A Palestina para se conhecer e para se contar

Por Leonardo Schiocchet

Q

uem lida com a antropologia visual bem sabe que fotografia e etnografia não necessitam – e em verdade não devem – ser tidos como termos antagônicos. Mas nem sempre é fácil fotografar e etnografar ao mesmo tempo. Para quem trabalha com conflito, como é o meu caso, pode ser difícil unir fotografia à etnografia. Já desde o mestrado eu realizava pesquisa de campo entre grupos potencialmente vulneráveis às imagens que eu veicularia. Desde que comecei a trabalhar com o Oriente Médio, então em 2005, a dificuldade apenas aumentou. Como se não bastasse, sou um daqueles para quem um retrato vale mais do que mil paisagens. Assim, se minha narrativa etnográfica não facilita a prática fotográfica, minha prática fotográfica também não facilita minha narrativa etnográfica.

Mas como lembra muito bem Milton Guran (1997), fotografar para contar não é a única forma de se alinhar etnografia e fotografia. Durante minha pesquisa de campo em campos de refugiados palestinos no Líbano (2006-2010), por exemplo, eu fotografava as comemorações (políticas, nacionais, religiosas, étnicas e pessoais) locais, que eram tema do meu trabalho sobre ritualização do cotidiano, não para mim, mas a pedido de grupos dentro do próprio campo. Poucas delas foram publicadas – algumas em minha tese de doutorado (2011), outra como capa de um livro que organizei (2015) e outras, finalmente, compondo o único ensaio fotográfico que publiquei sobre o tema (2014), que acompanhava um outro artigo em texto.

As fotos compondo o presente ensaio se encontram precisamente entre os dois tipos elencados por Guran. Não diretamente para conhecer, não diretamente para contar. Eu me encontrava na Palestina entre novembro de 2015 e janeiro de 2016 para uma etapa da pesquisa etnográfica referente ao meu atual projeto de pesquisa. Esse período coincidiu com uma onda de esfaqueamento de judeus por alguns jovens palestinos na cidade de Jerusalém. Assim, eu tinha decidido não trazer minha câmera para campo. As presentes fotos foram, assim, feitas com a câmera do meu telefone celular, que o formato inusitado trai. Eu fotografava não exatamente para conhecer o que desconhecia e não exatamente com a intenção de contar. No entanto, o experiente Guran estava correto, pois conheci e contei. Ao escolher o que entra no quadro da foto, ou aquilo que vai com o quê, reorganizamos ou reiteramos a ordem do mundo fora do quadro; grosseiramente, o que antropólogos como eu chamam de uma “antropologia do conhecimento” (Barth 2002). Concomitantemente, apenas depois de algum tempo analisando as fotos é que pude reconhecer o quanto as panorâmicas das cidades e os detalhes das ruas eram fruto do meu desejo de comunicar à minha esposa e a seu falecido pai algo sobre um país que era ao mesmo tempo seu e interditado, já que meu sogro era um refugiado Palestino que deixou o país à época da criação de Israel e nunca mais pôde voltar.

O presente ensaio é resultado desse dilema: despretensiosamente conhecer sem reconhecer e contar em parte para quem não pode ouvir.

 

Para saber mais:

Barth, Fredrik. 2002. An Anthropology of Knowledge. Current Anthropology 43(1). Guran, Milton. 1997. Fotografar para Descobrir, Fotografar para Contar. Diálogos Antropológicos. Dossie 1: Imagem. Dezembro de 1997, pp. 71-78. Schiocchet, Leonardo. 2011. Refugee Lives: Ritual and Religion in a Christian and a Muslim Palestinain Refugee Camp in Lebanon. Ph.D. Dissertation. Department of Anthropology, Boston University. _________________. 2014. Foto-narrativa: Campos de Refugiados Palestinos no Líbano – Espaço Simbólico Reorganizado. In Critique and Humanism No. 42. 1-2, 2013; pp. 301-308. (em Búlgaro). _________________ (Org.). 2015. Entre o Velho e o Novo Mundo: A Diáspora Palestina desde o Oriente Médio à América Latina. Lisboa: Chiado Editora (530 páginas).

Sobre a autora:

Leonardo Schiocchet é PhD em antropologia pela Boston University e pesquisador do Austrian Academy of Sciences Institute for Social Anthropology (ISA). Há cerca de 10 anos, realiza pesquisa etnográfica entre palestinos no Líbano, Brasil, Dinamarca, Viena e Cisjordânia. É autor de diversos artigos e capítulos de livros sobre o tema e um dos organizadores do Refugee Outreach and Research Network, uma iniciativa do ISA.