Leila Lak descreve a nova realidade americana para os imigrantes, turistas e refugiados com uma das 7 nacionalidades proibidas nos Estados Unidos sob Donald Trump  

Por Leila Lak

Mariam acabara de assinar o contrato de seu novo apartamento em Nova Iorque. Ela fora aos Estados Unidos para fazer mestrado e estava adorando sua nova vida fora de sua cidade-natal, Teerã. Na quinta-feira, 26 de janeiro, ela foi a Genebra para uma festa de aniversário, reencontrar alguns amigos. No dia seguinte, seu mundo desmoronou.

Na sexta-feira, 27 de janeiro, o presidente Donald Trump assinou uma Ordem Executiva com vistas a cumprir sua promessa de campanha de barrar a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos.

Ele escolheu sete dos principais países de maioria muçulmana e proibiu a entrada de qualquer viajante proveniente do Irã, Iraque, Síria, Iêmen, Sudão e Somália.

Até mesmo portadores do Green Card americano e viajantes com visto foram barrados. Cidadãos de países aliados com dupla cidadania também foram barrados.

Mariam (nome fictício), estudante de 25 anos, acabou ficando no limbo, sendo proibida de retornar aos Estados Unidos. Todos os vistos de estudantes foram cancelados. Assim, ela acabou numa situação em que precisou abandonar a vida florescente na cidade que esperava considerar seu lar.

Outros estavam voando a caminho, no momento em que a Ordem Executiva foi assinada. Um menino de cinco anos, cidadão americano que mora com a mãe iraniana em Maryland, foi algemado no Aeroporto Dulles. Sean Spencer, Secretário de Imprensa de Trump, disse que o menino de cinco anos poderia ser uma ameaça terrorista e que, simplesmente, supor que isso não condiz com a sua idade “seria um engano e errado”.

Uma senhora síria que estava indo para o Aeroporto O’Hara de Chicago para cuidar de sua mãe, paciente de câncer, foi imediatamente deportada de volta à Arábia Saudita, onde é professora, sendo pouco provável que veja a mãe novamente.

Estas são apenas algumas dos milhões de pessoas afetadas por essa proibição, sem precedentes, relativa à imigração e a viagens.

Milhares de refugiados de todo o mundo tiveram seus sonhos afetados, inclusive os 26.000 refugiados – somalianos, em sua maioria – que vivem em acampamentos no Quênia. Metade dessas pessoas já recebeu aprovação para se estabelecer nos Estados Unidos, enquanto que a outra metade espera ser entrevistada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, disse Yvonne Ndege, representante da agência para refugiados da ONU (UNHCR). “Eles estão chocados, deprimidos, em desespero, com o coração partido,” ela disse de Nairóbi, onde visitava 140 refugiados que já haviam recebido autorização para viajar nos últimos dias. Angela Merkel teve de lembrar ao Presidente Trump que os Estados Unidos têm a responsabilidade de proteger refugiados, de acordo com a Convenção de Genebra.

Trump afirma que a proibição não se refere aos muçulmanos, embora ele tenha usado exatamente esse termo durante a campanha. É interessante a alegação de que a proibição é necessária para proteger os Estados Unidos de terroristas, já que o único terrorismo internacional ocorrido em território dos EUA foi, em sua maioria, saudita, além de um perpetrador libanês, dois cidadãos dos Emirados Árabes Unidos e um egípcio – os seqüestradores dos atentados de 11 de setembro. Nenhum desses países integrou a lista de imigração proibida.

Algumas pessoas chegam a questionar se os países que se livraram da proibição não são justamente aqueles onde Donald Trump tem negócios pessoais.

Os sete países da lista já haviam sido contemplados com processos de imigração mais rígidos. Pessoas com dupla nacionalidade, viajando a partir de nações aliadas, já eram obrigadas a requerer visto e não mais desfrutavam da isenção de visto garantida pelos seus passaportes europeus. Porém, as medidas de Trump levam essas exigências a um novo patamar, sem precedentes nas democracias ocidentais.

Trump alega que essas medidas duras vigorarão por 90 dias, até que as informações exigidas pelos EUA sobre os cidadãos sejam fornecidas pelos seus respectivos governos. Como as relações entre o Irã e os EUA nunca foram boas, a maioria das pessoas teme que essa proibição seja permanente.

Os iranianos são os mais afetados por essa proibição, já que a população iraniano-americana, somente em Los Angeles, ultrapassa um milhão de pessoas. Estima-se que  no conjunto de todas as sete comunidades, 48% dos portadores de Green Card sejam iranianos-americanos.

Os iranianos sempre tiveram laços fortes com os Estados Unidos e, depois da Revolução de 1979, muitos deles foram para Los Angeles na esperança de construir uma nova vida. Desde então, milhões de iranianos entraram nos EUA e lá se estabeleceram. Mais de 70% deles têm família no Irã. “O problema é que a maior parte da comunidade iraniana nos Estados Unidos se deu muito bem”, diz Mahdis Keshavarz, ativista de direitos humanos. “Eles se sentiam parte do tecido social dos EUA, mas, na realidade, não é bem assim, eles nunca foram vistos dessa forma.” Para ela, um outro problema é que os iranianos expatriados têm muito bons instrumentos culturais, contudo, politicamente, nunca tiveram uma organização bem-sucedida, capaz de ajudá-los consistentemente nesse período difícil.

Imediatamente após a proibição de imigrantes, instaurou-se o caos nos aeroportos americanos. Centenas de pessoas foram barradas, muitas ficaram detidas por horas, algumas foram incentivadas a assinar documentos desistindo do direito ao Green Card e a outros tipos de visto.

À medida que a notícia se espalhou, milhares de americanos de todas as procedências protestaram contra o decreto do novo presidente.

Atendendo ao chamado da União Americana por Liberdades Civis (American Civil Liberty Union), centenas de advogados foram aos aeroportos para ajudar os confusos viajantes, muitos deles algemados.

Keshavarz foi uma das organizadoras dos protestos no LAX, aeroporto de Los Angeles, e ela ficou animada com a enorme resposta. Ela diz que, numa contagem conservadora, havia de três a cinco mil pessoas lá, só no domingo. Enquanto a proibição de Trump sacudia a nação, o nível de protestos espontaneamente organizados e de atos de indignação nos aeroportos por todo o país mostrou que os Estados Unidos permanece um país extremamente dividido.  

Assim como Mariam, milhões de outras pessoas agora precisam reconsiderar seus planos de vida. Imigrantes, turistas e refugiados de países de maioria muçulmana precisam repensar se os Estados Unidos de Trump é um país onde, algum dia, eles poderão se sentir seguros.

SOBRE A AUTORA:

 

Leila Lak é jornalista, documentarista e Chefe de Reportagem da REVISTA DIASPORA.