Ana Maria Raietparvar

O Brasil atravessa momentos difíceis, de muita incerteza quanto ao seu futuro social e político. Desde que o questionável impeachment da presidenta Dilma, sem crime de responsabilidade, foi aprovado pelo Senado, o novo governo passou a implementar diversas políticas ortodoxas para solucionar a crise do mercado. Diversas especulações surgem sobre as motivações da agenda neoliberal do presidente Michel Temer, que vão além da mera posição ideológica. Algumas das medidas recentes são a PEC 241, que congela investimentos em saúde e educação por mais de 20 anos, e a Reforma do Ensino Médio, que limita a obrigatoriedade na escola pública a basicamente, português e matemática.

Uma das medidas mais polêmicas é a não obrigatoriedade da participação da Petrobrás na exploração do pré-sal, abrindo para as multinacionais a possibilidade de lucrarem com a extração do petróleo brasileiro. Bom, as desventuras sofridas no Oriente Médio por conta do petróleo não são novidade. Golpes de Estado, guerras e invasões militares aconteceram na região nas últimas décadas, devido à busca de petróleo. Histórias essas que podem servir para que o Brasil reflita sobre o que está passando nesse momento. Mas não só isso aconteceu na região nos últimos anos. Em 2011, no Oriente Médio e Norte da África ocorreram manifestações de milhares de pessoas lutando por melhores condições de vida, em países como Tunísia e Egito, e que se espalharam por diversos outros países, a chamada “Primavera Árabe”. As consequências, no entanto, nem sempre foram as melhores, a pior delas sendo a guerra civil que assola a Síria desde 2011.

A questão é: O que Oriente Médio e América Latina têm a aprender um com o outro? Que destinos nos unificam enquanto formos esse “Outro” dos países ocidentais? Exóticos, selvagens, irracionais, ora demasiado conservadores, ora demasiado promíscuos? Mas, acima de tudo, aqueles cujas desgraças não importam, aqueles cujas vidas não interessam, cujas opiniões e vozes não precisam ser escutadas; aqueles que servem como recursos para a exploração e o enriquecimento e para que recebam tudo o que não serve mais aos donos do mundo. Mas também aqueles cujas diversidade cultural e potencialidades criativas e produtivas são infinitas e desconhecidas. Esse lugar a que nos cabe, até onde pode nos levar? E, sobretudo, se dialogarmos uns com os outros?

Por essas e outras, acreditamos que a Revista DIASPORA serve como uma ponte para o diálogo. Ela vem ao encontro da necessidade de conhecermos esses “Outros” que habitam nossos imaginários e nos aproximarmos, entendê-los como pessoas que compartilham angústias, sentimentos, situações de vida e criações semelhantes.

Por isso, a Revista DIASPORA busca sempre trazer análises políticas do Oriente Médio e Norte da África, além de histórias de vida, criações culturais e reflexões partilhadas. Neste número, Leila Lak entrevista as artistas Alia Farid, kuwaitiana-porto-riquenha, e Güneş Terkol, da Turquia, ambas artistas com trabalhos na 32ª Bienal de Arte de São Paulo. Em sua nova coluna, Monique Sochaczewski fala sobre o Rio Árabe, em um tour pela região comercial da SAARA. Estreando como nosso colunista, o historiador Murilo Bon Meihy desvenda os diversos tipos de analistas do Oriente Médio, através dos signos do zodíaco…

Trazemos ainda um artigo de Débora Castiglione sobre as experiências de sírios em campos de refugiados na Grécia; Ariel Pires de Almeida narra, a partir de uma perspectiva histórica, o Movimento dos Países Não-Alinhados na década de 1960 e sua política para o conflito Israel-Palestina; em uma nova parceria com o coletivo de mídia AJAM Media Collective, a DIASPORA apresenta uma entrevista de Alex Shams com os criadores do projeto fotográfico “Humans of Tehran”, que, a partir das lentes de fotógrafos iranianos, retrata o cotidiano dos moradores da capital iraniana. Para finalizar, nossa editora Liza Dumovich, após lançar seu primeiro livro, “Ya Habibi: Conversão Feminina ao Islã no Rio de Janeiro”, nos brinda com seu novo conto “Nazim”.
Aproveitem a leitura!

SOBRE A AUTORA:

 

É Antropóloga, coeditora da revista Diáspora, pesquisadora do – CEPOM/UCAM e da NEOM/UFF.