaram a navegar crescentemente.

Império Otomano e Rússia estiveram em lados opostos da Primeira Guerra Mundial (IGM) e o final desta foi o fim de ambos como impérios multiétnicos. O embaixador dos EUA que servia então em Constantinopla, Henry Morgenthau, em seu depoimento publicado pela editora Paz e Terra em 2010, entende, inclusive, a longa duração da IGM pelo fechamento dos estreitos aos russos: “Pois esse foi o acontecimento que separou a Rússia de seus aliados e que em menos de um ano levou à sua derrota e colapso, o que, por sua vez, foi o motivo que tornou a Revolução Russa possível”. As saídas para o Báltico, o Ártico e o Pacífico estavam inacessíveis, restando os Estreitos turcos como única saída funcional de fato. “Era através daquele estreito portão que os produtos excedentes de 175 milhões de pessoas chegavam à Europa e nove décimos de todas as exportações e importações da Rússia seguia havia anos. Ao fechá-lo, subitamente, a Alemanha [aliada do Império Otomano] destruiu a Rússia como potência tanto econômica como militar. Ao obstruir as exportações de trigo russo, a Alemanha privou a nação inimiga do poder financeiro essencial para o sucesso na guerra. E o que talvez tenha sido mais fatal: impediu que Inglaterra e França enviassem munição em quantidade suficiente para o front russo a fim de deter o ataque furioso dos alemães”, afirma Morgenthau em “A história do embaixador Morgenthau: o depoimento pessoal sobre um dos maiores genocídios do século XX”.

Com o estabelecimento da República da Turquia e da União Soviética, houve um interregno de boas relações nas décadas de 1920 e 1930, bastante calcadas em um anti-imperialismo comum e desejo de confirmar as soberanias (com a URSS dando apoio em todos os sentidos para Atatürk), mas com a Segunda Guerra Mundial a tal “russofobia” voltou.

A Turquia se manteve oficialmente neutra até a fase final da guerra, só se juntando a esta no final, e com os Aliados, mas com extremo temor de que a Rússia se voltasse para ela depois do conflito. A URSS condicionava a renovação de um tratado de amizade à permissão de estabelecimento de bases militares nos estreitos turcos, demandava as províncias de Kars e Ardahan, além de já terem grande presença na vizinha Bulgária. A Turquia entrou então para a órbita norte-americana no âmbito da Doutrina Truman, que dizia que os EUA deveriam ajudar as “nações livres”, cujas existências estivessem ameaçadas por pressão estrangeira ou por minorias militantes dentro de seu território. Recebeu recursos do Plano Marshall, enviou tropas para a Coreia, e, sobretudo, passou a integrar a OTAN. Nessa órbita se manteve e tem papel relevante até recentemente.

Com o fim da União Soviética, se temia um ativismo turco para os turcos étnicos do Cáucaso e da Ásia Central. Ele até se deu, mas na verdade as relações da Turquia com a Rússia foram se mostrando em grande medida complementares. Empreiteiros turcos passaram a ter papel muito importante na Rússia e russos são os principais turistas que visitam a Turquia. Os presidentes Putin e Erdogan, apesar de trajetórias bem díspares, como de certos desencontros nos últimos tempos – como a derrubada do jato russo pelos turcos e do assassinato do embaixador russo em Ankara – têm professado visões parecidas de governo, de crescente autoritarismo e que alguns observadores vêm chamando de “ditaduras eleitas”.

Sultões e czares se enfrentavam no passado. Temiam-se e respeitavam-se, buscando alianças para se contrapor uns aos outros. Os herdeiros atuais dos Estados que surgiram dos impérios multiétnicos oscilaram entre ajuda mútua e amplo temor que levou a Turquia a entrar para a OTAN e se amparar na aliança frente à ameaça russa. Nos últimos tempos, parecem viver um “casamento de conveniência”, como apontam alguns analistas, mas essa aproximação pode ser também um indicativo de importante reorganização geopolítica. A retórica de muitos dos aliados do governo turco – dentro do próprio partido governista AKP e de seu agora aliado, o nacionalista MHP – é de extremas críticas aos EUA, OTAN e União Europeia e defesa, portanto, do chamado “Eurasianismo”, a crença de que a Turquia deveria buscar seu futuro na Eurásia, junto à Rússia e também à China. A orientação turca mais pró-Ocidente parece mais do que nunca incerta e não há nada de certo quanto ao futuro, em especial no contexto conturbado do pós-referendo de 16 de abril.  

Enfim, reflexões iniciais sobre uma articulação que, a meu ver, merece crescente atenção e estudos de todos nós.

SOBRE A AUTORA:

 

 Monique Sochaczewski é doutora em História, Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e colunista da REVISTA DIASPORA.