O antropólogo dinamarquês Thomas Hansen traça um panorama histórico do movimento de Boicote e sua relação com a luta anti-Apartheid da África do Sul.

Thomas Blom Hansen,

professor de antropologia e diretor do Centro para o Sul da Ásia da Universidade de Stanford. Seu livro mais recente é Melancholia da Liberdade. A vida social numa Township indiana na África do Sul (2012).

Stanford, 6 de junho de 2015

 

 

Eu conquistei a maioridade política como um ativista anti-apartheid na minha terra natal, a Dinamarca, no final dos anos 70. Nós fizemos campanha por um boicote amplo à África do Sul, em todas as áreas da vida. A Assembleia Geral da ONU vinha recomendando essa ação há mais de uma década, mas sanções internacionais efetivas foram diversas vezes bloqueadas pelos EUA, Reino Unido e França no Conselho de Segurança até 1988 – dois anos antes de Mandela ser libertado da prisão. A campanha ganhou força e muitos países impuseram sanções e embargos comerciais à África do Sul. Finalmente, em 1986, o Congresso dos EUA aprovou leis de boicote à África do Sul em diversas áreas.

 

O sucesso desse movimento fez com que muitas pessoas esquecessem as adversidades que enfrentamos à época. Nós éramos rotineiramente chamados de radicais, desequilibrados, tendenciosos, agentes do comunismo soviético, e apoiadores de “organizações terroristas”, como o braço armado do ANC (Congresso Nacional Africano), Umkonte we Sizwe. Disseram-nos que o conflito tinha dois lados; que deveríamos ir até lá e ver com nossos próprios olhos (muitos de nós tinham de fato estado na África do Sul, o que fez com que ficássemos ainda mais comprometidos com a causa); e que os negros da África do Sul, na verdade, vivam melhor do que a maioria das pessoas no continente africano.

 

Fizemos o apelo por um boicote porque vimos a privação sistemática de todo um povo – roubado de suas terras, sua história, meios de subsistência, direitos políticos, dignidade, vida e futuro – por um Estado poderoso e rico, com o aparato militar mais forte do continente africano, eficazmente apoiado e sustentado pelas maiores potências ocidentais.

 

A campanha de boicote funcionou? Sim, não foi pouco o que contribuiu para a erosão gradual da legitimidade do regime de apartheid e de sua posição no mundo, a ponto de ser muito difícil encontrar, hoje, alguém que admita ter apoiado o apartheid, ou mesmo de ter se oposto ao boicote à África do Sul.


O boicote prejudicou e causou problemas às pessoas na África do Sul? Sim, em muitas áreas, e inclusive a muitos dos sul-africanos negros, cujos interesses e futuro estávamos defendendo. No entanto, a maioria das organizações progressistas – políticas, civis e religiosas – que se opuseram ao apartheid, apoiaram fortemente o boicote. Qualquer pessoa que converse com sul-africanos negros que viveram esse período saberá que essas iniciativas tiveram o profundo reconhecimento de uma grande maioria. Isso fez com que eles se sentissem menos esquecidos pelo mundo.

 

O movimento de boicote incluía apelos por boicote a instituições acadêmicas, acadêmicos, contratos editoriais, colaborações em pesquisa, visitas acadêmicas, participação em conferências e a muitas outras coisas. Essas medidas foram aplicadas a todas as instituições e a todos os acadêmicos da África do Sul, independentemente de raça e posição. Toda a complexidade da história, dos problemas, efeitos e implicações desse movimento de boicote acadêmico está resumido em um estudo cuidadoso e sistemático feito por Lancaster e Haricombe. Eles concluíram que, de forma gradual, simbólica e indireta, o boicote isolou os acadêmicos da África do Sul e minou a credibilidade do regime. Veja o resumo no site http://www.monabaker.com/pMachine/more.php?id=A1105_0_1_0_M


Eu havia crescido ouvindo a história do heroico resgate de judeus dinamarqueses durante a Segunda Guerra. O relacionamento especial entre a Dinamarca e Israel depois da Guerra se tornou parte das nossas vidas: visitas a aulas escolares, eventos culturais, palestras de cientistas eminentes, performances musicais, produtos israelenses em nossas lojas e um fluxo constante de jovens dinamarqueses passando um tempo em comunidades de kibbutz progressistas, pelo menos até a invasão do Líbano em 1982 fazer com que publicamente o prestígio de Israel caísse muito. Na nossa visão de mundo, àquela época, Israel e África do Sul pertenciam a duas categorias muito distintas.

