Por Murilo Sebe Bon Meihy

As justificativas para a afirmação de que vivemos em um país doente são diversas. Mas, a enfermidade nacional mais relacionada ao clima olímpico do país, principalmente no Rio de Janeiro, não é o surto de Zika Vírus, Chikungunya, Dengue ou Microcefalia. Trata-se da epidemia de síndrome de Fregoli, que assola a imprensa brasileira e os corações dos nossos atléticos patriotas de botecos e redes sociais. Esse mal tenebroso tem o nome do ator italiano Leopoldo Fregoli, conhecido por interpretar diversos papeis simultaneamente no teatro, alterando a voz, o figurino e as expressões faciais. Em 1927, os psiquiatras P. Courbon e G. Fail descreveram uma síndrome paranoica que fazia com que suas vítimas sentissem que eram perseguidas por uma pessoa ou coisa que pode ser vista em todos os lugares, dando o nome do ator italiano à doença. Nesse caso, o “perseguidor” assume faces distintas, fazendo com que o doente imagine que todas as pessoas são, na verdade, uma mesma pessoa que o atormenta.  

Nos últimos anos, o impulso de grandiosidade que acometeu os brasileiros com a conquista da indicação de que o país sediasse a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas de 2016, trouxe para o imaginário coletivo nacional a falsa sensação de que éramos comparáveis àquelas que são consideradas as nações mais livres, respeitadas e, portanto, vítimas de grupos terroristas internacionais. A partir desse contexto, a já incômoda definição de “segurança”, que se mostrava uma velha conhecida dos brasileiros, principalmente em cidades como o Rio de Janeiro, deixou de ser vinculada aos crimes contra o patrimônio e a vida praticados pelos próprios cidadãos brasileiros para se transformar no risco de que virássemos alvo do extremismo religioso de grupos como o ISIS e a al-Qaeda.

Fiquem tranquilos, caros leitores. Os índices de violência no Brasil já são comparáveis aos da Síria e do Iraque, e o extremismo religioso já é uma realidade por aqui.

As Olimpíadas, portanto, não são os vetores de uma necessidade de segurança que chega ao Brasil nas bagagens de eufóricos gringos dispostos ao ritual carnavalesco de tomar caipirinhas em uma churrascaria rodízio. O que se inaugura no campo da segurança pública brasileira com a proximidade dos jogos no Rio de Janeiro é o medo de que a imagem do Brasil no mundo seja atingida por um ato terrorista atribuído a algum lunático que comeu esfiha estragada.

Para se construir um panorama real de nossa síndrome de Fregoli olímpica, basta que se faça um histórico dos atentados ocorridos em jogos olímpicos. Desde a primeira Olimpíada moderna, ocorrida em 1896 na Grécia, até hoje, somente houve o registro de dois ataques. O primeiro e mais famoso deles foi o massacre sofrido pela delegação israelense, em 1972, nos jogos de Munique, na Alemanha. Nesse episódio lamentável, 11 membros da equipe olímpica de Israel viraram reféns e foram mortos por membros do grupo palestino Setembro Negro.

Apesar do que o senso comum imagina sobre o Oriente Médio contemporâneo, os terroristas que promoveram esse massacre faziam parte de uma organização secular, sem nenhum vínculo com o ativismo político islâmico.

O segundo ato terrorista ocorrido em jogos olímpicos foi em 1996, na cidade de Atlanta. Durante uma festa no Parque Centenário, uma bomba explodiu, matando duas pessoas e ferindo uma centena. O responsável pelo ataque foi Eric Robert Rudolph, um cidadão comum norte-americano que teve a brilhante ideia de promover o ataque para forçar o cancelamento dos jogos, já que, para ele, os jogos olímpicos eram promovidos por “socialistas” e “internacionalistas” que defendiam o aborto e a homossexualidade.

No caso de Atlanta, o extremismo religioso tem um papel fundamental no ato terrorista, mas a fonte inesgotável da ignorância de Rudolph foi o radicalismo cristão: o mal que aproxima o Brasil dos Estados Unidos nos últimos tempos.

O Islã, o Oriente Médio, e os árabes não podem ser facilmente encaixados nesse cenário.

Os fatos aqui descritos podem dar uma valiosa lição ao Brasil sobre segurança. Tomando os casos de Munique e de Atlanta, a imprensa, as instituições militares e o Estado brasileiro, que nesse momento são assolados por uma mania de perseguição, devem se preocupar com a segurança de algumas delegações esportivas de certos países e, principalmente, com a possibilidade de que, em vez de um muçulmano terrorista, a história chame a atenção para o risco de que um lobo solitário, vestindo uma camiseta com a foto do Bolsonaro, seja o nosso “jihadista John”.

Ao partir desse panorama, cabe um retrospecto de como se construiu um discurso de medo, no Brasil dos jogos olímpicos, sobre a ameaça internacional dos árabes, muçulmanos, e de tudo que seja relacionado ao Oriente Médio, mas não esteja à venda no Habib’s. Não se pretende, portanto, dizer que os jogos do Rio de Janeiro estão blindados de qualquer ação terrorista.

Apenas vale a pena destacar que esse é o menor dos nossos problemas como um país que se afunda na doença psíquica de, assim como no caso da síndrome de Fregoli, enxergar na figura do “outro” tudo aquilo que não consegue ver em si mesmo.

Dentre os atores mais ativos dessa paranoia está a imprensa brasileira. A seguir, uma notícia de jornal que vende como produto cultural em escala crescente o perigo islamista no Brasil e, consequentemente, a vontade nacional de ser a Europa atual: xenofóbica e intervencionista. Em janeiro de 2016, a Revista Época, o jornal O Globo, e vários outros veículos de comunicação circularam a notícia de que havia “um terrorista no Brasil”, mais especificamente na UFRJ. Tratava-se do Professor Adlène Hicheur, cidadão franco-argelino que atuava como pesquisador no Instituto de Física dessa universidade. No último dia 15 de julho, Adlène Hicheur passou por um processo de deportação do Brasil. Mais do que o julgamento tácito de que o professor tenha culpa no processo a que foi condenado, na França, em 2012, ainda que com provas contestáveis, cuja pena ele cumpriu sem maiores incidentes, Adlène Hicheur nunca esteve vinculado a qualquer grupo terrorista desde que pisou em solo brasileiro. Em 2013, sua casa e o laboratório onde trabalhava foram vasculhados pela Polícia Federal, mas nenhuma evidência foi encontrada, como inclusive foi noticiado posteriormente.

A deportação de um cidadão árabe, professor de física, torna o Brasil mais seguro nas Olimpíadas? Claro que não, mas parece vender bem a imagem de que a imprensa e o Estado fizeram um bom trabalho. O delírio de Fregoli ao estilo brasileiro tem se confirmado não apenas no caso de Adlène Hicheur, mas em outras notícias que falam em terroristas islâmicos em Foz de Iguaçu, em alianças do Hizbullah com o crime organizado de São Paulo, ou na identificação de perigo em tudo que se relaciona com os árabes, o Islã e o Oriente Médio.

Por fim, o Brasil pode ser alvo do terrorismo internacional nos jogos olímpicos? Pode, sim. Mas, até agora, o único árabe com grande poder de destruição no Brasil é Michel Temer.

Sobre o autor:

 

Murilo Sebe Bon Meihy é Doutor em Estudos Árabes pela USP e Professor de História Contemporânea na UFRJ. Suas pesquisas se concentram em temas relacionados ao Oriente Médio, à África e aos árabes no Brasil.