Por Murilo Sebe Bon Meihy

Ele está em todos os lugares. Do noticiário da televisão às conversas de boteco, o desengonçado presidente da Síria se transforma em algo além de um líder político com pinta de mordomo da Família Adams.  A polarização política que sempre marcou a opinião pública sobre o Oriente Médio faz com que qualquer leitura crítica do caso sírio tenha menos relação com o sofrimento da sociedade civil, do que com a filiação política de Bashar al-Assad. O clima de Fla X Flu em torno da Síria é uma irresponsabilidade internacional que compartilhamos.

Saibam que Bashar al-Assad não é e nunca foi bastião da esquerda revolucionária no Oriente Médio, nem o liberal laico de terno e gravata que se apresenta como alternativa ao ativismo político islâmico na região. Esse filho do meio de uma família de comercial de margarina genérica nunca foi preparado para ser qualquer coisa senão sombra do pai e do irmão mais velho. A morte de seu irmão, Bassel, em um acidente de carro, em 1994, colocou o canhestro Bashar na condição de “é o que temos para hoje” na linha de sucessão do papai Hafez al-Assad.

A própria estrutura política da Síria nos últimos 40 anos explica a invenção de um presidente que estudou em Londres, mas fala inglês de curso por correspondência, é General do Estado-Maior, mas não gosta de caserna, é oftalmologista, mas não enxerga a realidade.  Oficialmente uma república (Jumhuriyya, em árabe), a Síria adotou traços de sistema político monárquico (malikiyya, em árabe) e dinástico com a ascensão ao poder da família de Bashar. Para alguns analistas, a família Assad criou a Síria que não é república, nem monarquia (Jumrukiyya).

A família Assad antes de 1994. Primeira fila: Hafez al-Assad e sua esposa, Anisa Makhlouf. Atrás da esquerda para a direita: Maher, Bashar, Basil, Majid, e Bushra Assad

A família Assad antes de 1994. Primeira fila: Hafez al-Assad e sua esposa, Anisa Makhlouf. Atrás da esquerda para a direita: Maher, Bashar, Basil, Majid, e Bushra Assad

 

Mas, nas entranhas do cenário político e biriteiro do Brasil, Bashar al-Assad é “o cara”. No primeiro copo de cerveja, quando o álcool ainda se ambienta na cabeça e no coração do analista geopolítico brasileiro, Bashar al-Assad é apenas o enigma oriental. Ao fim da bebedeira, o porre derradeiro é o resultado de um processo de intoxicação em diferentes estágios de convencimento sobre a necessidade de se defender o Macunaíma sírio, herói sem nenhum caráter que, em vez de preguiça, tem sangue nos olhos.

A primeira bandeira dos envenenados defensores de Bashar no Brasil é a ideia de que o presidente sírio é a salvação do Oriente Médio contra o Estado Islâmico. É como dizer que a saída para a crise carcerária brasileira seria entregar o controle do nosso país às organizações criminosas, ou então transformar o secretário de segurança de um dos Estados mais violentos do país, São Paulo, em Ministro da Justiça (o que já aconteceu). O fato de Bashar defender oficialmente um projeto de Estado-nação laico para a Síria não o impediu de aparelhar as Forças Armadas e as agências de segurança do país com parentes e aliados vindos de grupos confessionais minoritários. Como um exemplo contundente dessa perspectiva, Ignácio Alvarez-Ossorio mostra que o alto oficialato sírio desde a época de Hafez al-Assad privilegiou militares oriundos de grupos religiosos específicos, em sua obra sobre a Síria contemporânea. Nesse caso, fica evidente que para o homem forte da Síria a defesa do laicismo como sinônimo de modernização foi apenas uma estratégia retórica que teve mais êxito entre simpatizantes de Bashar fora do país do que entre seus próprios cidadãos. Até 2009, 61% desses oficiais eram alauitas, sendo metade deles oriundos do clã Kalbiya (o mesmo de Bashar). Nesse mesmo período, Maher al-Assad, irmão de Bashar, era chefe da Guarda Presidencial, Adnan Makhlouf, primo da mãe de Bashar, era comandante da Guarda Republicana, Assef Shawkat, cunhado de Bashar, era o chefe do Serviço Secreto sírio (a temida Mukhabarat),  Rami Makhlouf, primo do presidente, um dos “homens de negócio” mais ricos do país, e mesmo Asma Shawkat al-Assad, a primeira-dama da Síria, controlava sete das principais ONGs sírias, à frente de temas como a juventude, o desenvolvimento rural e a inserção econômica das mulheres.

