Liza Dumovich

Hoje acordei com a morte de Nazim. As vozes do palácio gritaram a notícia e atravessaram as paredes do meu quarto. Havia poucas horas eu o deixara adormecido, tão leve sobre a cama nua, banhado pelo sopro calmo do Bósforo. Como fiz nas treze últimas noites, cheguei ao pôr-do-sol, quando todos cumpriam a oração de akşam, e saí de madrugada, antes de o müezzin fazer o chamado para a oração de sabah. Nada percebi de diferente nos movimentos do palácio, nada que pudesse indicar um assassinato. Mas, como haveria de perceber, se era na textura de Nazim, a pele lisa e macia de um homem ainda menino, que meus sentidos se fixavam?

Ontem passei o dia me preparando para a noite, como tenho feito desde que aqui cheguei. Comecei com um longo e morno banho de leite de cabra e água de rosas. Esfreguei a pele com um pano ensaboado para torná-la mais macia. Então, fiz meus cabelos mais reluzentes e volumosos ao ungi-los com óleo de sândalos e depois os adornei com colares de pérolas. Clareei os dentes, pintei os lábios de vermelho e apliquei kohl em volta dos olhos. Tingi as unhas e enfeitei as mãos com hena. Por último, vesti uma túnica de cetim, cuja textura insinua as formas que cobre.

Esse ritual de fazer-se mais bonita e atraente é realizado pelas moças do palácio quando devem visitar o Padixá em seu quarto. Cada uma é dona de um tesouro feminino, um conhecimento que só ela domina. O meu é a arte da dança. O soberano, porém, caíra de cama na véspera de minha chegada a Istambul, e seu filho do meio apressou-se em tomar-me para si. Desde então, vou a Nazim todas as noites e só ele conhece o meu tesouro, mas isso é segredo.

O que também ninguém sabe é que Nazim temia por sua própria vida. Antes mesmo de o Padixá sucumbir à doença do lado, a mãe do seu filho mais novo envenenou o primogênito. Muitos suspeitavam da mulher, mas Nazim não tinha dúvidas e acreditava ser o próximo. Com a morte dos dois irmãos, o caçula subirá ao trono livremente e fará de sua mãe uma Valide Hatun, a mulher mais poderosa do Império. Eu me perguntava se ela seria capaz de ir tão longe em sua ambição, afinal, as cristãs também crêem no Dia do Juízo Final, como nós muçulmanas. Allah não a perdoaria! Mas agora eu sei: meu amor tinha razão! Dar-lhe a morte e tirar-me a vida, Allah assim quis.

Hoje dormirei com Nazim e com ele permanecerei na eternidade. Ao pôr-do-sol, fecharei os olhos com a sua imagem e caminharei até o nada. Então, me dissolverei na não existência. Que Allah aceite minhas súplicas!

 

Glossário:

Akşam (lê-se aksham): em turco, a oração feita ao pôr-do-sol

Müezzin: aquele que faz a chamada para a oração, cinco vezes ao dia

Sabah: do árabe “manhã”, usado pelos turcos para designar a oração feita de madrugada

Kohl: cosmético em pó usado para escurecer as pálpebras e os cílios.

Padixá: um dos títulos usados pelo soberano do Império Otomano antes de “sultão” ser adotado no século XIV.

 

SOBRE A AUTORA:

 

Liza Dumovich é Antropóloga e Coeditora da REVISTA DIASPORA.