A socióloga e ativista Débora de Pina Castiglione traça a situação atual dos refugiados sírios nos campos gregos

Débora de Pina Castiglione

Com o agravamento da maior crise humanitária das últimas quatro décadas, é cada vez maior o número de pessoas que busca refúgio em países da União Europeia. Na Grécia, o número estimado de refugiados se aproxima dos 60.000; pouco, se comparado aos 2.726.980 atualmente na Turquia, ou os 1.033.513 que se encontram no Líbano, segundo dados da ACNUR (Agência das Nações Unidas para os Refugiados). Chegam principalmente da Síria, do Iraque e do Afeganistão, cruzando por terra até a Turquia, de onde navegam em embarcações precárias até as ilhas gregas com esperança de chegar aos países do norte da Europa, como Alemanha, Suíça ou Suécia, onde muitos têm parentes e amigos.

Mas o bloqueio de fronteiras, um atrás do outro, tem feito a travessia cada vez mais difícil. Se, no princípio da guerra civil Síria, muitos conseguiram chegar aos países do norte através da chamada rota balcânica, que atravessa Macedônia, Sérvia e Hungria, atualmente, este caminho se faz cada vez mais difícil e perigoso, com o bloqueio da fronteira entre Grécia e Macedônia e o recente aparecimento de grupos nacionalistas paramilitares atuando na fronteira Húngara. No passado mês de março, o bloqueio da fronteira entre a Grécia e a Macedônia levou a que um campo improvisado se formasse na pequena cidade grega de Idomeni, que chegou a agrupar mais de 10.000 migrantes esperando uma oportunidade para seguirem viagem, apoiados por ativistas de diversas partes do mundo. Mas como o acampamento entrava em conflito com os interesses do governo grego de privatizar a linha férrea do norte da Grécia, os refugiados foram desalojados em maio deste ano e realocados em campos geridos pelo exército grego, principalmente, ao redor da cidade de Tessalônica.

Debora de Pina Castiglione. Tessalônica, Grécia 2016

Os campos consistem em espaços militares abandonados, como galpões, descampados e outros, onde milhares de pessoas se encontram alojadas em tendas. Em Vasilika, o local com melhores condições, cerca de 1.500 pessoas dispõem de apenas 20 banheiros químicos e 7 chuveiros. Já no campo de Softex, as condições sanitárias são de tal forma precárias que duas pessoas faleceram nos últimos meses à causa de infecções e da demora na atenção médica. Têm em comum o fato de serem rodeados por grades, às vezes com maior, às vezes com menor vigilância por parte dos soldados, que frequentemente impedem ou obstaculizam a entrada de voluntários e ativistas.

“Na Síria, nós morremos rápido, aqui morremos devagar.” A frase, cada vez mais repetida pelos jovens refugiados, descreve o sentimento de desolação que caracteriza os campos militares.

Se é verdade que as condições sanitárias, ambientais e de alojamento são precárias, também é certo que a crescente desesperança seja um fardo igualmente pesado.

Com os campos militares localizados em áreas fora das cidades, de difícil – e por vezes caro – acesso, durante a grande maioria do tempo, a única coisa a fazer é esperar: por uma resposta ao pedido de asilo ou reunificação familiar, por alguma forma de levar a vida adiante depois do conflito. Movimentos de protesto organizados por refugiados reforçam as reivindicações direcionadas tanto à melhoria das condições nos campos quanto ao aceleramento do processo dos pedidos de asilo dentro do chamado “Plano de Relocalização da União Europeia”. Encontram, no entanto, a incapacidade do governo grego de lidar com a situação e com a falta de vontade política da maioria de países da União Europeia de prover asilo e garantir um trânsito seguro através de suas fronteiras.

Mas se fugir da guerra e cruzar fronteiras já são por si perigosos, a vulnerabilidade aumenta quando se trata de mulheres migrantes, especialmente aquelas que viajam sem uma companhia masculina.

Nos campos gregos, muitas mulheres temem usar o banheiro à noite com medo de sofrerem agressões. Esta situação as obriga a dormir usando fraldas, piorando a sua já precária situação. Para as mulheres grávidas, não é oferecida uma única consulta pré-natal, e, segundo voluntárias que trabalham no campo de Vasilika, todos os partos estão sendo realizados via cesariana. Sua situação se vê agravada pelo fato de que poucas mulheres dominam alguma língua européia.

