Alex Shams, jornalista e editor da Ajam Media Collective, entrevista os criadores da série fotográfica “Humans of Tehran”

Texto traduzido por Silvia Helena Gomes, publicado originalmente por Ajam Media Collective:

https://ajammc.com/2013/08/10/picturing-the-iranian-everyday-an-interview-with-the-photographers-behind-humans-of-tehran/

ALEX SHAMS

Parece que a cada semana mais um jornalista ocidental “descobre” o Irã e seu povo obsessivamente acolhedor, explicando para o mundo, pela milésima vez que, ao contrário das suposições do público, o Irã é um lugar formidável para se visitar. Estes artigos são totalmente previsíveis em termos de conteúdo, mencionando algumas imagens estereotipadas (Mullahs! Véu! Reféns!) antes de oferecer um slide-show introdutório de Isfahan, Persépolis, um ou dois vilarejos nas montanhas, e algumas jovens altamente maquiadas no norte de Teerã, para revelar o país que viajantes estrangeiros podem descobrir ao se aventurarem “por trás do véu”.   

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Minha reação pessoal a esses artigos é, admito, conflituosa. Por um lado, dados os mitos horríveis, sensacionalistas e, evidentemente, falsos sobre o Irã e os iranianos, sistematicamente perpetuados pela mídia ocidental, uma pequena parte de mim regozija de alegria com a oportunidade de mostrar aos americanos que, de fato, os iranianos poderiam ser humanos também.

A prova da nossa humanidade, evidentemente, é que algum jornalista [branco] corajoso da CNN ou algum hippie da Lonely Planet resolveu fazer uma visita de uma semana ao nosso país e percebeu que o Irã é, sim, um lugar bastante decente.

“Olha, olha”, meu coração quase grita, “nem todos os brancos estão com medo de nós!”.

Esta alegria, contudo, é sempre temperada pela absoluta irritação e repugnância que sinto diante do absurdo de termos que provar a nossa humanidade a alguém. Estes projetos frequentemente fedem a uma obsessão colonial do século XIX por descobrir o “verdadeiro Irã”, reduzindo uma nação de mais de 70 milhões de pessoas a uma viagem de uma semana feita por um mochileiro. Estes projetos são empreendidos primordialmente por ocidentais para ocidentais, conferindo ao olhar do branco (geralmente do sexo masculino) certa universalidade e objetividade que as narrativas dos “nativos” nunca alcançam.  

Estes fotógrafos privilegiam constantemente visões ocidentais sobre o Irã, enquanto os fotógrafos iranianos raramente podem, se é que alguma vez puderam, trazer suas visões sobre o país. Estas fotografias também servem, frequentemente, a um implícito propósito político, oferecendo imagens que sugerem um povo reprimido e atrasado e, desse modo, mobiliza o público ocidental para apoiar sua “libertação” por meio de bombas ou sanções.

A fotografia tem tido uma relação problemática com o colonialismo e o militarismo desde o princípio e, no caso do Irã, como em muitos outros lugares, continua sendo assim.

Como a historiadora e fotógrafa feminista iraniana Golbarg Bashi sarcasticamente comentou em resposta a mais um artigo sobre um jornalista estrangeiro em visita ao Irã, “Após todos esses anos… todos esses filmes, pinturas, livros, fotografias… ainda se pressupõe que os iranianos estão apenas aguardando alguém da Nova Zelândia ou da América sentir pena de nós e sair da sua rota para mostrar ao mundo ‘um vislumbre desta terra estranha e bizarra.’ Muito obrigada. Sério, vocês se superaram!”  

O Irã é um país complexo como qualquer outro e não pode ser capturado por meio de imagens estereotipadas de muçulmanos fanáticos, tampouco por representações estereotipadas, igualmente rasas, de uma “cultura antiga” e de mulheres sedutoras.

A busca pelo “verdadeiro Irã” oferece uma lógica simplista que se inicia com a premissa “os iranianos não são o seu governo” e encerra proclamando “os iranianos são definidos por sua oposição ao seu governo!” Mas poderiam os iranianos ser um povo igualmente complexo e contraditório como qualquer outro, e não estarem necessariamente encapsulados em imagens de – alternativamente – militantes carrancudos ou mulheres bebendo milkshakes em cafés de luxo?  

