Murilo Bon Meihy

Qual seria a melhor ferramenta para compreender a instabilidade geopolítica do Oriente Médio? Muitos analistas se dedicam ao trabalho de decifrar esse enigma, recorrendo aos mais variados padrões metodológicos para fundamentar suas conclusões. No entanto, alguns se concentram em uma chave instrumental bastante questionável: as emoções.

Um dos primeiros a defender o papel das emoções nas Relações Internacionais foi o professor Pierre Hassner, um dos discípulos queridinhos do mítico Raymond Aron. Ao tratar do lugar da violência na política internacional, Hassner apresenta uma visão hobbesiana do mundo diplomático, destacando a contribuição das paixões humanas como o ódio, a raiva, a culpa e o medo nas Relações Internacionais convencionais. O problema se torna mais complexo quando seus seguidores recorrem a este tipo de ferramenta interpretativa para explicar de forma caricatural as questões geopolíticas que fazem do Oriente Médio e do Ocidente os antagonistas inveterados de um mundo carente de uma Guerra Fria.

Cabe tomar como exemplo o trabalho de um de seus seguidores, o analista francês Dominique Moïsi. Em 2010, Moïsi publicou uma obra histérica intitulada “Geopolítica da emoção”, em que o mundo é dividido fundamentalmente por um conjunto de sentimentos: Estados Unidos e Europa viveriam a exaltação política do medo que sentem daquilo que percebem como “diferente”, enquanto os países árabes e muçulmanos responderiam a esse estranhamento com a manifestação da humilhação histórica e do ódio contemporâneo aos seus antagonistas.

Talvez, Moïsi tenha se contaminado com altas ingestões de antidepressivos teóricos, já que para quem vive as consequências dos conflitos atuais, a falta de sentimentos em relação aos problemas do Oriente Médio e do Norte da África seja mais eloquente do que a visão binária e reducionista que afirma que ocidentais e orientais precisam conter suas dosagens de serotonina e noradopamina. Por trás dessa arrogante visão acadêmica, que deseja manter o controle, sobretudo, dos sentimentos alheios, está o fato de que autores como Moïsi ajudam a transformar os problemas do Oriente Médio e da África em episódios sentimentais mais voltados para o esquecimento das questões humanitárias do que a memória do sofrimento dos outros.

Quando precisamos fazer da vida algo mais suportável, nossas funções neurológicas liberam Beta-endorfina, uma substância fisiológica que nos provoca imediato esquecimento. Na tentativa desesperada de evitar a dor e o sofrimento pessoal, esquecemos daquilo que não queremos reconhecer em nós mesmos, e pior, daquilo que nos estressa e impede que sintamos empatia pela dor de outra pessoa. Nesse sentido, a maneira como nós nos relacionamos com as notícias sobre os conflitos do Oriente Médio e da África faz com que nos esqueçamos da própria dimensão violenta da humanidade a qual pertencemos. O sofrimento de crianças, mulheres e homens em regiões distantes geograficamente tem sido nossa Beta-endorfina diária. Moïsi medica academicamente seus leitores: o ressentimento e o sentimento de humilhação não nos pertence: podemos esquecê-los.

Não por acaso, três cenários de profunda crise humanitária, e que abalaram a opinião pública internacional em algum momento de um passado recente do Oriente Médio e da África, já andam esquecidos entre nós. O primeiro deles é o destino de 276 meninas nigerianas sequestradas pelo grupo Boko Haram em abril de 2014.  Enquanto estudavam normalmente em uma escola da cidade de Chibok, as meninas foram levadas à força pelos membros dessa organização do ativismo político islâmico e, ao que se tem notícia, sofreram e seguem sofrendo as maiores violências. Na época do sequestro, quando a imprensa transformou o caso em um episódio de grande repercussão e comoção, um expressivo número de pessoas no mundo inteiro se mobilizou pelo Twitter por meio da hashtag #BringBackOurGirls. De Michelle Obama a Angelina Jolie, o mundo inteiro se sensibilizou com o destino das jovens nigerianas. Mas, o tempo foi passando, e a cachaça geopolítica que embriaga o telespectador do sofrimento alheio liberou a “marvada” Beta-endorfina dos nossos dias no Ocidente. Nada além do envolvimento de algumas celebridades internacionais fez com que o mundo se esquecesse das sequestradas, do Boko Haram e do que a violência colonial fez com a Nigéria nos últimos cinquenta anos.