 

Collection of my #Syria cartoons from April 2011 to May 2012

Collection of my #Syria cartoons from April 2011 to May 2012

 

A segunda bandeira defendida pelos simpatizantes do presidente é a imagem de que a Síria de Bashar é o último reduto socialista do Oriente Médio em um mar de sheiks do petróleo. O partido político hegemônico na Síria, o Baath, seria uma das últimas formas organizadas de resistência ao ativismo político islâmico e de atuação da esquerda na região. A formação política de Bashar passa longe de qualquer cartilha básica sobre socialismo, comunismo, ou qualquer tendência social libertária. Há décadas, o Partido Baath da Síria, que teve uma relação histórica com a esquerda desde os anos 1940, foi engolido pela concentração de poder nas mãos de uma elite civil e militar que se beneficia do controle de um país oficialmente em estado de emergência entre 1963 e 2011. A suspensão oficial dessa condição de excepcionalidade, que permitia o controle rígido do Poder Executivo sobre as demais instâncias de poder do país, foi uma estratégia de Bashar no início da crise de legitimidade de seu governo, que evoluiu para a guerra civil atual. O anúncio do fim do estado de emergência veio acompanhado de maior repressão interna e da escalada de violência em todo o país. Nessas décadas de regime de exceção, todas as instituições da sociedade civil viraram reféns da elite política nacional, e com o Partido Baath não foi diferente. No plano econômico, entre os anos 1990 e 2000, vários países árabes forjaram a imagem de uma abertura econômica nacional com o intuito de vender a notícia de que, com o fim da União Soviética, a melhora dos índices econômicos locais estava atrelada à adoção de pontos específicos do Consenso de Washington e da cartilha de crescimento do FMI. A adoção dessa estratégia soava como um primeiro passo para mudanças futuras nos regimes árabes, e na Síria não foi diferente. Nesse contexto, onde foi parar o socialismo árabe? Certamente, longe de Bashar.

 

O Partido Socialista Árabe Ba'ath ou Baath foi um partido político fundado na Síria por Michel Aflaq, Salah ad-Din al-Bitar e associados de Zaki al-Arsuzi. O partido defendia o Baathismo que é uma mistura ideológica de nacionalismo árabe, pan-arabismo, o socialismo árabe e anti-imperialismo.

O Partido Socialista Árabe Ba’ath ou Baath foi um partido político fundado na Síria por Michel Aflaq, Salah ad-Din al-Bitar e associados de Zaki al-Arsuzi. O partido defendia o Baathismo que é uma mistura ideológica de nacionalismo árabe, pan-arabismo, o socialismo árabe e anti-imperialismo.

 

O terceiro argumento de defesa cega do governo de Bashar al-Assad é o de que a Síria sob o comando de sua família representa uma espécie de pedra no calcanhar de Israel. Com o fim do Egito pan-arabista de Gamal Abdel Nasser, o tema da questão palestina seguiu como uma bandeira política a ser abraçada por qualquer país do Oriente Médio com pretensões à liderança regional.  Não faltaram candidatos como Líbia, Iraque, Irã, e claro, a Síria da família al-Assad. O trampolim para a vinculação do governo sírio à proteção dos palestinos teve como auge o apoio à FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina). Não há espaço aqui para uma análise sobre os meandros dessa aliança, mas o que se pode constatar ao final é que, assim como ocorrido com outras organizações palestinas que se aproximaram de líderes árabes a favor de sua causa, o protagonismo sobre a luta do povo palestino foi paulatinamente sendo retirado dos palestinos e entregue a gente como os al-Assad. O fim dessa história todo mundo conhece. O número de refugiados palestinos só aumentou no mundo e a disputa por territórios usurpados por Israel continua sendo a maior vergonha geopolítica dos últimos 60 anos. Assim como o governo israelense do Likud utiliza o conflito com os palestinos para transformar medo em voto, Hafez e Bashar al-Assad investiram na retórica de que fizeram da Síria uma barreira contra o avanço do inimigo em comum. Perderam as Colinas de Golã, assistiram à destruição de muitas organizações palestinas, e seguiram como o inimigo preferido de Israel até 2011: fracos, mas barulhentos.

Por fim, e não menos caricata, a última baboseira invocada para defender o malvado favorito dos botecos brasileiros: Bashar é o Chuck Norris do Oriente Médio. Ele combate o imperialismo, o sionismo, os radicais islâmicos, o próprio Estado Islâmico, abraça criancinhas, beija velhinhas na rua, toma chá de boldo sem fazer cara feia, e traz o Putin amado para o Oriente Médio em sete dias. Não vamos perder tempo com a refutação desse imaginário. Existem questões mais importantes a serem discutidas pela opinião pública internacional sobre a Síria nesse momento. O uso de armas químicas, que não é sequer recente no conflito sírio, o destino de milhões de refugiados, as consequências de se ter Donald Trump como um ator internacional na região, as incertezas sobre o futuro do país, e o pacote de desgraças que a Síria representa hoje são questões de maior importância do que a defesa de santos no inferno. Não nos esqueçamos do que deve ser a principal preocupação de quem olha para a Síria de hoje: o brilhante povo sírio que se encontra ofuscado por quem apenas está preocupado com o seu próprio umbigo, como Bashar, Putin, Trump, e os intelectuais de boteco desse Brasilzão de meu Allah.     

Netanyahu encontra Chuck Norris

Chuck Norris, o ator de filmes americanos do anos 80 e 90, gravou vídeo apoiando o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

 

SOBRE O AUTOR:

 

Murilo Sebe Bon Meihy é doutor em Estudos Árabes pela USP, Professor de História Contemporânea na UFRJ e colunista da Revista Diáspora. Suas pesquisas se concentram em temas relacionados ao Oriente Médio, à África e aos árabes no Brasil. É autor dos livros “As Mil e Uma Noites Mal Dormidas: a formação da República Islâmica do Irã”, “Os Libaneses” e “Leão, o Africano: a África e o Renascimento vistos por um árabe”.