“Humans of Tehran” oferece um necessário corretivo ao embate de imagens estereotipadas que constitui grande parte da cobertura midiática ocidental sobre o Irã.

Fundado em 2011, o projeto “Humans of Tehran” consiste em fotografias de rua de toda a capital iraniana que trazem uma visão franca e agradável da sociedade iraniana moderna. As fotografias nem gozam de contradições nem tentam apresentar uma cara uniforme, em vez disso, refletem a elegante e simples premissa do grupo: fotografar iranianos vivendo suas vidas diárias.

Talvez este seja um dos aspectos mais inovadores do projeto: ao destacar o ordinário e o cotidiano, “Humans of Tehran” captura retratos surpreendentemente íntimos de pessoas extremamente normais, imagens que aqueles de fora do Irã raramente, se é que alguma vez, têm a chance de ver. “Humans of Tehran” não está preocupado em provar a humanidade dos iranianos ou documentar sua “cultura antiga”, e as legendas e descrições que acompanham as fotografias não apresentam os tons condescendente ou típico de zoológico que caracterizam alternadamente grande parte da comunicação “complacente” que emerge na imprensa ocidental.

“Humans of Tehran” foi originalmente inspirado em “Humans of New York”, a gênese das séries “Humans of”, que desde então se espalhou para todos os continentes e cujos subprodutos surgem diariamente em localidades tanto próximas quanto distantes (“Humans of New York”, na verdade, visitou o Irã em dezembro de 2012).

Desde o surgimento de “Humans of Tehran”, entretanto, um punhado de outros projetos surgiram em outras grandes cidades do Irã, e hoje é possível conhecer as ruas e as pessoas de Shiraz, Isfahan, Tabriz e outros, através de suas páginas no Facebook. Caramba, até mesmo o município de Teerã entrou nessa com seu próprio fotoblog. Estes projetos todos surgiram de forma independente, mas cada um oferece uma visão única por dentro da sociedade e das culturas das principais cidades do Irã, a partir de perspectivas de classe, étnica e de gênero.

Humans of Tehran é um negócio de orçamento surpreendentemente baixo, executado principalmente por Omid Iranmehr e Nooshafarin Movaffagh, baseados em Teerã, bem como pela fundadora original do site, Shirin Barghi, que o conduz a partir de Nova York, sua base atual. Enquanto isso, um grupo regular de  cerca de 5 ou 6 fotógrafos baseados em Teerã, contribuem ocasionalmente com o conteúdo. Apropriadamente, o coletivo é organizado totalmente por via eletrônica. Enquanto eu estava em Teerã recentemente, me sentei com Omid para discutir o projeto, seus objetivos e sua história em persa, que traduzi abaixo.

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Alex: Conte-me sobre o projeto “Humans of Tehran”. Quais são os seus objetivos com esse projeto, e como a fotografia enquanto um meio lhe ajuda a atingir esses objetivos?

Omid: Fotografias são uma linguagem internacional. Não é necessário alguém falar uma língua específica para entendê-las, porque o que você vê retratado se assemelha exatamente ao que existe. A fotografia oferece-nos uma maneira de nos fazer conhecidos e de representar o nosso mundo para os outros. Esta é uma realidade que vivemos e experienciamos, e a nossa realidade é completamente diferente do que o mundo pensa!

Se alguém viesse e tentasse explicar o que ele pensa sobre como é a vida no Irã baseado nas imagens que circulam no Ocidente, honestamente, eu não faria ideia de que eles estariam falando do Irã! O estereótipo é realmente muito diferente da realidade.

O projeto em si é um esforço completamente independente e que se esforça para mostrar exatamente o que existe, para mostrar o que é. Em alguns aspectos, é semelhante ao próprio trabalho da Ajam! [coletivo que publicou a entrevista original]

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A: Eu estou interessado em saber mais sobre o próprio processo de tirar as fotos. Como você escolhe seus assuntos? O que você diz quando vai até as pessoas?

O: Bem, é difícil dizer exatamente. Normalmente eu estou andando em algum lugar e, talvez, vejo alguém, e penso comigo mesmo: eu deveria tirar uma foto dessa pessoa nesse ambiente; eles se adequam ao espaço, e o espaço se adequa a eles.

