Por Liza Dumovich

 

No último 28 de junho, três homens-bomba se explodiram no Aeroporto Internacional Atatürk, em Istambul, matando 45 pessoas e ferindo mais de 230. Eles seriam filiados ao ISIS/DAESH e foram identificados como provenientes do Uzbequistão, Quirguistão – ambos países da Ásia Central, ex-URSS – e da Rússia.

Esse foi o quarto atentado na antiga Constantinopla só na primeira metade de 2016, que, somados a outros dois na capital Ancara, no mesmo período, demonstram o clima de insegurança na região. No entanto, foi somente pouco mais de duas semanas depois que a instabilidade política na Turquia apareceu de forma contundente, quando uma tentativa de golpe por parte de um pequeno grupo das Forças Armadas escancarou a fragilidade da democracia no país. A história da República da Turquia conta quatro golpes de Estado desde a sua fundação, em 1923, e descreve os militares como representantes da tradicional elite secular e, portanto, guardiões da laicidade estatal. Porém, interpretar essa intervenção como um protesto dos militares contra a islamização da sociedade turca, supostamente promovida pelo AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento), seria reduzir diferenças culturais e sociais internas, inclusive aos próprios militares, unicamente à religião. Aliás, há alguns anos as Forças Armadas têm sofrido mudanças na sua composição, o que a tornou ainda menos homogênea do que se poderia pensar. O que se descortinou, no entanto, foi menos a pluralidade política e social turca, comum a qualquer sociedade, do que a dificuldade do país em negociar os interesses e a alternância no poder dos distintos grupos que o compõem.

A permanência de Erdoğan no poder desde 2003, antes como primeiro-ministro e agora como presidente, é um indicativo dessa rigidez política, mas também de um caminhar contrariamente à consolidação da democracia. Ao longo desses 13 anos, é nítida a mudança de sua postura em relação ao Oriente Médio e, sobretudo, à União Europeia, antes almejada e atualmente preterida em prol de renovadas alianças, em que figuram a Rússia e países da Ásia Central. Nesse sentido, o golpe frustrado foi “um presente de Deus” a Erdoğan, para citar suas próprias palavras, ao abrir caminho para a tomada de medidas proibitivas num Estado de direito e a emergencial implementação do seu projeto centralizador, já em curso desde 2011. A repressão que se instalou no país vai muito além do setor militar e se empenha em esmagar todo o espectro da oposição, com expurgos e prisões de juízes, jornalistas, professores e funcionários públicos de todas as esferas de governo. Instituições privadas, como meios de comunicação, escolas, hospitais e associações, também alvos da fúria de Erdoğan, sofreram intervenção estatal ou foram fechadas.

A maioria dessas instituições pertenciam a pessoas ligadas de alguma forma ao Movimento Hizmet, também conhecido como Movimento Gülen, nome que faz referência ao seu líder carismático, o clérigo Fetullah Gülen, auto-exilado na Pensilvânia desde 1999. Esse movimento da sociedade civil turca surgiu na década de 1970 e se tornou transnacional alguns anos mais tarde, chegando ao Brasil há cerca de 12 anos. Ele tem o islã como base de suas ideias e norteador de sua prática, mas advoga o casamento entre religião e ciência, concentrando suas atividades na área da educação e cultura. Embora a comunidade reunida sob sua liderança não esgote a oposição ao governo do AKP, ela foi apontada por Erdoğan como a responsável pelo golpe e classificada como grupo terrorista. Em retaliação a uma suposta culpa, Erdoğan exige dos EUA a extradição de Gülen, enquanto efetua um grande número de prisões sem provas dos membros ou mesmo simpatizantes do Movimento.

Se a nova configuração interna da Turquia se aproxima nitidamente daquela dos países onde a democracia é inexistente ou que a tiveram como uma experiência efêmera, a sua postura externa promete novidades na geopolítica regional e levanta questões quanto ao futuro das suas relações com os EUA e a Europa.

 

Sobre a autora:

 

Liza Dumovich é Antropóloga e Coeditora da REVISTA DIASPORA.