As contradições internas do conflito sírio passam por diversos grupos fora do espectro “Estado Islâmico versus forças pró-Bashar Al’assad”

Por Gisele Fonseca Chagas

Desemaranhar os vários fios que enredam a atual guerra na Síria é uma tarefa complexa, pois para entender a guinada dos protestos populares contra o regime de Bashar al-Assad para um conflito armado que provoca, há quatro anos, tamanha violência física e simbólica, é preciso primeiramente entender as especificidades históricas, políticas, sociais e econômicas que atravessaram a sociedade síria nas últimas décadas. Não se tratar de propor uma cronologia de acontecimentos e tampouco elaborar quadros explicativos sobre “quem é quem” no conflito, mas estar ciente que os atores sociais que o produzem no cotidiano têm suas próprias (e, portanto, divergentes) narrativas sobre a situação.

Para entender os efeitos da guerra, é preciso colocar em contexto os processos domésticos que a moveram e que continuam dando o tom das disputas entre os diferentes atores e seus alinhamentos no conflito. Se em setembro de 2015 a imagem do menino Aylan al-Kurdi, de 3 anos, morto em uma praia da Turquia conseguiu condensar e traduzir o horror da guerra na Síria para o mundo, em abril de 2011, em Deraa, uma província ao sul do país, a prisão, tortura e morte de Hamza al-Khatib, 13 anos, foi o epicentro das manifestações populares contra o status quo político.

O corpo mutilado de Hamza foi entregue à família pela polícia do regime de Bashar al-Assad e, em seguida, um vídeo feito por um membro da família mostrando o corpo desfigurado circulou rapidamente via internet, provocando uma onda de indignação em diferentes partes do território sírio. Um mês antes da morte de Hamza, protestos reivindicando “liberdade” e “justiça” já eram ecoados na mesma cidade, em resposta à prisão e tortura, pela polícia, de um grupo de adolescentes acusado de pichar o muro de uma escola com a frase “O povo quer a queda do regime”. A frase, compartilhada por manifestantes em ruas e praças de cidades e capitais do chamado mundo árabe, era slogan comum ao movimento de contestação política conhecido como “Primavera Árabe”.

 

Os caminhos da Primavera

Em 2011, as primeiras cidades sírias a se levantarem em protestos contra o governo foram aquelas localizadas em áreas periféricas, povoadas sobretudo por operários e trabalhadores rurais que pediam por liberdade, mas também por justiça, pelo fim da corrupção e por melhores condições de vida, uma vez que foram os setores da população mais atingidos negativamente pelas medidas econômicas liberais adotadas pelo regime de Bashar al-Assad, no poder desde 2000. Foram fatores internos, então, que levaram ao conflito.

 

Com o tempo, outras cidades tornaram-se palcos de protestos, até chegar aos grandes centros como Homs, Alepo e Damasco. No entanto, foram igual e brutalmente reprimidas pelas forças do regime. Naquele momento, as narrativas governistas descreviam os protestos como liderados por agentes terroristas externos que tinham como alvo desestabilizar o país, sobretudo a partir de estímulos ao sectarismo.

Pelo lado da oposição, as acusações eram de que o governo estava distribuindo desigualmente a violência, mobilizando a linguagem do sectarismo religioso como forma de promover tensões e cisões nas demonstrações dos sírios contrários a ele. Apesar de inúmeros manifestantes ecoarem a uma só voz o slogan “Uma, uma, uma, a Síria é uma”, em pouco tempo, a polarização sectária, que não foi o leimotiv dos protestos, ocupou os espaços seguindo a militarização do conflito pela conquista do poder.

Entender o posicionamento que as vertentes religiosas tomaram em relação ao regime só é possível considerando as relações de tensão e acomodação entre o governo do Ba’th e a elite religiosa sunita desde a década de 1970.

Em 2012, a guerra estava em aberto, arrastando, em linhas gerais e de forma não unânime, a maioria sunita para a oposição e as minorias (alauítas, xiítas, cristãs e outras) para a situação. No entanto, no próprio campo sunita sírio, encontram-se apoiadores do regime, incluindo autoridades religiosas e setores da alta burguesia urbana. O entendimento desses processos só é possível considerando as relações de tensão e acomodação entre o governo do Ba’th (partido nacionalista árabe surgido no pós Segunda Guerra Mundial) e o establishment religioso sírio sunita desde a década de 1970, mas sobretudo na Síria de Bashar al-Assad, conforme ressaltado pelo cientista político Thomas Pierret.

 

Foco errado no Estado Islâmico

É preciso destacar, contudo, que a guerra em andamento não se dá apenas entre Estado Islâmico e governo sírio – embora a mídia brasileira, em linhas gerais, ter como foco narrativo as ações do EI dado o imenso fascínio e horror que o grupo provoca nos corações e mentes globais.

Analistas internacionais reportam que os conflitos entre o EI e o governo sírio têm sido mínimos, com os dois lados tendo como alvo mais frequente os outros setores de oposição ao regime, estes formados por inúmeros grupos – tanto seculares, como o Exército da Síria Livre, quanto islamitas, como os que formam a Frente Islâmica. Todos esses grupos têm uma história e visões políticas próprias sobre suas ações. Se tomarmos as trajetórias individuais de alguns combatentes como ponto de análise, veremos que há casos de rompimentos com seus grupos de origem e sua inserção em outros, seja por conta de projetos políticos divergentes ou até mesmo pela necessidade de buscar uma melhor estratégia de sobrevivência, ainda que precária. Deserções e tentativas de deixar a Síria por parte desses militantes também são constantes.

Os conflitos entre o EI e o governo sírio têm sido mínimos, com os dois lados tendo como alvo mais frequente os outros setores de oposição ao regime, estes formados por inúmeros grupos – tanto seculares quanto islamitas.

Assim, a própria dinâmica do conflito, as interpretações que se têm sobre a experiência da violência e os diferentes e divergentes projetos políticos e visões de mundo que foram sendo forjados ao longo do tempo pelos combatentes, ou por quem está vivenciando cotidianamente o conflito, abrem caminhos para cisões e rupturas que levam até mesmo à mudanças de posição e de expectativas a respeito da realidade vivida e, sobretudo, de uma Síria do porvir.

Como qualquer outro estado-nação, a Síria é uma comunidade política que é diferentemente imaginada por seus cidadãos e que, em situações-limite como no caso da presente guerra civil, os posicionamentos e tensões que a violência generalizada impõem produzem diferentes visões do conflito, numa escala que pode ir do apocalipse à redenção, para ficarmos apenas com essas metáforas religiosas. Nesse caleidoscópio político movimentado pelo horror da guerra, também estão a nostalgia de um passado reimaginado e a esperança de que a vida precisa continuar.

Sobre a autora:

 

Gisele Fonseca Chagas é antropóloga, professora da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Núcleo de Estudos do Oriente Médio (NEOM/UFF).