Por Monique Sochaczewski

Helen Abdulla é uma curda nascida no Irã e educada na Finlândia. Em 2013, depois de anos vividos nos EUA e já com o nome artístico de Helly Luv, lançou o clipe da música “Risk it all”. No vídeo, a cantora requebrava em um curto vestido próxima a um tigre e falava em “não querer esperar mais” e “arriscar tudo”. Segundo suas declarações à imprensa, ganhava força ali sua militância pela causa curda, usando a música como arma. A partir das redes sociais se tornou extremamente famosa, incomodando muçulmanos conservadores do Oriente Médio que, inclusive, a ameaçaram de morte. No início de 2015 outro clipe seu, “Revolution”, gravado em vilarejo próximo à Mosul (não muito distante da região dominada pelo Estado Islâmico, EI), elevava seu tom de ativismo e a tornava definitivamente famosa mundialmente, com muitos a chamando de “Shakira curda”. Usando uniforme estilizado da milícia peshmerga e o lenço típico curdo, declamava que “juntos marchamos” e “juntos podemos sobreviver”. Inseriu também nas letras palavras em curdo, como “azadi” (liberdade) e “serbesti” (independência), declamadas com punho erguido. Entre um clipe e outro, o EI ganhara a atenção mundial e o mundo passava a conhecer mais a causa curda, seja pelo drama sofrido pelas milhares de yazidis – curdas étnicas, mas não muçulmanas – sequestradas e feitas de escravas sexuais pelo EI, como pela ação de guerrilheiras curdas que lutavam ombro a ombro com os homens no norte da Síria (Rojava) e no Curdistão iraquiano.

Helly Luv e as guerrilheiras curdas de fato são um lado da luta curda que merece atenção, e nos últimos tempos inúmeras matérias na mídia vêm retratando-as em texto e imagens. Meu intuito aqui é justamente tratar um pouco mais desse lado “mulheres em armas” das curdas, mas também ressaltar que a luta delas é tripla. Se por um lado, há quem recorra às armas para deter o EI ou por acreditar que dessa forma chegarão a um estado próprio, por outro, há um clamor contra misoginia e diversas formas de violência contra a mulher curda.

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Para acompanhar as questões curdas nos últimos tempos, para além das mídias próprias dos curdos, a Vice News, acessível online, vem se mostrando uma fonte importante. Nascida nos anos 1990 como um fanzine canadense, a organização se reformulou nos últimos anos e vem se propondo a fazer um novo tipo de cobertura internacional que busca, entre outras questões, “ressaltar histórias que tradicionalmente contam com pouca cobertura ao redor do globo”. Muitas são as matérias feitas por jornalistas jovens e que, de fato, visitaram vilarejos e campos de treinamento, e que apresentam as mulheres curdas e sua atuação, seja entre os peshmerga do Curdistão iraquiano, entre o PKK na Turquia e entre o que é considerado o braço do PKK na Síria (PYD e suas milícias YPG e YPJ) e no Irã (PJAK).

Existe também um esforço recente digno de nota de apresentar a questão curda – e o papel das mulheres nesta – ao público brasileiro. É o caso, por exemplo, da primeira temporada do programa “Que Mundo é Esse?”, da Globonews, que por quatro episódios gravados em junho de 2015 buscou contar parte da história curda, desde Istambul, para onde milhares de curdos migraram em busca de melhores condições de vida, passando por Diyarbakir (onde o partido HDP, que aliava a defesa dos direitos dos curdos com igualitarismo e defesa das minorias, acabara de romper a barreira de 10% imposta pelo governo, entrando no parlamento turco) e chegando então ao Curdistão iraquiano. Lá, o programa mostrou o desenvolvimento de Erbil, oriundo de recursos do petróleo, mas também o drama dos refugiados do Estado Islâmico – em especial as yazidis – e a luta precária dos peshmerga frente ao mesmo EI.

Mais ou menos na mesma época, em meados do ano passado, a Globonews projetou o documentário “Kobani Vive”, do fotógrafo brasileiro Gabriel Chaim. Ele visitou a cidade de Kobani, na fronteira entre Síria e Turquia, pouco depois de sua retomada do EI por parte dos curdos, e conversou com alguns moradores e também com guerrilheiras da milícia feminina YPJ, que desconversavam sobre os planos de casamento quando viviam luta tão mais importante. Chaim circulou ainda por boa parte das ruínas da cidade, muitas delas ainda repletas de bombas não detonadas, plantadas pelo EI. Por fim, foi para o Curdistão iraquiano, por onde seguiu a jornalista Adriana Carranca em setembro de 2015 e de lá escreveu para O Globo sobre o papel das mulheres curdas – oriundas dos Curdistões iraquiano, iraniano, sírio e turco – na resistência ao Estado Islâmico. Empunhando kalashnikovs, granadas e prontas para lutar até o fim, algumas das guerrilheiras compartilharam com Adriana seu sentimento de que na guerrilha se sentiam livres da opressão masculina e lembravam de suas muitas mártires mortas em combate.

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A mídia internacional e esse incipiente olhar brasileiro para a questão curda tentam apresentar da melhor maneira possível a complexidade da sopa de letrinhas dos grupos curdos, sobretudo os que pegam em armas. Essa diversidade de organizações demonstra na realidade que, apesar de um passado e presente de sofrimento comum, os curdos têm muitas diferenças internas. Para além desses grupos “institucionalizados”, ainda, há curdos que passaram a se identificar com as identidades nacionais dos países em que se encontram, sendo bastante assimilados. Há curdos que querem que seus direitos políticos e culturais sejam reconhecidos, preferindo atuar em partidos como o HDP ou partidos de esquerda na Turquia, por exemplo. Há ainda curdos conservadores, que votam no AKP ou que militam no Hizmet. E há mesmo curdos que compõem os quadros do EI. Talvez, uma das razões de se conhecer mais, e se militar mais, pela causa palestina e não pela causa curda em lugares como o Brasil, tenha justamente a ver com a dificuldade de se ter um preto e branco nessa história.

Há, porém, não só um quê de romantização do papel das mulheres em armas, uma vez que um olhar mais atento indica que atuam normalmente sob comando masculino, e que também o que as move na direção da luta tem a ver com graves questões de gênero que vivem no dia a dia. São inúmeros os casos de violência doméstica, casamento forçado e crimes de honra e muitas vezes as mulheres (muitas menores de idade), em desespero, apelam para a autoimolação, ateando fogo ao próprio corpo. Entre 1991 e 2014, cerca de 10.000 curdas no Iraque foram levadas a esse ato desesperado e, apesar de já haver legislação e instituições para lidar com essa questão, ela ainda é grave. A realidade de desigualdade estrutural frente aos homens são resquícios de um forte patriarcalismo, que muitas curdas entendem, portanto, demandar uma luta igualmente forte e importante. Empunham diversas armas neste sentido, inclusive a música, como mostra Helly Luv.

Sobre a autora:

 

 Monique Sochaczewski é doutora em História, Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e colunista da REVISTA DIASPORA.