Como o aplicativo Telegram rompe a barreira da censura no Irã e se torna

fundamental para a socialização e mobilização política no país

Por Payman Shamsian

No quesito liberdade na Internet, o Irã vem ocupando um lugar aparentemente inabalável no final da lista entre outros países do mundo. O rol de restrições feitas pelo governo à Internet é longo e inclui diversas plataformas online, sites e redes sociais. Enquanto o governo tenta dificultar o acesso da população às informações do mundo online, os iranianos não se abalam e inventam diversas formas de contornar os bloqueios e restrições. O jogo de esconde-esconde da população com o governo é particularmente intenso nas plataformas de redes sociais como o Facebook, Instagram, etc. Embora o Facebook, o Twitter e o YouTube sejam proibidos no Irã, os iranianos continuam a ter acesso a essas redes sociais, usando o Virtual Private Network (VPN), já há alguns anos.

No entanto, nos últimos dois anos, tem sido mais fácil para os iranianos desfrutarem dos recursos das redes sociais do mundo online. Graças a um novo aplicativo para envio de mensagens, a tendência entre os iranianos hoje é usar menos o Facebook e não se dar ao trabalho de conectar o VPN apenas para acompanhar o Twitter.

Telegram é o aplicativo de mensagens que conquistou o coração dos iranianos nos últimos dois anos.

Esse aplicativo, com sede em Berlim, foi lançado por dois irmãos russos em 2013. A principal característica do Telegram é o funcionamento por canais que permite que os usuários veiculem suas próprias mensagens e histórias para um público bem grande.

De acordo com os dados estatísticos publicados pela Iranian Students Polling Agency (ISPA), mais de 20 milhões de pessoas usam o Telegram no Irã, tornando essa ferramenta de comunicação e envio de mensagens a mais usada pelos iranianos atualmente. A empresa diz que cerca de 20% dos usuários ativos mensais são do Irã. Devido à sua simplicidade e aspecto amigável, este aplicativo de mensagens tornou-se a primeira experiência na Internet de muitas gerações mais antigas de iranianos. Se você vir uma senhora iraniana ou um senhor iraniano olhando fixamente para a tela de um smart phone, é provável que ela ou ele esteja lendo uma notícia ou assistindo a um vídeo no Telegram. No Irã, o Telegram, assim como outras redes sociais, é geralmente instalado em celulares e laptops para leitura de notícias, comunicação com outras pessoas por meio de grupos ou mensagens diretas ou para compartilhamento de vídeos, áudios e piadas. De acordo com algumas pesquisas estatísticas, 72% dos jovens iranianos entre 18 e 29 anos têm acesso a smart phone e 42% da população rural usa as redes sociais.

Por que o Telegram?

Você pode ser perguntar por que o Telegram é tão difundido no Irã, e por que tem uma popularidade maior do que outras redes sociais. O primeiro motivo, sem dúvida, é que as políticas de filtro de Internet iranianas não estão configuradas para banir o Telegram, ainda. Assim, os iranianos sentem-se à vontade para se comunicarem via Telegram sem necessidade de VPN ou de qualquer outro software antifiltro. Não existe um motivo claro por trás da decisão do governo de não proibir o Telegram nos últimos dois anos.

No entanto, podemos estabelecer os seguintes princípios da política do regime iraniano em relação ao Telegram: primeiro – não necessariamente o principal – é o grande e crescente grau de penetração do Telegram entre os iranianos. Quanto a isso, podemos considerar o receio do governo de desagradar as pessoas ao proibir o Telegram. O segundo motivo seria a popularidade do Telegram em todas as classes sociais, o que faz com que pessoas de diferentes espectros sociais, políticos e econômicos sejam bem recebidas na plataforma. Na verdade, esse pode ser considerado como o grande motivo da força do Telegram no Irã. O conteúdo dos diversos canais do Telegram atende a inclinações diferentes, pois as próprias pessoas produzem o conteúdo. Além disso, o outro motivo pode ser que o Telegram, ao contrário do Facebook e do Instagram, não dá a possibilidade de comentários ou reações às publicações nos canais.

