Rodrigo Ayupe e Adriana Abdenur nos conduzem num passeio por Anjar e nos apresentam à comunidade armênia local, uma dentre tantas outras de um país multiétnico e multiconfessional

Por Rodrigo Ayupe e

Adriana Erthal Abdenur

      Desde a sua criação como Estado moderno, o Líbano tem sido marcado por narrativas conflituosas de identidade e Nação, o que torna fundamental a análise da construção identitária das suas minorias. No caso da comunidade armênia de Anjar, situada a poucos quilômetros da fronteira com a Síria, a afirmação da sua etnicidade em território libanês se baseia em diversos aspectos da cultura armênia, tais como a língua, a escrita, a memória e a religião. Ao mesmo tempo, longe de ser homogênea, Anjar apresenta uma série de diferenças internas, sobretudo do ponto de vista de suas identidades locais e religiosas.  Este breve texto introduz a comunidade, fazendo algumas colocações acerca das suas dinâmicas identitárias a partir de visitas feitas pelos autores ao vilarejo entre novembro e dezembro de 2016, assim como entrevistas conduzidas com moradores de Anjar em Beirute.

      Conhecido também como Haoush Mousa, o vilarejo de Anjar está situado na região do Vale do Bekaa, a menos de 10 quilômetros da fronteira com a Síria, praticamente no meio da estrada que liga Beirute e Damasco, a 60 de ambas capitais. A economia local é baseada na agricultura, com destaque para o cultivo do tomate e da pimenta. É nesta atividade que se concentra grande parte da mão-de-obra de Anjar, embora alguns trabalhem no setor de serviços como funcionários de restaurantes, mecânicos, eletricistas ou pedreiros; na área da educação, como professores, diretores, inspetores e porteiros das escolas; ou até mesmo nos setores industrial e financeiro em outras cidades do país, principalmente em Zahle e Beirute.

      A população de Anjar, estimada em 2.400 indivíduos, é composta majoritariamente de armênios e descendentes naturais de Musa Ler (nome armênio: usado pela maioria em Anjar), também conhecido como Mousa Dagh, em território que hoje faz parte da Turquia.  Há também alguns imigrantes vindos de outras aldeias armênias, além de libaneses sem origem armênia e palestinos. Mais recentemente, um grupo de refugiados se estabeleceu em Anjar devido ao conflito na Síria. Atualmente os sírios representam a camada menos favorecida de Anjar e de todo o vale do Bekaa, onde muitos trabalham na lavoura, porém com salários muito baixos, ao passo que outros estão desempregados e vivendo em situação crítica de pobreza.

A maior parte dos habitantes de Anjar podem ser considerados de classe média, embora haja uma minoria mais próspera, composta por proprietários de terra e empresários, inclusive o proprietário do conglomerado de hotéis e restaurante Shames, localizado na aldeia, e que atualmente é um dos mais famosos do país.  Anjar é conhecida por ser um grande centro da Federação Revolucionária Armênia, o principal partido político armênio da diáspora.

    Os armênios se estabeleceram em Anjar devido a uma série de perseguições, prisões e execuções contra a população armênia comandadas pelo Império Otomano a partir do final do século XIX, tendo como auge aquilo que muitos intelectuais e principalmente os armênios denominam de Genocídio de 1915. Naquele período, os habitantes de Musa Ler constituíram um dos principais grupos de resistência ao genocídio e, em 1918, quando os franceses anexaram a província de Sanjak de Alexandretta, região onde se localizava esta aldeia de armênios, estes puderam voltar para as suas casas, lá permanecendo até 1939, quando a Turquia anexou a província, como resultado de um tratado assinado com a França.  Os 40 dias de resistência ao genocídio ficaram conhecidos mundialmente por conta do romance escrito por Franz Werfel, Os 40 dias de Musa Dagh. A partir desse acordo, o governo francês iniciou a busca por um local na área de seu mandato no Oriente Médio (atualmente Líbano e Síria) para abrigar esse grupo de armênios. No mesmo ano, os armênios compraram de um militar turco aposentado um razoável lote de terras no Vale do Bekaa.

     O estabelecimento desses armênios em Anjar foi acompanhado por um processo de construção de uma comunidade étnica bastante ativa que empenhava-se, desde a fundação do vilarejo, em preservar suas tradições culturais e lingüísticas, mantendo portanto as fronteiras simbólicas em relação aos libaneses e outros grupos no país. Esse processo de etnicidade tem sido realizado por meio da língua, da escrita, da memória e da religião, que são vivenciados na prática a partir de suas instituições e momentos de sociabilidade.

      A língua e a escrita armênia representam a principal e oficial forma de comunicação da comunidade, embora muitos (sobretudo da geração mais jovem) dominem também o árabe. As crianças aprendem o armênio em casa e aperfeiçoam o vocabulário e a gramática nas escolas da comunidade. Contudo, vale destacar que nem todas as aulas são ministradas nesse idioma, uma vez que as instituições educacionais devem seguir o currículo oficial libanês, o que faz com que os alunos também tenham contato com as línguas árabe e inglesa. A maioria das escolas da aldeia são ligadas às suas comunidades religiosas: a Escola Haratch, vinculada à Comunidade Armênia Apostólica Ortodoxa; a Sisters of Immaculate Conception, da Comunidade Armênia Católica; e a Protestant Community School, da Comunidade Armênia Evangélica.

    Além disso, o uso da internet tem contribuído significativamente para a manutenção do idioma armênio como um dos principais diacríticos da identidade étnica de Anjar. A comunidade dispõe de um site, em língua armênia e inglês, que é constantemente atualizado com informações históricas e contemporâneas dos armênios de Anjar; e de um grupo no Facebook onde a comunicação só é permitida em armênio ou no dialeto de Musa Ler. Ademais, essas plataformas online permitem a intensificação das conexões transnacionais dos armênios de Anjar com aqueles da República Armênia, bem como de toda a diáspora, reforçando nesta aldeia libanesa a sua identidade armênia.