Às vezes eu vou até alguém ou um casal, por exemplo, e a mulher dirá sim, mas o homem se oporá a ter sua imagem capturada. Ou ele dirá: “Não, apenas tire uma foto de nosso filho.”

Alguns dias atrás eu fui à Praça Azadi (“Liberdade” em persa) e vi uma mulher com uma criança pequena ao seu lado, dormindo. Eu pensei que seria um click interessante, uma criança dormindo e sonhando na Praça da Liberdade. Então eu me aproximei e perguntei se eu poderia tirar uma foto, e ela disse: “para quê?” Depois que eu expliquei o projeto, a mulher olhou para mim um pouco estranho e disse: “Bem, você não pode me fotografar, mas você pode fotografar a criança. “

Então nos falamos um pouco, e depois o marido dela apareceu. Expliquei-lhe o projeto, e ele respondeu: “Bem, não me fotografe, mas você pode fotografar a minha esposa e filho.” Ou seja, ele se recusou a ser fotografado, e a mulher também havia se recusado. A partir de três pessoas originais, acabei com uma. Então, a mulher levantou a criança na sua frente para que a câmara não pudesse vê-la, e eu tirei a foto da criança e de suas mãos. Eu não tenho nenhuma explicação do porquê de nenhum deles querer ser fotografado, embora não se importassem que o seu filho o fosse!

A: Mas por quê? Por que é que as pessoas podem querer que apenas seus filhos sejam fotografados, mas não elas próprias? É uma coisa cultural?

O: Pode ser. No sentido de que a beleza de uma criança é algo que todo mundo considera normal captar e exibir, enquanto a beleza de um homem é algo que não deveria ser mostrado, por exemplo.

Uma vez em Mirdamad, vi um homem na rua vendendo beterraba assada. Ele disse que nascera em Mashhad, mas viera a Teerã para trabalhar e vender beterraba. Normalmente, se alguém está vendendo alguma coisa e eu tiro uma foto, eu compro um pouco do que quer que seja a mercadoria. Mas ele me disse que eu não tinha que comprar nada, ele só queria que eu desse uma cópia da imagem na noite seguinte. Eu disse que tudo bem. Eu comprei algumas beterrabas, de qualquer maneira, e então nós conversamos por um tempo. Quando eu me preparava para tirar a foto dele, ele me disse para não fotografá-lo, apenas as beterrabas! Eu disse: “Não, você tem que estar na foto! É chamada Humans of Tehran, isso significa que as pessoas têm de estar nela.” Ele respondeu “Ok, mas não vou olhar para a câmera. Tire exatamente assim, como se eu não fizesse a menor ideia de que você estava tirando foto de mim.”

A: Por quê?

O: Eu não sei! Ele não me deu nenhuma explicação. Mas o problema é que se você for por esse caminho as pessoas começam a dizer: “Ok, tira a partir deste lado e tira um daquele lado”, como se fosse uma sessão de fotos!

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Muitas vezes, coisas realmente interessantes acontecem. Há poucos dias fui ao Café Naderi, o antigo e famoso café no centro da cidade. Eu fui e lá estava bebendo chá. Eu vi um grupo de mulheres e homens em seus 30 e 40 anos. Eu vi que eles deram o telefone a um vizinho para que ele tirasse uma foto. Vendo que eles queriam ter sua foto tirada, eu fui até eles e, depois de explicar o projeto, eles consentiram.

Eu perguntei se eles eram uma família e eles responderam: “Estávamos todos juntos na universidade fazendo nossos estudos de pós-graduação no início de 1990. 21 anos mais tarde, decidimos ter um reencontro. Nós anunciamos no Facebook e dissemos a todas as pessoas dessa classe para vir. E então viemos!”

A: Qual é o objetivo do seu trabalho neste projeto?

O: Através do projeto, queremos oferecer uma representação realista do Irã. Atualmente, a maioria das coisas que retratam o Irã são extremamente exageradas, especialmente porque o mostram como sendo esse tipo de lugar realmente fechado que ele não é.

Este projeto permite aos iranianos descreverem suas próprias vidas e circunstâncias.

Você consegue ver exatamente o que existe, tanto o bom quanto o ruim. Não apenas que é ótimo e é como o Céu aqui, mas também não apenas o mal, como se nós vivêssemos no inferno. O Irã é como qualquer outro país; temos o bom e temos o ruim. Há ricos e pobres. Há pessoas que vendem na rua, e há lojas de luxo. Há lojas onde as pessoas penduram fotos de Imams xiitas, e há lojas onde eles colocam fotos de Papai Noel.