A África do Sul era o último bastião do colonialismo, brutalmente dominada pelo que nós pensávamos ser uma comunidade branca provinciana e culturalmente limitada.

Israel, ao contrário, se mostrava como uma democracia mais cosmopolita, cheia de debates e críticas vigorosos à ocupação dos territórios palestinos que se consolidava. Embora a ocupação violasse claramente as leis internacionais e os direitos humanos dos palestinos, e embora as organizações palestinas apelassem por ação contra Israel, um boicote total como o que foi aplicado à África do Sul não parecia a ação mais adequada àquela época.

Esta opinião e esta percepção sobre Israel e as políticas israelenses não mudaram no meio de muita gente liberal em todo o mundo. Mas os eventos em Israel e nos territórios ocupados foram tão numerosos e tão graves nas duas últimas décadas que há todas as razões para reavaliar essa posição: a sistemática expansão dos assentamentos e o roubo de terras da Cisjordânia, o enfraquecimento do Acordo de Oslo, o enfraquecimento da Autoridade Palestina, a construção do muro, a destruição planejada da vida e da infraestrutura de Gaza em sucessivas campanhas militares, o assédio rotineiro dos palestinos pelo IDF (Forças de Defesa Israelenses) e a demonização dos árabes israelenses, tratados como inimigos internos. Estes são somente alguns dos atos mais ferozes da violência de Estado contra toda uma categoria de pessoas.

Israel de hoje é diferente do retrato cor-de-rosa com que eu e muitos outros crescemos. Sua economia e sua sociedade estão mais militarizadas e securitizadas do que nunca.

A paisagem política é dominada por formações políticas que variam da hegemonia beligerante ao abertamente racista. A retórica anterior de coexistência e paz, na corrente política dominante, deu lugar a uma retórica estridente de perigo e medo. Até os críticos moderados das políticas de Estado israelenses são calados, taxados de judeus que odeiam a si mesmos ou, mais comumente, de antissemitas.

Eu não consigo deixar de comparar essa retórica com a estridência e a agressividade do regime de apartheid nos anos 80, conforme ele ficava mais isolado no mundo. Homens dignos do clero, como Desmond Tutu e Alan Boesak, foram retratados como agentes sanguinários do comunismo mundial! Essa afirmação é tão absurda quanto a recente declaração de Netanyahu de que a campanha do BDS é uma ‘ameaça estratégica’ que se equipara ao programa nuclear do Irã e de que o BDS, na verdade, apoia o ISIS…!


Hoje em dia, não são somente organizações políticas como a OLP que clamam pelo boicote a Israel. O movimento BDS atual responde a apelos de uma grande parte das organizações da sociedade civil palestina, de profissionais e acadêmicos palestinos que, após muitos anos de tentativas de colaboração com seus pares israelenses, chegaram a um impasse em face de um Estado cada vez mais agressivo e uma sociedade israelense cada vez mais hostil. A conclusão inevitável é de que somente um movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções globais e abrangentes contra o Estado  de Israel pode começar a mudar a situação desesperadora de milhões de palestinos.

Eu quero apoiar esta iniciativa porque o que vejo hoje está tão próximo do que eu vi nos anos 70 – para repetir minha formulação anterior: ‘um povo inteiro roubado de suas terras, sua história, meios de subsistência, direitos políticos, dignidade, vida e futuro – por um Estado poderoso e rico, com o aparato militar mais forte da região, eficazmente apoiado e sustentado pelas maiores potências ocidentais.’