Outro exemplo impertinente a ser lembrado é a crise humanitária vivida pelo Sudão e que levou à criação do Sudão do Sul em 2011. O conflito em uma parte do mapa africano que pouca gente sabe onde fica teve início em 2003, na cidade de Darfur, e muitas vezes é chamado pelos poucos ocidentais que se comovem com essa situação, pelo execrável nome de “genocídio”.  Só até 2007, esse escândalo internacional já havia produzido mais de 460 mil mortos e quase 3 milhões de refugiados. Alguns dos miseráveis que tentam atravessar o Mar Mediterrâneo em botes precários rumo à Europa são filhos dessa tragédia, ainda que não tenham rosto e nem voz à medida que o problema humanitário vivido por eles se transforma em uma crise de refugiados que “preocupa” a União Europeia.

Em linhas gerais, o conflito no Sudão é resultado do enfrentamento armado entre milicianos muçulmanos de língua árabe e grupos não árabes do país. O fato de o Sudão ter grandes reservas de petróleo cobiçadas por potências internacionais, como a China, dá o tom etílico da embriaguez que nos evita falar dessa catástrofe nos últimos tempos. Cada vez que os chineses vetam qualquer resolução da ONU para intervir humanitariamente no conflito, o mundo se esquece da questão sudanesa, e nossa parcela de Beta-endorfina permanece garantida.

Como último exemplo da perda de nossa memória sentimental sobre a África e o Oriente Médio é o caso do Saara Ocidental, uma porção de terra ao sul do Marrocos considerada “a última colônia africana”. A principal bandeira reivindicada pelo povo saharaui é a autodeterminação do seu território. Então, nesse caso, ainda que o Marrocos entenda que a região do Saara Ocidental seja parte de suas fronteiras históricas divididas pelo colonialismo, o desejo de soberania dos saharauis pode ser comparado ao discurso de luta anticolonial de outros países africanos que conquistaram sua independência na segunda metade do século XX, e com respaldo do direito internacional.

O reconhecimento internacional é a principal ferramenta política do Saara Ocidental para a sua efetiva independência. Durante o governo de Hassan II, o Marrocos não poupou esforços e recursos financeiros para expandir sua representação diplomática pelo mundo, negociando diretamente com cada país e órgão internacional a recusa ou o esquecimento do mundo frente à questão saharaui. Ainda que o atual monarca marroquino, Muhammad VI, tenha uma postura diplomática mais voltada para a União Europeia e a negociação com blocos econômicos internacionais, como o Mercosul, o Marrocos ainda utiliza essa rede diplomática estendida para impedir o reconhecimento internacional da causa saharaui. Alguns casos podem melhor ilustrar essa situação. Apesar de sua importância política e econômica no Magrebe, o Marrocos não faz parte da União Africana, justamente porque o Saara Ocidental foi admitido como membro da organização. Em 2009, Rabat retirou sua embaixada da Venezuela em resposta ao que o Marrocos considerou como “apoio” de Hugo Chávez ao Saara Ocidental.  

A questão do reconhecimento é muito mais complexa do que a posição direta assumida por qualquer Estado nacional, já que envolve o silêncio, e por que não, o esquecimento do problema pela comunidade internacional. Em um jogo retórico perverso, muitos países reconhecem o direito de autodeterminação do povo saharaui, mas não reconhecem a República Árabe Saharaui Democrática (RASD). Outros ainda, sequer reconhecem a Frente Polisario (principal movimento pela independência do país) como representante legítimo do povo e do governo do Saara Ocidental. Na outra ponta desse nó diplomático, alguns Estados reconhecem as reivindicações marroquinas sobre o Saara Ocidental, mas não aceitam a soberania do Marrocos sobre esse território. Ao final, o recado que a comunidade internacional envia ao povo saharaui é que, reconhecendo ou não seu direito de independência, a comunidade internacional evita dar protagonismo político ao próprio povo do Saara Ocidental sobre suas questões, o que faz com que as notícias sobre essa demanda nunca toquem os sentimentos do mundo. Essa é nossa amnésia alcoólica diária sobre mais um terrível conflito.

Lutar contra o esquecimento da dor alheia e lembrar-se desses episódios lamentáveis é, de alguma forma, um esforço coletivo para descolonizar/desembriagar nossos sentimentos…

Tim tim, um brinde a Dominque Moïsi…         

SOBRE O AUTOR:

 

Murilo Sebe Bon Meihy é doutor em Estudos Árabes pela USP, Professor de História Contemporânea na UFRJ e colunista da Revista DIASPORA. Suas pesquisas se concentram em temas relacionados ao Oriente Médio, à África e aos árabes no Brasil.