Este é o nosso objetivo: usar a linguagem da fotografia para representar nossa sociedade. Sociologia através dos meios da fotografia. [Nota: Em persa, a palavra “sociologia” é composta por uma junção que significa literalmente “vir a conhecer a sociedade”, portanto, aqui ela tem o seu sentido mais literal possível.]

A: Há algo interessante sobre o projeto a partir de dois ângulos diferentes. O primeiro é o que você descreveu, que é como as pessoas no exterior estão vendo estas fotos, reagindo a elas e as interpretando.

Outro ângulo interessante, porém, é no próprio Irã. Neste momento, não há muitos projetos como este, projetos totalmente independentes, em que as pessoas vão para as ruas e apenas falam com outras pessoas e fotografam. As pessoas não estão familiarizadas com o conceito de apenas perambular e falar com as pessoas. Tem sido muito interessante para todos vocês e para as pessoas que vocês entrevistam porque o público não está familiarizado com este tipo de projeto independente.

O: Exatamente. É algo que nunca foi experimentado antes. Vivemos em um tipo de sociedade insular, no sentido de que as pessoas tendem a ser um pouco mais fechadas a estranhos e, em vez disso, mais focadas em suas famílias. Assim, a idéia de ser visto do lado de fora é uma coisa nova. É reciprocidade mútua; nós tiramos essas fotos dessas pessoas e lhes mostramos uma maneira diferente de estar fora, de interagir com as pessoas, mas, por outro lado, também aprendemos sobre nossa própria sociedade, interagindo com pessoas com quem, de outra forma, jamais teríamos uma chance de interagir!

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O que também ajuda as pessoas a abrirem suas mentes, pensarem que são capazes de ter um projeto independente deste tipo. Que um projeto artístico que também se engaja de uma forma social é possível aqui em Teerã, e não apenas em Nova York.

Uma das coisas ímpares sobre este projeto é que, além de Nova York, agora ele existe em vários países, todos os dias surge um novo. É algo realmente atraente para mim, que ele esteja criando redes sociais entre diferentes países. Cada um destes projetos é liderado por uma pessoa que está tentando mostrar a sua cidade e representá-la para o mundo.

Estes projetos tornam-se um tipo de rede potencial para a paz. A ideia, em sua essência, é que devemos explicar nossas cidades e nossos países um para o outro.

Nisso há um sentido de conversa, de uma conversa de imagens entre todos nós. Estamos todos usando a linguagem da fotografia para dizer o que queremos e para mostrar nossos próprios países. Tornou-se uma espécie de conversa internacional de pessoas que, por um lado, estão interessadas ​​em discutir seus próprios países e também querem entender outros países.

É cada vez mais fácil enviar mensagens de paz e se comunicar com outras pessoas de outros lugares, especialmente através desta linguagem compartilhada da fotografia. Não há mal-entendidos, nada disso. É uma maneira fácil e importante de comunicar uma mensagem de paz para o mundo.

A: É muito importante, especialmente para o Irã contemporâneo, sob essas condições!

O: Exatamente. A imagem do Irã que existe no mundo não está correta.

A: Todo mundo fala sobre você no Irã, mas ninguém fala com você! Ninguém diz “ok, discutam suas realidades e expliquem como são suas próprias vidas”. Todos  simplesmente querem dizer “isso é o que todos vocês são, é isso o que suas vidas são, e estas são as suas circunstâncias”.

O: Exatamente. Mas a realidade é tão diferente, a realidade de nossas vidas no Irã em nada se parece com o que a maioria das pessoas pensam.

Glossário:

 

  • Mullah: Homem ou mulher educado na tradição teológica islâmica; comumente utilizado para denominar os cléricos xiitas no Irã.  
  • Imam: Na tradição xiita, os Imams são figuras perfeitas, exemplo de fé e de conduta. Nesta tradição, os Imams estão materializados na família do Profeta Muhammad, que também são considerados pessoas sagradas.

SOBRE O AUTOR:

 

Alex Shams é jornalista, coeditor chefe do Ajam Media Collective, e faz doutorado em antropologia pela Universidade de Chicago.