O número de refugiados sírios no mundo figura em torno de 4 milhões de pessoas. No Brasil, o número oficial é de 2100 pessoas.

Por Igor Paes Leme Lellis do Lago

 Desde 2011 a Síria presencia uma guerra civil em larga escala, envolvendo um grande número de atores sociais e as mais diversas variáveis de sentido para o conflito, o que implicaría na incerteza em relação a sua duração e aos seus desdobramentos. Sob violência cada vez mais intensa, criou-se um quadro de insegurança crescente para milhares de pessoas que se viram imersas em um conflito armado de grandes proporções. Nesse conflito que completará cinco anos, a Síria se tornou cenário de uma grave crise humanitária com fortes implicações regionais.

A constante sensação de insegurança resultou no deslocamento de populações, tanto no interior da própria Síria como para fora do país. De acordo com dados da ONU e do Observatório de Direitos Humanos da Síria (agência de comunicações específica sobre o tema e gerida por um homem sírio baseado na Inglaterra há 15 anos), estima-se que entre 250 mil a 330 mil pessoas tenham morrido nos últimos cinco anos. Com uma população total estimada em 22 milhões de habitantes antes da guerra, o país tem hoje, segundo a ONU, cerca de 7,6 milhões de deslocados internos e 3,9 milhões de refugiados no exterior.

Muitos sírios obtêm asilo em campos de refugiados situados principalmente em países vizinhos como Turquia, Líbano e Jordânia. Uma grande percentagem também reside no Iraque e no Egito, enquanto outros tentam chegar ao continente europeu, EUA, Canadá e países da América Latina, como o Brasil.

São Paulo e Rio de Janeiro: principais destinos

Muitos dos refugiados escolhem vir para cá por conta da facilidade de entrada no país, bem como à abertura do governo brasileiro em aprovar a solicitação de asilo a sírios. O país é signatário dos principais tratados internacionais de direitos humanos e possui uma lei de refúgio (nº 9.474/97) que contempla as principais resoluções regionais e internacionais sobre o tema e, com a intensificação do conflito no Oriente Médio, aprova todos os pedidos de refugiadoss sírios para o país.

De acordo com os dados da Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), o número de refugiados sírios no mundo figura em torno de 4 milhões de pessoas. No Brasil, é de cerca de 2100 pessoas.

Ao chegarem no Brasil, os desterrados instalam-se principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. Aqui, reconfiguram suas vidas e produzem diferentes tipos de memória sobre a Síria, se posicionando de acordo com as múltiplas interpretações sobre a guerra que devasta seu país de origem.

Adel Bakkour, jovem refugiado de 22 anos, estuda química na Universidade Federal do Rio de Janeiro(UF-RJ), conversou com a Revista Diáspora portando orgulhoso em seu pescoço um pingente com os contornos do território sírio sob o pano de fundo da bandeira oficial síria.

Bakkour afirma que chegou ao Brasil acompanhado de seu irmão e por intermédio da irmã que já vivia no Brasil. Adel possui uma interpretação peculiar sobre a guerra: sendo ateu e tendo participado das primeiras manifestações contra o regime de Bashar al Assad, Adel vê a origem do conflito em uma questão sócio-política.

Ele avalia que as partes mais marginalizadas da população vão às ruas contra o regime sob o olhar cético dos mais abastados. Entretanto, Bakkour entende que a religião se apropria deste momento, reconfigurando e dando novos sentidos para o conflito. Segundo ele, a política deve se “utilizar da religião para atingir seu ponto”.

Já em São Paulo, homens e mulheres recém-chegados da Síria são acolhidos principalmente por instituições religiosas muçulmanas e cristãs. A Oásis Solidário, organização não-gorvernamental (ONG) originada na Mesquita do Pari, tem sua sede no tradicional bairro comercial do Brás em São Paulo, local onde se manifestam a heterogeneidade e a profusão de línguas dos seus muitos imigrantes, desde bolivianos e coreanos até sírios, palestinos e libaneses.

Apoio material e imaterial da cultura

Além de tentar auxiliar os refugiados das mais variadas formas – como a distribuição de doações e encaminhamento dos recém chegados para o primeiro emprego, o Oásis promove confraternizações que visam estabelecer vínculos entre os muitos refugiados sírios da cidade e áreas vizinhas. Estas reuniões promovem momentos para se lembrar da Síria, nas quais os refugiados buscam lembranças com intuito de recriar sentidos para suas trajetórias no Brasil. Assim, aquilo de antes era uma simples tarefa culinária em seu país de origem se transforma, no Brasil, em algo extremamente rentável chamado “comida árabe”.

Apesar da facilidade de entrada no País, os sírios sofrem com a falta de um amparo organizado por parte do governo brasileiro, o que deixa estas pessoas à própria sorte ou deixados aos cuidados de instituições de cunho religioso médio-oriental, como igrejas ortodoxas e mesquitas – e da Igreja Católica, no caso da instituto Cáritas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Este contexto produz, inclusive, o desejo de muitos em tentar sair do Brasil para chegar à Europa ou, até mesmo, retornar a Síria. O ato de buscar lembranças que produzam um novo sentido para suas vidas no Brasil revela a esperança de construir novas etapas para suas trajetórias longe da violência da guerra e de sonhar com uma Síria livre.

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