O Telegram é mais do que um aplicativo de mensagens para os iranianos, pois tem sido usado nesse país de modo dramaticamente diferente de outras ferramentas de envio de mensagens online. Muitas histórias e notícias circulam entre as pessoas por meio do Telegram, diariamente. No entanto, a maior parte dessas notícias e histórias não são divulgadas pela mídia oficial. Pessoas comuns podem facilmente dar notícias e contar histórias de seu entorno, veiculando-as por meio dos canais do Telegram para outras pessoas.

Por isso, as pessoas tendem a confiar mais no Telegram do que nas mídias oficiais e mídias licenciadas, como canais de TV nacionais e mídia impressa.

Isso pode ser perigoso, pois notícias falsas e imprecisas também podem se espalhar rapidamente pelo Telegram.

Portanto, enquanto as restrições e a censura à mídia licenciada limitam a livre circulação das histórias, a imprecisão das notícias nas redes sociais prejudica as mensagens que chegam ao público. Mesmo que o Telegram tente manter as informações dos administradores e dos usuários seguras, muitas vezes é extremamente difícil distinguir entre canais confiáveis e não confiáveis nesse serviço de mensagens. Na verdade, além das pessoas comuns, muitos órgãos governamentais usam o Telegram como ponte de comunicação entre sua plataforma institucional e os indivíduos. Além disso, os negócios e as empresas começaram a anunciar seus serviços e produtos por meio do Telegram para atingir determinados alvos mais facilmente e para se expor a menos censura.

Muito além de um aplicativo de mensagens

Nas últimas eleições parlamentares no Irã, o Telegram foi usado intensamente pelos candidatos para conectarem-se com os eleitores e divulgarem as mensagens de campanha para um público maior. Nas eleições que antecederam as eleições parlamentares de 2016, o Facebook e o Twitter foram considerados as únicas redes sociais ativamente usadas para campanhas políticas no Irã. No entanto, o uso dessas redes sociais era muito limitado e teve uma influência mínima sobre o ambiente eleitoral. O Telegram, ao contrário, foi um dos elementos chave da campanha para as eleições parlamentares de 2016. Reformistas e moderados fizeram uma coalizão chamada “Hope List” e, basicamente, fizeram sua campanha no Telegram. Eles usaram o aplicativo de modo a competir com os candidatos linha-dura e conservadores, que têm os canais de TV como porta-vozes e desfrutam do apoio ilimitado de algumas instituições oficiais.

Além disso, muitas mídias com sede no exterior e agências de notícias como a BBCPersian também ofereceram seus serviços por meio de um canal do Telegram para que se tornassem acessíveis a um público maior. Por causa disso, muita gente do grupo linha-dura defende ferozmente a proibição do Telegram no Irã, principalmente devido aos desafios apresentados por esse aplicativo de envio de mensagens durante o período eleitoral de 2016.

No entanto, como relata uma ONG londrina que faz pesquisas relacionadas ao mundo digital e à mídia, o regime iraniano parece estar se adaptando à forma de atuação das redes sociais.  “Enquanto que, no passado, a política do governo tendia a condenar, bloquear e interromper os serviços oferecidos pelos aplicativos de mensagens, hoje há sinais de que os órgãos políticos e de mídia podem estar procurando desenvolver uma resposta mais flexível à popularidade do Telegram, podendo até cooptar essa plataforma para seus próprios propósitos.”

Por outro lado, o Telegram mostrou ser capaz de causar impacto no comportamento e nas tendências da sociedade iraniana. No mês passado, um Encontro do Telegram em Teerã foi coberto por usuários de redes sociais dentro e fora do Irã. Eu outras situações, o Telegram tornou-se um canal para que servidores sociais e ONGs transmitam às pessoas suas mensagens sobre as tradições e culturas urbanas, atividades ambientais e programas humanitários.

Parece que as redes sociais desempenham um papel significativo no ambiente político e social do Irã.

Diariamente, muitas pessoas começam a usar as plataformas de rede social, como o Telegram, para acessar notícias das mídias online, aumentar sua consciência sobre diversos assuntos da sociedade, e empoderar suas vozes para que sejam ouvidas por políticos e incumbentes. Nessa perspectiva, o impacto considerável das redes sociais sobre os movimentos políticos e atividades sociais deve ser levado em consideração.

 

Sobre o autor:

 

Payman Shamsian é formado em relações internacionais pela Central European University. Sua pesquisa abarca a relação entre o Irã e grupos xiitas, Turquia, Síria, migração forçada e a politica externa dos EUA em relação ao Oriente Médio.