Diversas agências internacionais alertam para a existência de redes de tráfico de pessoas atuando nos campos de refugiados, com a mira posta em mulheres e crianças que são atrapadas em redes de escravidão sexual ou trabalho escravo.

A dimensão do problema é desconhecida, já que não existem dados precisos sobre esta questão, embora se estime que mais de 20 mil crianças refugiadas estejam desaparecidas depois de chegar a território europeu, pelo menos 10 mil das quais foram registradas ao chegar e atualmente estão consideradas desaparecidas. Em parte, a falta de informação precisa sobre o tema tem a mesma raiz que a vulnerabilidade em que se encontram mulheres e crianças nos campos: a questão da segurança é pensada pelo governo grego – e pela maioria dos demais países europeus – com a preocupação colocada em “defender” o país dos refugiados, e não em garantir a segurança dos próprios refugiados, como seria sua obrigação segundo os tratados internacionais de proteção de direitos humanos dos quais são signatários.

A situação ganha nuances quando se consideram as interseções de gênero, idade e etnia, já que as migrantes trazem consigo as marcas de contextos étnico-nacionais complexos. “Quando os protestos começaram na Síria”, nos conta uma jovem palestina que chegara em Atenas há 3 meses, “Bashar Al-Assad disse que a culpa era dos palestinos, que éramos nós que estávamos colocando aquelas ideias na cabeça dos sírios. O campo de refugiados onde nós vivíamos foi cercado pelo exército e teve infiltração de elementos do Free Syrian Army. O governo bombardeou o campo, e por dias não podíamos sair”. A jovem fez a travessia entre Damasco e Atenas com uma amiga num momento em que as duas já se encontravam separadas de suas famílias, pois parte havia migrado e outra parte se encontrava impedida de sair da Faixa de Gaza. Pagaram a um grupo de traficantes e, com o pouco que lhes restou, cruzaram por terra até a fronteira turca, de onde deveriam pegar um barco para a Grécia.

Debora de Pina Castiglione. Tessalônica, Grécia 2016

“Quando estávamos preparando os barcos, na costa turca, fomos paradas pela polícia, que levou todo o grupo para a prisão. Como éramos as únicas mulheres viajando sozinhas, nos levaram para uma sala à parte. Nos puseram contra a parede e um dos policiais tentou me estuprar. Quando a minha amiga percebeu o que estava acontecendo, ela partiu para cima do policial e começou a bater nele para me defender.” As duas mulheres contam que o abuso só parou quando entregaram todos os seus poucos pertences aos policiais turcos. Deixadas na rua só com a roupa do corpo, seguiram viagem para a Grécia em outro barco preparado pelos mesmos traficantes que as tinham trazido até à Turquia. “Quando chegamos na Grécia, fomos bem acolhidas pelos voluntários que esperavam na praia. Depois fomos levadas para um campo do governo, e conhecemos lá um homem que nos falou sobre as ocupações em Atenas. Por isso viemos viver aqui, no Hotel Oniro”.

O Hotel Oniro é um dentre vários edifícios que foram ocupados ao longo do último ano para na busca de soluções de habitação digna para os refugiados. Para as mulheres refugiadas, as ocupações representam uma situação mais segura, já que diminui a sua exposição às agressões sexuais, por contarem com espaços privados, e às redes de tráfico de pessoas, já que a própria comunidade tem mais capacidade de controlar quem circula pelos espaços. Em alguns casos, estes espaços também facilitam a auto-organização das mulheres através dos chamados “Women’s Space” (Espaço das Mulheres), que consistem em reservar alguns dias e horários nos espaços comuns para que as mulheres estejam entre elas sem a presença masculina. Os “Women’s Space” também existem em alguns campos de refugiados e regularmente são a única iniciativa organizada unicamente por refugiadas, já que a maioria dos projetos está gerida por ativistas internacionais.

