O webdocumentário “Life on Hold”, revela histórias de refugiados sírios no Líbano e como eles encaram e fazem a própria reconstrução de suas vidas.

Por Leila lak

Sempre que alguém sai para brincar quando eu tenho que trabalhar, me dá vontade de chorar,” diz Mohammed, um menino de 10 anos da cidade de Alepo, que fugiu com sua família da guerra na Síria buscando refúgio no Líbano. Lá, suas vidas mudaram. Eles se deslocaram para assentamentos ilegais e, quando seu pai não conseguiu encontrar um trabalho que pagasse o suficiente para sustentar a familia, ele pôs Mohammed para trabalhar. Sua história é uma das muitas recontadas no webdocumentário “Life on Hold”  (http://lifeonhold.aljazeera.com), da diretora Reem Haddad, publicado pela empresa internacional de comunicação Al Jazeera English. A história foi indicada, dentre outros prêmios, ao festival internacional de documentários de Amsterdam.

Como filha de refugiados palestinos, Haddad decidiu no início de 2014 fazer um documentário enfocando os mais de um milhão de refugiados vindos da Síria em direção ao Líbano. Nesse momento, eles não estavam fazendo a perigosa viagem em direção a países da União Europeia e não eram o foco dos noticiários internacionais.

Haddad e sua co-produtora Dima Gharbawi Shaibani (ela própria de uma família de refugiados iraquianos) decidiram que essas histórias seriam melhor contadas em um webdocumentário (webdoc), no qual o espectador pudesse escolher as histórias a que gostaria de assistir e interagir com elas.

“Os números são difíceis de processar e você esquece que essa guerra tem como alvo pessoas reais, com vidas inteiras e que tiveram que deixar tudo para trás e se mudar para uma vida incerta”, disse em entrevista à revista Diáspora. Segundo ela, o motivo do projeto foi “conhecer de verdade as pessoas por trás dos números”, afirma Reem.

A peça foi produzida ao longo de um ano e meio, sendo com um ano inteiro dedicado somente ao trabalho em campo. “Life on Hold” tem como foco a vida de dez pessoas de diferentes origens socioeconomicas e faixas etárias. A série busca evitar a política, realçando, em vez disso, histórias individuais as quais incluem crianças, uma empresária, um ex-médico e um renomado poeta beduíno.

“O objetivo do projeto é ver além dos rótulos,” diz Haddad. “Parte da narrativa do refugiado é a perda e, embora isso seja importante, tentamos não enfocar essa narrativa, mas sim o futuro dessas pessoas”, detalha a diretora. A jornada para um abrigo é, de acordo com Haddad, apenas o começo da vida de um refugiado. O desafio de fato aparece depois, quando chega a um novo país e tem que juntar os pedaços para uma nova vida.

O desafio [da vida] de fato aparece depois, quando o refugiado chega a um novo país e tem que juntar os pedaços para uma nova vida.

Oficialmente, há hoje pouco mais de um milhão de refugiados sírios registrados no Líbano, mas muitos permanecem não registrados. Estimativas apontam que, em 2014, o número de refugiados chegou a aproximadamente dois milhões, representando um quarto da população em território libanês. Um Estado pequeno e frágil como o Líbano está encontrando dificuldades para lidar com esses números. Durante as filmagens, a maior parte dos refugiados sírios encontrava abrigo nesse país, mas desde maio de 2015 o governo libanês deixou de aceitar novos refugiados.

Os refugiados sírios estão espalhados por todo o Líbano. O país não ratificou a Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados, portanto o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) organizou campos improvisados sem tendas apropriadas, uma vez que não estão autorizados a montar campos de refugiados oficiais. Dessa forma, não existem lá escolas ou outras instituições, como há em campos em países como a Jordânia ou Turquia.

Campos informais

Os refugiados não registrados vivem no Líbano em diversas locações, como fábricas e hospitais abandonados em Sabra e Shatila, o famoso campo de refugiados que abrigava palestinos e que, durante a Guerra Civil Libanesa em 1982, foi cenário de um famoso massacre. Nos campos informais, os refugiados têm acesso a alguma ajuda da ONU, mas os fatores externos não os favorecem. Estão expostos a um calor extremo no verão e a um frio extremo no inverno.

“A experiência de ir aos campos informais abriu meus olhos,” diz Haddad. “No fim do dia, nós voltamos ao hotel, mas eles ficam lá e é preocupante quando você volta fresco, de banho tomado e eles não podem fazer isso”, acrescenta.  

Life on Hold mostra um panorama de vidas variadas. Haifa, uma empresária de sucesso com boa condição financeira, era proprietária de um hotel na Síria, mas tinha pouco tempo para sua família. Com o conflito, seu hotel teve que ser fechado. Com o stress e  a perda do trabalho de uma vida toda, seu marido morreu. Ela então foi para o Líbano com seus filhos, tendo dinheiro para alugar um bom apartamento.

Memórias e readaptações

Haifa, como muitos outros sírios com mais dinheiro, pôde passar um tempo nos bairros nobres de Beirute frequentando cafés e restaurantes, sem conseguir, no entanto, lidar com sua perda. Para ela foi impossível se adaptar ao novo cenário ou se integrar. Haifa  diz que não se vê como refugiada. Ela anseia por sua terra natal, mas através da perda de sua vida anterior ela afirma ter redescoberto o amor por seus pais e sua família, pois, ao se refugiarem, passaram mais tempo juntos – diferente da época em Damasco, quando levavam uma vida muito ocupada.  

Foi a “primeira vez que eles se envolveram uns com os outros”, diz Haddad. A diretora disse ter sido inspirada pela história de Haifa, que falava e descrevia Damasco “com tanto amor, que ela cria uma linda imagem na sua mente”, acredita.

Conforme o conflito na Síria cria mais e mais refugiados, e estes se espalham pelo mundo, “Life on Hold” dá ao espectador uma visão sobre as pessoas por trás das manchetes de jornais e busca criar empatia por quem se encontra nessa situação. Como o renomado poeta beduíno Furati, que senta em um campo e vê seus filhos viverem sem ir para a escola. Para um intelectual, essa é um sofrimento indescritível.

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SOBRE A AUTORA:

 

Leila Lak é jornalista, documentarista e Chefe de Reportagem da REVISTA DIASPORA.

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