Leila Lak entrevista duas artistas participantes da 32ª Bienal de São Paulo e revela suas contribuições para o cenário da arte contemporânea

Leila Lak

No atual clima político do Brasil, a mais importante feira de arte contemporânea da América Latina e a mais antiga globalmente, depois de Veneza, não poderia ignorar a incerteza do país que hospeda este evento. A 32ª Bienal de São Paulo, que começou em 7 de Setembro, é chamada de “Incerteza Viva”, com o diálogo político fortemente incorporado no diálogo da Bienal.

Os curadores, liderados por Jochen Volz, fizeram algo que é raro de se ver na cena artística internacional: cinquenta por cento dos artistas selecionados são mulheres.

Dessas, duas são do Oriente Médio. Alia Farid, uma kuwaitiana-porto-riquenha que cresceu entre o Golfo e Porto Rico, atualmente baseada no Kuwait, está envolvida em uma cena artística em expansão, constituída majoritariamente por pessoas que vivem no exterior. De acordo com Farid, o Kuwait é limitador para uma artista.

Seu filme de 15 minutos “Maarad Trablous”, exibido na Bienal, foi filmado na Rashid Karami International Fairgrounds, em Tripoli, projetada por Oscar Niemeyer. Farid visitou o Parque do Ibirapuera de Niemeyer, que abriga a Bienal em São Paulo, em 2007. Alguns anos depois, ela foi ao parque em Tripoli.

“Quando visitei o parque, ele me lembrou tanto o Ibirapuera”, disse Farid por Skype, de Porto Rico, “foi quando a ideia aconteceu, a semelhança gritante entre esses dois lugares, na minha memória e na realidade.”

O filme apresenta uma mulher, uma figura solitária, caminhando pelo parque vasto e deteriorado, exposto a uma misteriosa trilha sonora reminiscente de ecos de tiros.

“Para a Bienal, achei que seria perfeito mostrar um retrato deste lugar”, ela disse que seu foco era ilustrar os “resultados divergentes desses dois lugares projetados pelo mesmo arquiteto, mas baseados em ambientes sociopolíticos e na natureza das coisas, resultando em duas obras diferentes.”

Tripoli, ao norte do Líbano, faz fronteira com a Síria, e também está sendo devastada pelo conflito que tomou conta do país vizinho e o destruiu, através da luta constante entre Alauítas e comunidades sunitas. O parque foi construído no início de 1970 para uma feira mundial que nunca chegou à cidade, devido ao início da guerra civil libanesa em 1975. Desde então, o trabalho libanês de Niemeyer permanece abandonado, com apenas o parque circundante sendo cuidado e podado, enquanto corredores e os responsáveis pelo cuidado do local mantêm suas rotinas ao redor do monumento em decomposição.

Seu trabalho testemunha não apenas dois locais convergentes, embora díspares, ligados por meio da maestria de um grande arquiteto, mas Farid também testemunha o foco da Bienal, Incerteza Viva. Com isso vem uma responsabilidade, sentida de forma palpável.

“É, também, desafiador mostrar a situação local de lá e representá-la em outro lugar”, disse Farid, “como acontece com qualquer projeto pelo qual você não quer informar de maneira equivocada. Com este projeto eu não queria repetir o que todo mundo já sabe, então eu acabei fazendo uma peça bastante feminina e muito sutil.”

Farid é uma das poucas artistas mulheres trabalhando no Kuwait. Ela conta que a cena artística no Kuwait é pequena, há apenas um pequeno coletivo de 8 pessoas. A maioria dos membros do coletivo estão baseados na Europa, e todos os membros do sexo feminino moram fora do país.

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“Eu não sei como explicar isso sem ser muito agressiva, mas há uma ideia muito simplista do que o mundo da arte é”, disse ela. “A arte, definitivamente, não é vista pelo seu potencial transformador.”

Como ela estudou arte em Porto Rico e, em seguida, nos Estados Unidos, Farid traz consigo uma compreensão intercultural do poder da arte na transformação da sociedade. Ela se sentiu em casa no Brasil, pois como disse, existem muitas semelhanças com a prática artística caribenha.

Enquanto Farid trabalha com mídias variadas, a segunda artista médio-oriental em destaque na Bienal é bastante singular, cuja prática vem de uma longa tradição de artesanato feminino. A técnica de Güneş Terkol combina bordado e costura em tecidos  preexistentes. De sua residência em Berlim, embora não dispondo de muito tempo, ela respondeu às perguntas feitas pela Revista DIASPORA.

“Eu combino as imagens que encontro com figuras do meu passado e narrativas do presente, pesquisando meu próprio processo produtivo. Os protagonistas das minhas narrativas são geralmente mulheres que se adaptam ou que se recusam a se adaptar às transformações sociais e culturais dos centros culturais em que vivem e trabalham”, disse Terkol. “Costurar e usar tecidos reciclados tornam-se uma resistência, que reivindica uma forma de produção independente e amplia o acesso à arte contemporânea. Eu espero desafiar, dinamizar e trazer novos diálogos para o que antes era apenas uma forma de produção doméstica feminina “.

Suas obras tendem a se concentrar no espaço entre o coletivo e o individual, onde o trabalho individual se integra no coletivo e vice-versa. A própria Terkol trabalha com coletivos e sistemas colaborativos, sobretudo, com ativistas feministas e grupos de mulheres. Na Bienal, sua nova série “She couldn’t believe what she heard” (“Ela não pôde acreditar no que ouviu”) é uma evolução da sua arte e em muito se conecta com a sua própria trajetória.

“O confronto pessoal de uma mulher imaginária com situações variadas enfrentadas por mulheres em sociedades dominadas por homens é destacada”, escreveu Terkol.

“Eu tento evidenciar as chamadas ‘questões das mulheres’ a partir de uma perspectiva politicamente engajada, porém intimista, que ecoa a famosa frase ‘o pessoal é político’.”

Nesta série, ela escolheu a cor vermelha para representar tanto a sua relação com o assunto, “o vínculo de sangue”, e a “realidade, o derramamento de sangue” pelas mulheres com quem ela trabalhou.

Seu segundo trabalho na exposição é chamado “The girl was not there” (“A menina não estava lá”). Nesta série, ela considera a incerteza para além daquela sentida ou compreendida. Ela tomou objetos corriqueiros como cebolas e, então, pintou os frágeis tecidos de algodão com a cor produzida pela cebola cozida. Ela disse que a peça representa “a cebola como a cor que pinta o nosso interior (nossos estômagos) e nossos exteriores; a cebola como uma cor que respira e contém lágrimas “.

Ambas as artistas celebram uma abordagem “feminina” da arte e, em vez de representar uma imagem preconcebida do que é ser médio-oriental, seus trabalhos são mais uma representação do que é ser mulher em um mundo de incertezas.

A 32ª Bienal de São Paulo vai até 11 de dezembro e conta com a representação  de 90 artistas.

SOBRE A AUTORA:

 

Leila Lak é jornalista, documentarista e Chefe de Reportagem da REVISTA DIASPORA.