Em Atenas, diversos edifícios vazios foram ocupados por migrantes, incluídos dois hotéis, cinco escolas e um hospital. Com o escalar da crise econômica em 2008 e o enorme impacto que esta teve na Grécia, diversos edifícios foram abandonados no país, com o fechamento de escolas, hospitais e empresas. Atualmente, estima-se que cerca de 1/3 de todos os edifícios residenciais estejam vazios. Alguns destes são agora ocupados por refugiados, principalmente em Atenas, onde ao menos 1.500 pessoas buscaram esta opção. Embora a organização política destes espaços apenas tenha começado a caminhar e os desafios sejam muitos em termos de manutenção das necessidades básicas e de salubridade, são edifícios gestionados por eles, seguindo uma estrutura não horizontal, com líderes em cada ocupação.

Em Tessalônica, pequenas experiências foram feitas neste sentido, sendo a mais notável delas a ocupação durante 8 meses de Orphanotrophio, por parte de ativistas e refugiados. Porém, estas experiências tiveram vida curta devido ao desalojo promovido pela municipalidade de Tessalônica no passado 28 de julho, que resultou na desocupação de três prédios e na detenção de 74 ativistas. Desta forma, todas as experiências que buscavam a ocupação como alternativa de habitação digna em Tessalônica foram desarticuladas.

Diversos projetos solidários que visam construir alternativas estão surgindo, organizados por ativistas e ONGs tanto gregos como internacionais.

Debora de Pina Castiglione. Tessalônica, Grécia 2016

Micropolis, uma rede com sede no centro de Tessalônica, é um destes projetos: baseada em uma rede de solidariedade de moradores da cidade, promove a acolhida de famílias refugiadas em casas de indivíduos ou famílias gregas. Além da acolhida, que já contempla mais de 100 famílias, Micropolis também organiza uma escola para as crianças acima de 5 anos, assistência legal gratuita e uma série de eventos que buscam construir laços comunitários, além de um restaurante popular e uma biblioteca.

Assim como as ocupações, este projeto é um sinal da rejeição por parte de múltiplos grupos à solução apresentada pelo governo grego com o alojamento em campos militares. Entre voluntários, ativistas e algumas ONGs se questiona, agora, se a melhor estratégia é permanecer dentro dos campos militares prestando ajuda, dado que isto pode contribuir para tornar os campos mais “aceitáveis” e portanto mais permanentes. O que se faz cada vez mais evidente, particularmente no caso grego, é a fragilidade do argumento promovido por parte do governo e da União Europeia, que insistem na impossibilidade de lidar com o grande fluxo de refugiados que chegam às fronteiras europeias. Os 60.000 refugiados atualmente bloqueados na Grécia são poucos frente ao próprio fluxo migratório grego, já que, desde o começo da crise econômica em 2008, mais de meio milhão de gregos deixou o país para buscar oportunidades econômicas no exterior, segundo um estudo do Banco Central Grego. Similar é a situação de portugueses, espanhóis e irlandeses, cujos fluxos migratórios são também consideráveis.

Estes migrantes europeus se dirigem, muitas vezes, a países da própria União Européia, como Alemanha, Holanda, França, Inglaterra – os mesmos países que se negam a acolher os refugiados que fogem da devastação causada pelas guerras civis na Síria e no Iraque.

Assim, embora as instituições da União Européia insistam em que o problema dos refugiados é econômico e demográfico, e que os países do centro e norte da Europa não têm capacidade para fazer frente à acolhida destes migrantes, o próprio fluxo migratório interno do continente desmente este argumento.

A sua acolhida não sobrecarregaria as instituições europeias, mas poderia provocar rachaduras em dois dos pilares deste construto social que chamamos “Europa”: a homogeneidade branca e cristã, que há tantos séculos se usa para justificar a dominação europeia sobre outras partes do mundo. Assim, enquanto o enfoque de muito do que se tem dito está colocado sobre se a Europa está ou não disposta a respeitar os direitos humanos, talvez nos caiba fazer também outra pergunta: quem a Europa está disposta a reconhecer como humanos, dignos de respeito e portadores de direitos?

Sobre a autora:

Débora de Pina Castiglione  é formada em Sociologia, com mestrado em Estudos Históricos pela Universidade de Barcelona. Atualmente, vive na Grécia, onde atua como ativista em campos de refugiados em Tessalônica.