Eu sou um acadêmico e gostaria de contribuir para esta iniciativa com base em minha posição, meu pensamento e meu trabalho. Eu acredito que um boicote acadêmico às instituições israelenses ativamente engajadas em pesquisas que apoiam e fortalecem a ocupação do território palestino e viola os direitos dos palestinos é o caminho certo a seguir. Pode ser que isso não mude as políticas de Israel e, sim, pode parecer meramente ‘simbólico’, como os defensores das políticas de Israel nunca se cansam de nos dizer. No entanto, como qualquer antropólogo sabe, símbolos e ações simbólicas estão no cerne da vida humana e podem mudar as coisas, embora lenta e indiretamente – assim como o boicote acadêmico à África do Sul trabalhou de forma lenta, simbólica e indireta.


Aderir ao boicote acadêmico a instituições israelenses selecionadas é, para mim, a primeira e principal forma de apoiar nossos colegas palestinos sitiados em suas instituições acadêmicas financeiramente espoliadas e marginalizadas. Também é uma forma de comunicar aos nossos colegas acadêmicos israelenses que não temos medo de assumir uma postura clara sobre este assunto e que os encorajamos a fazer o mesmo. Na África do Sul dos anos 80, leis draconianas de emergência restringiram o que os acadêmicos e as pessoas podiam dizer e fazer em público. Nenhuma restrição desse tipo se aplica aos acadêmicos israelenses e, mesmo assim, surpreendentemente, poucos se solidarizaram com os colegas palestinos, ou fizeram um protesto aberto e articulado contra a sistemática violação dos direitos humanos dos palestinos pelo Estado de Israel.

 

Para todos aqueles que dizem que ‘sim, o BDS era adequado no caso da África do Sul, mas não é no caso de Israel’, por favor, reserve um tempo para considerar o que de fato aconteceu na África do Sul nos anos do apartheid e o que está realmente acontecendo hoje em Gaza e na Cisjordânia. Em vez de desconsiderar a comparação como intrinsecamente injusta e até mesmo antissemita, uma alegação frequente, cabe a nós, estudiosos e acadêmicos, analisarmos os fatos, o número de mortos, as estruturas de privação, a humilhação diária, o roubo de terras, as estruturas legais e muito mais. Deixem-nos ter uma conversa séria, deixem-nos usar nossos recursos enquanto  antropólogos e acadêmicos para desenvolver um debate fundamentado que nos permita entender e avaliar adequadamente o que vem acontecendo em Israel e na Palestina por muitos anos.


Também pediria aos colegas que têm dúvidas sobre o assunto a reservar um tempo para analisar os fatos reais do boicote acadêmico à África do Sul. Foi muito abrangente e duro, não discriminou instituições e seu objetivo era incomodar os acadêmicos, tanto individual quanto coletivamente. A atual proposta de boicote feita pelos Anthropologists for the Boycott of Israeli Institutions (Antropólogos a Favor do Boicote a Instituições Israelenses) (https://anthroboycott.wordpress.com/the-statement/) é muito menos dura do que a que foi aplicado à África do Sul, tem um alvo muito mais preciso e é muito menos direcionada aos acadêmicos como indivíduos. Diferente da campanha na África do Sul, ela não pressupõe que todos os acadêmicos de Israel são cúmplices das ações do Estado. Pelo contrário, seu alvo são as instituições e, portanto, proporciona um apoio indireto aos colegas israelenses, progressistas, que são críticos do apoio ativo que suas próprias instituições dão às políticas de Estado de Israel nos territórios ocupados.

 

Nesse momento em que Sheldon Adelson, no seu hotel em Las Vegas, tenta persuadir os pré-candidatos republicanos de que o BDS é a próxima grande ameaça a Israel e aos judeus do mundo todo, pode ser um bom momento para analisar novamente os fatos concretos.

Esse também pode ser um bom momento para ouvir as crescentes organizações verdadeiramente progressistas, como a Jewish Voices for Peace (Vozes Judias pela Paz) (http://jewishvoiceforpeace.org/content/jvp-issues#1), que apoiam ativamente o BDS.