Monique Sochaczewski

De acordo com o instituto de opinião Genar, citado em coluna recente do jornalista Mustafá Akyol em Al-Monitor, atualmente 60% da população turca apóia o presidente Recep Tayyip Erdoğan (lê-se Redjep Tayyip Erdoan), e 88% da população lhe dá suporte contra a tentativa de golpe militar frustrado em julho último.  Erdoğan conta com um dos maiores índices de popularidade em sua trajetória.

A Turquia é um país com rico passado e muitos potenciais, que na última década atraiu a atenção de milhares de brasileiros, muitos dos quais visitaram suas cidades históricas e se encantaram por sua literatura, cinema e mesmo novelas. Acadêmicos, grupo no qual me incluo, passaram a se debruçar sobre o país e tentar desvendar sua complexidade. Jornalistas também passaram a lhe dedicar crescente atenção, embora, ao que me conste, nenhum órgão de imprensa tenha no país um correspondente. Não raro, comentários sobre o país na mídia brasileira são feitos a partir de estúdios ou redações em cidades europeias ou norte-americanas, e matérias in loco feitas a partir de viagens pagas por grupos interessados em divulgar determinadas versões.

Minhas questões aqui, tendo em vista esse panorama, são: 1) Quem é, afinal, Erdoğan?; 2) Como explicar para o público brasileiro o alto índice de aprovação do presidente turco entre seus nacionais, quando a impressão que se tem a partir do que circula no Brasil é basicamente de um autocrata sanguinário?

1) Recep Tayyip Erdoğan nasceu em Istambul, em 1954, de família oriunda de Rize, na região do Mar Negro. De origem humilde, estudou em escola religiosa e chegou a vender limonada e simit – pão circular coberto com sementes, popular na Turquia – nas ruas da cidade para complementar a renda. Formou-se em Administração na bem reputada Marmara University, mas desde o ensino médio já militava em entidades políticas. Nessa mesma época chegou a jogar profissionalmente futebol. De 1994 a 1998 foi prefeito de Istambul, papel que lhe deu projeção nacional, embora tenha tido final controverso. Por conta de declamação de versos interpretados como islamistas em 1997, foi condenado a dez meses de prisão, tendo cumprido quatro destes de fato atrás das grades. Em 2001 foi um dos fundadores do AKP – Adalet ve Kalkınma Partisi, “Partido da Justiça e Desenvolvimento”, mas também chamado de AK Partisi, ou “Partido Branco”, em alusão a sua  “pureza”, ou seja, não envolvimento com a corrupção – que chegou ao poder no ano seguinte e desde então lá se mantém.

Erdoğan é o líder político mais popular e carismático na República da Turquia desde seu fundador, Mustafá Kemal Atatürk (1923-1938). Serviu como primeiro-ministro de 2003 a 2014, e desde 2014 é o presidente do país. Apesar de claramente religioso, venceu as eleições de 2002 com discurso de “conservador democrático”, sobretudo focado em dar prioridade à economia, então em frangalhos. Os turcos, segundo comprovaram pesquisas da época, estavam mais preocupados com o desemprego, economia e inflação, do que com religião. E de fato, com a chegada do AKP ao poder, a economia foi estabilizada e a inflação reduzida, além de terem sido feitos muitos esforços para integração à União Europeia. Ampliaram-se as exportações, encarou-se finalmente a “questão curda” e esvaziou-se o papel dos militares. Uniu-se no discurso apelo ao passado otomano a ganhos obtidos com a república. Os índices de aprovação eram enormes nos seus dois mandatos como primeiro-ministro, com a coisa se estremecendo em grande medida no ano de 2013. Em junho daquele ano se deram as revoltas de Gezi Park – oficialmente contra a construção de um shopping em uma das últimas áreas verdes de Istambul, mas com agenda ampla contra ações tidas como autoritárias do governo -, e em dezembro, houve rompimento público com o movimento Hizmet, liderado pelo imam Fetullah Gülen, residente nos EUA, e aliado importante nos governos iniciais do AKP.

Se a trajetória era então ascendente, desde então é controversa. Erdoğan candidatou-se e foi eleito presidente da República, pela primeira vez de maneira direta. Seus planos de uma mudança tranquila da Constituição, de modo a dar mais poder a tal cargo no país parlamentarista, porém, se viram impactados com ascensão do HDP, em 2015. Partido nascido em 2012, mas fortalecido com as revoltas de Gezi e com agenda que englobava a questão curda, de gênero, de minorias e mesmo ambiental, chegou ao parlamento então com grande barulho. Desde então, Erdoğan mudou sua retórica em grande medida para uma pegada mais nacionalista, cada vez mais reticente em relação à União Europeia e aos Estados Unidos, e mudando sua base de apoio em grande medida de liberais, curdos e gulenistas num primeiro momento, para nacionalistas na fase atual.

2) A chave para explicar o alto índice de aprovação do presidente Erdoğan atualmente é justamente essa rearticulação de apoios que se estabeleceu desde meados de 2015. Por um lado, islamistas e conservadores sunitas da Anatólia se mantiveram fieis ao governo, mas a grande novidade é a adesão do partido nacionalista MHP. Este tem agenda fortemente nacionalista, a percepção de que os curdos são majoritariamente separatistas e, com isso, é profundamente contrário a negociações com o PKK. Esses três grupos somam 60% do eleitorado turco no momento.

A tentativa de golpe militar frustrado em 15 de julho deste ano reforçou essa situação, trazendo dessa vez o apoio da quase totalidade da população, que saiu em massa às ruas. Muitos criticaram claramente Erdoğan e esclareciam que não lhe davam carta branca para fazer o que bem entendesse, mas fizeram questão de ressaltar que pior ainda seria um golpe militar em país com largo e traumático histórico nesse sentido, e a ascensão ao poder de grupo islamista não eleito e que aparentemente contava com apoio estrangeiro, se não aberto, pelo menos tácito.

Ocorreu, porém, que a reação de Erdoğan não foi a conciliadora, apesar das muitas mãos estendidas, e o cenário é, portanto, de afastamento, e mesmo perseguição implacável de curdos e gulenistas, e outros opositores. Ainda vigora o estado de emergência, com a suspensão de alguns direitos civis, e alevis, esquerdistas e liberais, encontram-se grandemente marginalizados.  O MHP está totalmente alinhado com AKP, os co-líderes do HDP presos, e o tradicional CHP (partido republicano) bastante esvaziado. Os pesos e contrapesos da vida pública turca estão bastante debilitados. Um lado da população se vê intimidado, e não são poucos os que já buscam emigrar do país, almejando oportunidades, sobretudo, no Canadá e na Europa. E outra parte não vê de fato problemas com a situação do país e mesmo se informa em uma mídia quase que inteiramente governista.

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Não há dúvida que é extremamente difícil tentar apresentar a complexidade do panorama político turco em tão pouco espaço. Ainda mais com tantas siglas, grupos e subgrupos pouco conhecidos por aqui. Ocorre, porém, que mais do que apresentar um panorama eivado de wishful thinking sobre o que vai no país, vale tentar entender o que de fato pensam os turcos, o que temem, e em quem depositam suas esperanças. Não raro se faz por aqui analogias entre Erdoğan e o ex-presidente Lula. Com toda a amizade e respeito que ambos provavelmente tiveram um dia, a comparação é em grande medida equivocada. É para Putin que olha Erdoğan e é em grande medida aos russos que agradecem pelo fracasso do golpe de julho último.

SOBRE A AUTORA:

 

 Monique Sochaczewski é doutora em História, Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e colunista da REVISTA DIASPORA.