        A memória, por sua vez, também desempenha um papel importante na construção da identidade armênia em Anjar.   O vilarejo está dividido em seis “bairros,” cada um levando um nome de um vilarejo de Musa Dagh.  Nos relatos orais dos moradores, são particularmente salientes as histórias relacionadas ao genocídio, transmitidas de geração a geração e veiculadas pelos membros da comunidade. Segundo um jovem de Anjar, “uma das nossas características principais é a nossa boa memória. Nós não nos esquecemos das coisas, mas infelizmente só lembramos de tudo o que é negativo. O armênio tem o medo em seu subconsciente. Sou da quarta geração e, mesmo assim, tenho medo que o inimigo venha e destrua toda a minha aldeia”.

      Portanto, nota-se que em Anjar, como na diáspora de uma maneira geral, os membros das famílias armênias são socializados desde a sua infância no sentido de incorporar essa memória coletiva construída a partir da ideia de um inimigo externo. Com isso, a coesão dessa comunidade étnica e o fortalecimento dos laços entre os seus membros são catalisados pela transmissão dessa memória, tanto no ambiente doméstico quanto nas instituições armênias, e até mesmo no espaço público, tendo em vista que em diversos muros de Anjar é possível encontrar a frase: “Os turcos são os culpados pelo genocídio”.

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Foto1: Frase “ A Turquia é culpada pelo Genocídio”, exposta no muro desta casa abandonada. (Arquivo dos autores)

 

A construção e afirmação da etnicidade armênia em Anjar são acompanhadas de uma série de complexidades no interior desta comunidade, no sentido da pluralidade de acionamentos identitários. Além da identidade étnica, moradores de Anjar constantemente acionam a identidade local de Musa Ler em oposição aos armênios oriundos de outras aldeias. Esta tendência ainda é reforçada pelo uso do dialeto de Musa Ler, tanto na comunicação verbal quanto na virtual.

Embora a religião seja um dos principais canais da etnicidade armênia em Anjar—já que todos os moradores armênios são cristãos e seus rituais são praticados no idioma armênio—os cristãos são divididos em três confissões distintas: armênia ortodoxa, católica e evangélica, cada uma com suas singularidades doutrinais e rituais, vinculadas em diferentes níveis à identidade étnica.

     Os cristãos armênios ortodoxos de Anjar, representados institucionalmente pela Igreja Apostólica Armênia de Saint Paul, estão associados à sua etnicidade através da manutenção de seu rito tradicional e pela exclusividade de seu idioma nas celebrações religiosas. Diante disso, os membros desta confissão veiculam discursos afirmando que são os verdadeiros guardiões da etnicidade armênia. Por exemplo, de acordo com um membro da comunidade, “Entre os armênios católicos e protestantes a nossa raça (etnicidade) não é tão glorificada por que estes grupos se referem a uma parte que não é armênia. Por exemplo, os católicos obedecem ao Papa, que não é armênio, e os evangélicos não têm uma liderança oficial como nós, que temos o nosso Catholicos, que sempre é um armênio”.

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Foto 2: Igreja Apostólica Armênia de Saint-Paul (Arquivo dos autores)

 

    As comunidades católica e protestante também estão vinculadas à etnicidade armênia, porém de modo mais ambíguo, devido às suas conexões com o Ocidente. A Igreja Armênia Católica Our Lady of the Rosary se encontra numa posição liminar entre duas normatividades poderosas do cristianismo: por um lado, é ligada à ortodoxia oriental, buscando preservar a base do ritual, por outro, seu pertencimento ao Catolicismo Romano fez com que mudanças em sua liturgia tenham lhe aproximado do Ocidente. A Igreja Evangélica Armênia (Armenian Evangelical Church) também apresenta esta ambiguidade, pois toda a formação histórica do protestantismo se encontra na Europa Ocidental e estas influências estão na base da instituição em Anjar. Quanto ao idioma litúrgico, estas duas igrejas também têm permitido uma flexibilização tendo em vista que os serviços religiosos são realizados tanto na língua armênia quanto em árabe.

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Foto 3: Igreja Católica Armênia Our Lady of Rosario (site oficial de Anjar, capturado em: http://mousaleranjar.org/index.php/en/catholic)

 

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Foto 4: Igreja Evangélica Armênia (site oficial de Anjar: capturado em: http://mousaleranjar.org/index.php/en/evangelical)

 

        Em conclusão, a partir da pesquisa realizada nem Anjar, é possível afirmar que a construção da identidade pela etnicidade em Anjar constitui um elemento fundamental ao longo da presença da Comunidade Armênia no Líbano. Tendo em vista a concentração de habitantes de Anjar com origem em Mousa Ler, fica clara a importância da identidade local nesse contexto, que se impõe sobre as outras identidades minoritárias e muitas vezes é definida como a própria identidade étnica.    Entretanto, ao invés de apresentar a identidade étnica armênia como um fenômeno simples, destacamos também as outras possibilidades de acionamentos identitários dentro dessa comunidade, assim como as suas relações com a identidade étnica.

 

Sobre os autores:

 

Rodrigo Ayupe é doutorando em Antropologia pelo PPGA/UFF e pesquisador do Núcleo de Estudos do Oriente Médio (NEOM/UFF). Desde 2014, realiza trabalho de campo no Líbano.

Adriana Erthal Abdenur é Fellow do Instituto Igarapé e Bolsista de Pós-Doutorado Sênior do CNPq junto ao CPDOC da FGV-Rio.